PSICOLOGIA: ENSINO SECUNDRIO, PRIMEIRO ANO
TEXTOS DO MINISTRIO

        ENSINO SECUNDRIO

        PSICOLOGIA
        1974-75
        CURSO COMPLEMENTAR, PRIMEIRO ANO

        Texto 1
(A Psicologia: Cientfica e Mecnica)
        A Psicologia Como Cincia

A psicologia humana, tal como a concebe o "behaviorista", deve
elaborar-se  imitao da psicologia animal objectiva e experimental,
tomar o seu objecto, o seu mtodo, o seu fim de tal modo que haja no
duas psicologias, a humana e a animal, separadas por um tabique
estanque, ignorando-se mutuamente, com objectos, mtodos, fins
radicalmente diferentes, mas uma nica psicologia que tome lugar
entre as cincias da natureza.
Assim compreendida, a psicologia no trata da alma, da
conscincia, do esprito, mas do comportamento, isto , do conjunto
das reaces adaptativas, objectivamente observadas, que o organismo,
considerado como um todo, executa em resposta a estmulos, eles
tambm objectivamente observveis, provenientes do meio fsico ou
social em que o organismo vive. O seu mtodo j no  a introspeco
ou as suas formas larvais, mas a observao ordinria, o seu fim no
 a descrio analtica e estril da conscincia, mas a formulao de
leis de comportamento susceptveis de permitir previses e de
eventualmente fundamentar uma aco eficaz do homem sobre a natureza
humana. A psicologia humana  ento uma cincia indiscutvel, uma
cincia concreta porque parte da vida corrente, uma cincia til e
fecunda porque volta a encontrar essa vida e pode dar vantagem ao
homem.
Watson est convencido de que podemos definir a psicologia
humana como "a cincia do comportamento", que podemos elaborar uma
psicologia que se mantenha estritamente nos limites desta definio,
sem nunca mais usar os conceitos condenados de conscincia, de
contedos de conscincia, de esprito, de estados mentais, de
sensaes, de imagens, etc. E a sua definio de comportamento mostra
que , na verdade, a psicologia animal, com as suas preocupaes
biolgicas, que o leva a esta concepo. Uma psicologia humana, capaz
de satisfazer sbios, deve, diz ele, ter como ponto de partida "o
facto observvel de que todos os organismos, humanos e animais, se
adaptam ao seu meio mediante disposies inatas ou adquiridas, quer
tais disposies sejam perfeitas ou, ao contrrio, to defeituosas
que o ser dificilmente consiga manter a sua existncia.  este
carcter adaptativo das aces humanas e animais que se revela a
Watson como o facto fundamental. Insiste muitas vezes nesta ideia: 
constitui o tema do prefcio da sua "Psychology from the standpoint 
of behaviorist, e, em Behaviorism, considera como tarefa da 
psicologia enquanto cincia natural "o estudo da totalidade das 
adaptaes humanas". A concepo de Watson , portanto, de inspirao 
nitidamente biolgica, visto que acentua as interaces do organismo 
com o seu meio.

Tais disposies -- e esse  para Watson o segundo ponto de 
partida de uma psicologia cientfica -- so desencadeadas por 
estmulos. So estmulos, fenmenos objectivamente observveis, e no 
estados mentais, ideias, intenes, desejos, etc., que incitam os 
organismos a executar respostas adaptativas. O comportamento pode 
definir-se: o conjunto das respostas ajustadas aos estmulos que as 
desencadeiam. A psicologia e, portanto, essencialmente, o estudo da 
relao estmulo-resposta. E esta frmula, que se aplica tanto aos 
comportamentos mais elevados e mais complexos como s reaces 
inferiores e simples,  um esquema mecnico, porque, por um lado, a 
relao estmulo-resposta  uma relao de causa a efeito, e, por 
outro lado, a adaptao  concebida por Watson com o regresso a um 
equilbrio destrudo ou comprometido pela estimulao.
Le Behaviorisme, 
Vrin, Paris, 1942, 
In Panorama des Ides Contemporaines, N.R.F., Paris, 1957, pp. 
123-124.

        Texto 2

        O BEHAVIORISMO E O OBJECTO DA PSICOLOGIA


Em primeiro lugar, o behaviorista considera que o domnio real 
da psicologia no consiste seno em movimentos observveis. No se 
podem formular leis, no se podem praticar medies seno a propsito 
de coisas observveis, directa ou indirectamente. Ora, podemos 
observar comportamentos, isto , o que o organismo faz e diz. Notemos 
que, para Watson, a palavra  uma aco como qualquer outra: "dizer, 
que fazer, quer dizer comportar-se. Falar em voz alta ou para si 
mesmo (pensar)  um tipo de comportamento to observvel como jugar 
basebol."
O comportamento dos seres humanos pode ser sempre descrito em 
termos de "estmulos e respostas", quando observamos uma 
fragmentao, um segmento determinado. O que entendemos aqui por 
"estmulo" e "resposta"? Na terminologia wotsoniana,  mais ou menos 
o equivalente daquilo a que chamamos excitao e reaco, com um 
sentido um pouco mais lato. Por estmulo devemos entender "todo o 
objecto do meio geral e toda a modificao dos tecidos devida  
condio fisiolgica do animal, tal como a modificao que surge se o 
privamos de actividade sexual ou de comida, ou se o impedimos de 
fazer um ninho. Por resposta, entendemos tudo o que o animal faz como 
aproximar-se ou afastar-se de uma luz, estremecer com o barulho, ou 
ento actividades mais altamente organizadas, tais como a construo 
de um arranha-cus, um estabelecimento de planos, a procriao dos 
filhos, a redaco de livros, etc.

O behaviorismo , portanto, um sector das cincias naturais que 
toma como domnio prprio o campo total das adaptaes humanas. S 
quer recorrer aos mtodos das cincias objectivas, aos da medida, 
portanto da observao exterior. Como vemos, no  apenas uma 
psicologia de reaco, mas uma cincia do comportamento. O 
comportamento supe adaptaes ou ajustamentos constantes. Estas 
adaptaes tm uma srie de aspectos: dizem respeito tanto ao meio 
interno (o prprio corpo), como ao meio externo, revestindo-se este, 
por sua vez, de um carcter fisiolgico, tecnolgico, social.
O behaviorismo pretende que estas diferentes formas de adaptao 
-- isto , de respostas a estmulos dados -- so todas solidrias; 
implicam o homem total, e no algumas das suas partes. Notemos este 
primeiro ponto. H um segundo, igualmente importante: o behaviorista 
no pretende ser um puro espectador da actividade humana. quer 
control-la e orient-la, como se esforam por fazer todas as outras 
cincias naturais. As reaces humanas devem poder ser manipuladas 
como as outras reaces naturais. Agrupando os factos, 
experimentando, o behaviorista quer aprender a controlar e a prever; 
f-lo- segundo uma frmula que ser o leitemotiv de todos os 
trabalhos de Watson e que  apenas um postulado comum a toda a 
cincia, expresso mesma do causalismo: prever, sendo dado o 
estmulo, a reaco que se seguir, ou ento, sendo dada a reaco, 
reconhecer qual a situao ou o estmulo que a suscitou.
Pierre Naville, La Psychologie du Comportement, Paris, 
Gallimard, 1963, pp. 23-24 e 29-30.


        Texto 3

        PSICOLOGIA EXPERIMENTAL: OBJECTO


Com o risco de parecer negar distines sempre claras aos que 
tentam afirmar a sua originalidade doutrinal, pode-se dizer que a 
psicologia experimental encontrou a sua unidade. Apesar de ter 
partido de ramos de origem diferente, do estudo dos factos de 
conscincia, reuniu-se ao ponto de vista comum de Piron, Janet e 
Watson: a psicologia tem por objecto o homem vivo, manifestando-se em 
todas as suas actividades. Enquanto que Watson e os seus primeiros 
behavioristas, mais preocupados em fundar uma cincia do que em 
construir uma disciplina adequada ao seu objecto, tinham achado 
necessrio esvaziar o homem, antes de mais, e de consider-lo como 
simples n em que se entrelaam todas as relaes situao-resposta, 
todos os psiclogos, sejam quais forem as diferentes palavras que 
empregam, reconhecem hoje que para dar conhecimentos de um 
comportamento  preciso admitir, alm das variveis de situao, 
variveis intermedirias, isto , variveis ligadas  personalidade e 
que so, de qualquer modo, modalidades de reaco latentes, 
estruturadas e hierarquizadas. Fazendo isso, permanecem fiis ao seu 
objectivo fundamental: estudar o homem em situao, isto , nas suas 
relaes com o ambiente fsico e social. Estas variveis 
intermedirias no constituem, com efeito, um retorno ao homnculo 
inferior, que manusearia consciente ou inconscientemente os 
cordelinhos. Estas variveis intermedirias no so mais do que um 
subterfgio para reintroduzir na psicologia do comportamento os 
fenmenos de conscincia. Deu-se um passo fundamental graas a Janet 
e Freud, por um lado, e Binet e  escola de Wurzbourg, por outro 
lado.

Eles estabeleceram definitivamente que as determinaes dos 
contedos de conscincia escapam  prpria conscincia e, de modo 
mais geral, que a conscincia no  nem um espelho nem um olhar que 
atinja a realidade interior, mas uma funo de interpretao de 
dados, submetida a todas as eventualidades de uma funo. As suas 
manifestaes podem ser nelas apresentadas, atravs de modificaes 
do comportamento que conduzem  tomada de conscincia de uma situao 
ou, pelo menos, atravs de uma exteriorizao verbal desta tomada de 
conscincia.
Se o acordo est praticamente realizado quanto ao objecto da 
psicologia e aos seus mtodos fundamentais, verifica-se tambm que os 
grandes sistemas de interpretao, associacionismo, gestalt, 
funcionalismo, no se chocam j com a mesma violncia. A histria da 
psicologia  agora a dos seus grandes problemas: percepo, 
aprendizagem, processos intelectuais, etc.
Entretanto, um problema permanece e permanecer ainda: o das 
relaes entre os mecanismos fisiolgicos e os comportamentos 
correspondentes. O reducionismo e o paralelismo j no satisfazem 
ningum, mas sistema algum de explicao permite a apreenso das 
interaces psicossomticas.
Atravs dessas tentativas, a psicologia experimental provou a 
sua aptido em estudar as condutas humanas ou animais, cada vez mais 
complexas. Estamos muito longe da psicologia fisiolgica de Wundt, 
que limitava o campo da psicologia experimental ao horizonte estreito 
do estudo das sensaes, das percepes e das reaces motrizes. 
Hoje, as questes mais difceis, tal como a motivao, so objecto de 
estudos completos e complexos e a obra de Piaget fez progredir muito 
os nossos conhecimentos sobre os processos intelectuais. Por outro 
lado, vimos desabrochar uma psicologia animal cujo xito facilitou de 
novo a discusso dos mtodos da psicologia humana. O evolucionismo, 
que estimulou as pesquisas sobre o animal, est tambm na origem das 
primeiras observaes sistemticas da criana, sob a forma de 
monografias (Darwin, 1877; Freyer, 1877). O mtodo dos questionrios 
(Galton, 1876; Stanley Hall, 1891) amplia o campo das pesquisas. 
Depois vemos o tempo dos estudos sistemticos de uma psicologia 
descritiva e interpretativa das condutas da criana, que se constitui 
com os trabalhos de Binet, Thorndike, Claparde, Gesell, Piaget, 
Koffka, Wallon, Terman e Charlotte Buhler.
A poca de recorrer apenas  observao directa ou preparada 
est ultrapassada. A experimentao, para se fixar os factores 
determinantes do desenvolvimento da criana  de prtica corrente e 
s conhece os limites impostos pelo respeito  criana. Vimos tambm 
como uma psicologia gentica se desenvolveu com os estudos sobre a 
criana.

Por seu lado, a psicologia patolgica foi sendo chamada de 
experimental. Finalmente, como o j o indicmos, o mtodo 
experimental foi mesmo introduzido na psicologia social. Durante 
muito tempo, as diferenas individuais pareciam objecto de 
verificao mais do que de experimentao. A anlise factorial 
permitiu analisar e sintetizar essas verificaes, fornecendo 
hipteses estruturais. Desde Galton que os psiclogos se preocupam 
tambm em explicar a origem das diferenas individuais e em calcular 
em particular os respectivos domnios da natureza e da educao. Este 
problema delicado foi abordado por diferentes mtodos (gmeos, 
psicologia comparada das etnias, etc.) e permanece sempre actual.
Chega-se, deste modo, a uma psicologia completa que sabe levar 
em conta as leis gerais e as diferenas individuais.
P. Fraisse, J. Piaget, Tratado de Psicologia Experimental, 
1 vol. P.U.F., Paris, 1970, pp I e 72-74.

        Texto 4

        A CONDUTA COMO OBJECTO DA PSICOLOGIA


As insuficincias de uma psicologia centrada na noo de 
comportamento tal como os behavioristas o entendiam levou a que este 
conceito fosse alargado. Como Pierre Janet nos diz:
"Para aplicarmos aos homens a psicologia do comportamento,  
preciso no s dar um lugar  conscincia, mas ainda consider-la 
como uma complicao do acto que se acrescenta s condutas 
elementares, sem esquecer, na descrio dessas condutas, as suas 
formas superiores, tais como a crena. Podemos designar essa 
psicologia sob o nome de "psicologia da conduta". (P. Janet, 
"Autobiografie", tudes Philosophiques, 1946, pp. 85-86."
"O facto psicolgico  em definitivo uma conduta e enquanto tal 
implica um esquema de relaes que o psiclogo estuda. Com efeito, 
uma conduta  a manifestao de uma personalidade numa dada situao. 
Se chamamos R  conduta (para nos mantermos fiis  tradio anglo-
saxnica em que R  a inicial da resposta ou da reaco), Esta 
depende da natureza da personalidade (P) confrontada com uma situao 
(S) dada. Podemos ento escrever: R=f(P,S). Este modo de considerar 
uma conduta constitui efectivamente uma tomada de posio 
relativamente a debates histricos. Para alguns, a conscincia foi 
muito tempo considerada como a potncia criadora das condutas 
humanas. A revoluo contra esta posio insustentvel consistiu em 
encarar todas as condutas como reaces a estimulaes. A concepo 
dos tropismos de Loeb seria a posio extrema que se encontraria no 
plano mais geral em Watson e como mais nuances em Hull. Para eles, 
por exemplo, R=f(S). Woodorth em 1929, mostrou que era preciso 
complicar este esquema e nele introduzir u papel prprio do organismo 
propondo a sequncia S-O-R. Mas a noo de organismo apenas evoca as 
determinaes biolgicas do comportamento. No h dvida de que tem a 
vantagem de utilizar o mesmo quadro de referncias para a psicologia 
animal e a psicologia humana, mas introduz uma limitao inaceitvel. 
De resto, mesmo a noo de organismo  insuficiente em psicologia 
animal. Assim, preferimos dizer com outros autores, como Lewin e R. 
B. Cattell, que  uma personalidade que intervm em reaco a uma 
situao.

Para evitar toda a ambiguidade, temos de imediatamente 
acrescentar que cada termo da relao fundamental deve ser encarado, 
segundo os casos, a diferentes nveis. A conduta  o acto do sujeito. 
Este acto, embora sendo sempre uma reaco a uma situao,  mais ou 
menos elaborado por diversas instncias da personalidade. Quanto 
maior  a elaborao, maior  tambm o papel que a personalidade 
desempenha e mais preponderante  o aspecto da aco pessoal sobre o 
da reaco esteriotipada. Os reflexos e os automatismos so 
diferentes do acto ideomotor. 
A conduta (r) -- Uma mesma conduta pode ser encarada a 
diferentes nveis. Tem os seus componentes fisiolgicos (endcrinos, 
neurovegetativos, motores), mas tambm a sua estrutura de conjunto e 
em definitivo o seu resultado.
A situao (S) -- A situao pode tambm ser analisada em 
diferentes nveis. Ela  feita primeiramente das estimulaes fsicas 
que agem sobre os nossos receptores sensoriais enquanto tais. A luz, 
o barulho, os cheiros, tm influncias prprias. Mas ela corresponde 
tambm a percepes de objectos e a relaes entre coisas ou entre 
indivduos e essas percepes so simultaneamente determinadas por 
dados objectivos e por significaes que lhes atribui aquele que 
percebe.
O que conta, em ltima anlise, para a explicao de uma 
conduta,  a interaco existente entre a situao e o modo como o 
sujeito a apreende em funo da sua personalidade (do seu organismo, 
da sua experincia, do seu temperamento, das suas necessidades, 
etc.). Assente este ponto, temos de precisar a nossa frmula 
fundamental e no nos contentarmos mais com: R=f(S,P), mas sim 
escrevermos: R=f(s (seta dupla), P), indicando a dupla flexa que a 
conduta depende da interaco entre a situao e a personalidade do 
sujeito. 
A personalidade -- A personalidade (P) caracteriza-se 
evidentemente pela existncia de nveis diferentes de integrao. 
Faamos nossa, como ponto de partida, a definio de Sheldon: "a 
personalidade  "a organizao dinmica dos aspectos cognitivos, 
afectivos, conectivos, fisiolgicos e morfolgicos do indivduo.""
P. Fraisse e Jean Piaget,
Tratado de Psicologia Experimental, Tomo I, Paris, P.U.F., 1967, pp. 
75-78.

        Texto 5

        HOMEM, INDIVIDUALIDADE E MEIO

        A Psicologia Como Cincia


A vida do homem concreto desenrola-se, portanto, no seu nvel 
primrio, no trajecto que une a sua integrao no meio ao seu domnio 
do meio. Negar ou descurar a integrao, como o faz o partidrio do 
individualismo, ou ento, ao contrrio, esquivar-se ao domnio, como 
o escravo do instinto, por vezes, o profeta das heranas carnais,  
desarmar-nos ante foras que ao mesmo tempo, se recusa humanizar. A 
tarefa prpria do homem como pessoa consiste em mudar o significado 
da integrao, sem quebrar a sua corrente vivificante. O P.e 
Theilhard de Chardin ps em relevo, com felicidade, para alm das 
diversas "curvaturas" dos fsicos, uma "curvatura da pessoa" que 
actua sobre o mundo desde a sua origem para abrir caminho a uma 
autonomia cada vez mais afirmada da aco pessoal, ao mesmo tempo que 
a uma solidariedade cada vez mais lata do universo. Deste ponto de 
vista, no  o ambiente que  formador, embora permanea vivificante: 
so as estruturas impostas pelo homem, artificiais na medida em que 
so produto do seu esforo, mas profundamente naturais na medida em 
que realizam a obra da natureza. O ambiente sugere, prope, ocasiona, 
num termo mais activo, diremos mesmo que provoca a actividade 
formadora da pessoa: por si mesmo no d forma ao mundo humano. As 
influncias causais que dele partem devem, para constituir um 
ambiente humano, transformar-se em experincias vividas pelo homem, 
nicas criadoras de ambincia.  esta subtileza que transforma a 
integrao em encarnao, que faz de todo o meio humano, desde os 
humores e do sangue at ao Cu estrelado sobre as nossas cabeas, a 
carne vivificante da nossa vida. Tudo o que no  vivido deste modo 
no  ainda ambiente para o homem.
Como  que as coisas e as estrelas e os homens presentes se 
transformam na minha carne, a ponto de me ser mais dolorosa a 
separao ao deixar um amigo, uma casa amada, uma terra, do que 
separar-me de um membro?  que tal ambincia dada ou escolhida t-la-
ei escolhido uma vez como se escolhe um amigo, e ter-lhe-ei dado tudo 
quanto se d a um amigo, o tesouro daquilo que para mim tem um valor. 
Bem acima da simbiose, mais alto que o domnio, a ligao do homem 
como pessoa ao seu meio  uma assuno, uma elevao. Ao longo da 
existncia moldo em mim dois rostos: um  o rosto da carne delicada e 
de sangue; veremos que o meu carcter o esculpe com toques preciosos; 
o segundo  constitudo por homens e coisas: marca semelhante  
primeira demo de uma execuo mais vasta, pode alargar-se at aos 
limites do Cu e at aos confins da histria. Talho um e outro numa 
matria simultaneamente rebelde e dcil: numa primeira fase, 
alimento-me dela; numa segunda, submeto-a; numa terceira (mas as trs 
esto misturadas), transfiguro-a pelos valores que vivo e que fao 
resplandecer  minha volta. Os tristes pequenos burgueses fazem as 
tristes cidades das tristes tardes de domingo, como os rudes e vivos 
desbravadores das Glias fizeram variadas e amenas as paisagens de 
le-de-France, assim como deram origem a esse filsofo que at 
dominava os fantasmas do seu sono e esse outro que vencia uma dor de 
dentes com investigaes sobre a ciclide. Para a pessoa no h, 
portanto, coisas que sejam em absoluto coisas, carne que apenas seja 
corpo, homem que apenas seja estrangeiro. Toda a coisa, toda a carne, 
todo o semelhante, est na expectativa do cunho que os seres pessoais 
lhes imprimiro, ligando uma a uma as coisas e a carne, gradualmente, 
no vasto movimento de valorizao que j preparavam em seu lugar na 
evoluo e, numa palavra, organizando lentamente as vizinhanas em 
comunidades.
Se a integrao no ambiente  o primeiro dado da vida pessoal, o 
estudo do ambiente  organicamente o primeiro captulo da 
caractereologia. Num carcter no h sinais absolutos: os traos de 
carcter so relaes com o meio. No h carcter do homem isolado. O 
homem concreto, como o diz a fenomenologia alem, um tanto exagerada 
mas justamente,  um "eu-aqui-agora". Pode-se alargar a conhecida 
tese de M. Charles Blondel, admitindo que toda a loucura  a 
consequncia de uma ruptura com o meio: corporal, social e 
espiritual. Deste ponto de vista,  excelente a definio que A. 
Husemann d do carcter: "A repercusso da estrutura da personalidade 
na relao da pessoa com a estrutura do meio."
Emmanuel Mounier,
Trait du Caractre, Le Seuil, Paris, 1946, in Panorama des Ides 
Contemporaines, N.R.F., Paris, 1957, pp. 153-155.

        Texto 6

        SIGNIFICADOS DAS CONDUTAS

O esforo mais elementar para compreender algum, o caminho mais 
simples e mais imediato -- que  j toda a psicologia --, consiste em 
apreender de um modo sempre aproximado o que as coisas, os seres, os 
acontecimentos significam para si.

Se considerarmos o conjunto das circunstncias dadas em relao 
s quais age ou reage um sujeito humano, ou se considerarmos a 
conduta deste sujeito, mantendo em relao a essas circunstncias, em 
relao a esse sujeito, uma "exterioridade" que pensamos ser a 
garantia da nossa objectividade, o resultado inevitvel  a 
incompreenso total da sua conduta. Porque a nossa forma pseudo-
objectiva de considerar o conjunto das circunstncias dadas implica 
necessariamente a significao deste conjunto para ns: do mesmo modo 
que a considerao pseudo-objectiva a sua conduta  infalivelmente 
uma caracterizao dessa conduta (quanto mais no fosse para a 
qualificar, mesmo para a qualificar de absurda ou de incompreensvel) 
em relao quilo que significa para ns, em relao ao sentido que 
teria tido para ns, se ns a tivssemos adoptado, e finalmente ainda 
ao que essas circunstncias significam para ns... Encontro-me, por 
exemplo, na companhia de dois franceses, a quarenta quilmetros de 
Brazzaville. A termina a estrada alcatroada e comea a pista. Na 
beira da estrada h uma bomba de mo sobre uma pipa de ferro com 
gasolina, que nos permite encher o reservatrio do carro. Apesar do 
inslito, reconhecemos estes conjuntos de significaes e temos para 
lhes responder um conjunto de reaces culturais habituais. 
Perguntamos ao indgena da bomba se h alguma coisa para beber, 
porque faz calor. Conduz-nos  sua casa, a alguns passos ali, e 
descobrimos um compartimento que se assemelha a um bricabraque com 
peas isoladas e diversos bides, e num canto um enorme frigorfico 
ultramoderno, em cujo interior, iluminado, vimos, maravilhados, 
garrafas de cerveja, de coca-cola, de sumos de frutos, de guas 
minerais. Continuamos, pois, a mover-nos num universo de 
significaes reconhecidas. A filha da famlia indgena tira as 
rolhas com graa e desenvoltura. Pagamos em francos locais. Mas um de 
ns, com gestos, mmica e palavras, pede  rapariga, h pouco to 
amvel, que venha at diante de casa para lhe tirar o retrato. A 
vista da mquina fotogrfica provoca um comportamento de pnico. 
Insiste-se. isto indispe toda a famlia e retiramos perante a clera 
geral. Visivelmente, ser fotografada era para a rapariga uma 
significao inesperada. Num universo de coisas, de seres, de 
comportamentos que at a nos fora familiar, surgia bruscamente um 
universo de significaes mgicas desses indgenas, expresso pela sua 
conduta naquela circunstncia. Porm, esta reaco  para o indgena, 
dada a significao do incidente, perfeitamente coerente, e de tal 
maneira assim  que nos permite induzir essas significaes muito 
imperfeitamente compreendidas na medida em que as no situamos no seu 
contexto cultural e at na medida em que delas no partilhamos. A 
nossa objectividade satisfaz-se com a aceitao de que as coisas, as 
circunstncias, os acontecimentos, as relaes humanas, etc., possam 
ter sentidos diferentes daqueles que tm para ns. Assim, ns somos 
todos e sempre prisioneiros das significaes. Em determinadas 
condies e com certo mtodo, somos capazes de modificar as 
significaes do nosso universo e de simultaneamente modificar esse 
universo, mas no escapamos ao facto de nos banharmos inevitavelmente 
em significaes do prprio momento em que vivemos. Trata-se sempre 
de significaes para-tal-sujeito-que-as-percebe-e-as-vive. No h 
significaes objectivas. H significaes partilhadas, trocadas, mas 
no h significaes sem um sujeito ou antes um ser vivo -- para quem 
existam. O essencial psicolgico est, pois, ao nvel das situaes 
vividas por um sujeito e  incongruente  pr a questo filosfica de 
saber se qualquer coisa de objectivo corresponde ou no a estas 
significaes.
Roger Mucchieli,
Introduction  la Psychologie Structurale; Dessert, pp. 18-22..

        Texto 7

        OBJECTIVIDADE DA PSICOLOGIA


O psiclogo encontra-se perante condutas cuja significao 
integral  dada pela personalidade do sujeito mas onde os aspectos 
subjectivos e objectivos, como significaes conscientes e as que so 
simplesmente vividas, se misturam. Com este material poder ele fazer 
obra cientfica e o facto de ter de levar em conta essencialmente 
significaes ir conden-lo a no poder fazer obra objectiva? A 
situao, se  mais complexa, no  diferente da do sbio nas 
cincias da natureza. Ele tambm d as coisas e s suas relaes uma 
significao, porque toda a cincia  sempre uma obra do esprito. 
Como diz Wallon: "toda a cincia no  mais do que a tomada de 
conscincia pelo homem do universo; mas o controle experimental  a 
condio dessa cincia em todos os instantes." O mtodo determina 
efectivamente o modo de conhecimento. Todas as formas de conhecimento 
so uma tomada de conscincia, mas no so da mesma natureza. O poeta 
d uma significao ao Mundo ou aos seres, mas a sua actividade 
significante  propriamente subjectiva e no precisa de nenhum 
controle. O sbio procura extrair significaes objectivas de modo 
que cada observador, nas mesmas condies, chegue s mesmas 
concluses. Procura que a sua interpretao seja o menos marcada 
possvel pela equao pessoal e transforme os fenmenos para que o 
observador tenha um trabalho o menos ambguo possvel. A boa 
experincia deve ser tal que s possa ter uma significao, de modo 
que nenhum erro, mesmo dos sentidos, possa intervir. O psiclogo 
segue a mesma via e o seu esforo  o de precisar os mtodos que lhe 
permitam extrair a significao integral de cada conduta que no se 
resuma nem ao que o sujeito diz de si, nem a uma interpretao do 
observador, que correria o risco de no projectar mais do que os seus 
prprios problemas nessa conduta.

A cincia psicolgica constitui-se  medida que os mtodos 
permitem estudar o dinamismo das condutas, e que o conjunto dos 
conceitos se organiza num corpo de doutrina que de certo modo se 
separa da pessoa cientfica, no deixando de ser obra sua.
Assim, podem aparecer significaes novas de condutas que no 
eram dadas no sentido imediato que o sujeito ou o observador lhes 
atribua. Assim, por exemplo, quanto ao lapso, que no  um erro, mas 
um acto falhado. Deste modo, o homem no  transformado em coisa, ele 
 estudado como sujeito. No h, com efeito, relao inversa entre a 
objectividade da cincia e o facto de cada conduta ser assumida por 
um sujeito.
Fica a objeco de que o observador modifica, unicamente pela 
sua presena, a situao na qual se encontra um sujeito estudado. Uma 
vez mais temos em psicologia uma dificuldade clssica na cincia, mas 
aqui aumentada. O astrnomo deve ter em conta o sistema no qual ele e 
os seus instrumentos de medida esto inseridos. Em microfsica o 
facto de se examinar o objecto introduz modificaes no comportamento 
deste mesmo objecto. 
Se  possvel estabelecer uma psicologia cientfica, que tenha 
em conta o que h de singular e de subjectivo em toda a conduta 
humana, , pelo contrrio, impossvel ter um conhecimento cientfico 
de um indivduo, no em teoria, mas por uma impossibilidade de facto. 
Em nome do prprio esprito cientfico, temos de reconhecer a 
impossibilidade de verificar ou compreender exaustivamente o homem, 
porque nunca podemos ter conhecimento de todos os dados da sua vida 
biolgica, social e sobretudo psicolgica.
Paul Fraisse, 
Manuel Pratique de Psychologie exprimentale, P.U.F., 1959, pp. 34-
37.

        Texto 8

        PROGRAMA DA PSICOLOGIA CLNICA


Considerar a conduta na sua perspectiva prpria, salientar to 
fielmente quanto possvel as maneiras de ser e de reagir de um ser 
humano concreto e total mergulhado numa situao, procurar 
estabelecer o sentido, a estrutura e a gnese, descobrir os conflitos 
que motivam essa conduta e os passos que tendem a resolver esses 
conflitos, tal , em resumo, o programa da psicologia clnica. A 
diferena caracterstica entre a a atitude clnica e a atitude 
experimental pode ser formulada assim: O experimentador cria uma 
situao e controla artificialmente todos os seus factores, 
modificando s um factor de cada vez, de maneira a estudar as 
variaes relativas das respostas, fazendo abstraco do conjunto. O 
clnico, no podendo nem criar nem, sobretudo, controlar a situao 
de maneira a abstrair-se de parte das suas condies, esfora-se por 
remediar esse facto, colocando de novo os factores que o interessam 
no conjunto das suas condies: daqui a procura de uma explorao 
exaustiva. O experimentador e o clnico procuram, de tuas maneiras 
diferentes, atingir o mesmo fim: controlar as condies da conduta, o 
primeiro pondo fora de jogo o conjunto das condies e manipulando 
uma varivel independente, o segundo reconstituindo o conjunto das 
condies, e consegue-se que a primeira atitude possa conduzir a uma 
psicologia de tendncia atomstica ou molecular, a segunda a uma 
psicologia totalizante ou molar, uma a relaes universais e, neste 
sentido, intemporais, a outra  histria de um caso. Pelo estudo dos 
casos, o psiclogo aprende a abordar os seres humanos, a lev-los a 
expressar-se, a representar a sua vida e a sua conduta a favor da 
observao e da interpretao compreensiva de comportamentos 
considerados como significativos e expressivos. O psiclogo encontra 
no estudo dos casos um contacto directo com os problemas humanos; o 
que interessa  o ser humano como portador de um problema, e de um 
problema mal resolvido.
D. Lagache,
L'Unit de la Psychologie, P.U.F., 1969, pp. 32-33.

Mas a psicologia clnica e a psicologia experimental completam-
se; h at, entre elas, uma convergncia notvel. Para uma e outra 
psicologia  cincia da conduta, sendo esta compreendida como o 
conjunto das resposta significativas pelas quais o ser vivo, em 
situao, integra as tenes que ameaam a unidade e o equilbrio do 
organismo.
Idem, Ob. Cit., pp. 70-71.

        Texto 9

        A PSICOLOGIA  UMA CINCIA HISTRICA

"No seu contedo concreto, a psique do homem, a sua conscincia, 
a forma das suas ideias, dependem do seu modo de vida e da sua 
actividade e vo-se constituindo dentro do processo do seu 
desenvolvimento. Por isso, para compreender a conduta psquica dos 
animais,  de capital importncia o estudo do seu desenvolvimento 
dentro do processo histrico. A psicologia estuda a psique partindo 
das leis do seu desenvolvimento. Por isso, no s estuda cada uma das 
funes abstractas, mas ainda os processos psquicos e as qualidades 
dos indivduos concretos na sua ligao real com o meio ambiente. A 
psicologia humana estuda, pois, a psique, a conscincia do ser 
humano, como a de uma pessoa concreta que se encontra imersa num 
determinado sistema de relaes sociais. A conscincia humana forma-
se e desenvolve-se dentro do processo de actividade organizada 
socialmente (trabalho, ensino); , pois, um produto histrico. A 
psicologia humana no deixa de ser uma cincia natural, porque estuda 
a natureza psquica do homem. Mas , simultnea e precisamente por 
isso (e no apesar disso), uma cincia histrica, visto que a 
natureza humana , precisamente, um produto da histria.
As leis do ser social so as leis essenciais e directrizes do 
desenvolvimento humano. por isso, a psicologia deve partir destas 
para conhecer a psique humana, mas no deve nunca reduzir ou aplicar 
as leis psicolgicas s sociais, nem inversamente as sociais s 
psicolgicas. Por muito grande que seja a importncia da anlise 
fisiolgica dos mecanismos dos processos psquicos para a compreenso 
do ser ou essncia, no devem de modo algum aplicar-se as leis dos 
processos psquicos s leis dos processos fisiolgicos. 
O conhecimento psicolgico  o conhecimento do psquico que se 
determina por todas as correlaes essencialmente concretas em que se 
encontra a vida humana. Por ela estuda os mecanismos da psique e 
ainda o seu contedo concreto.

Com estas teses, ultrapassa-se no essencial a psicologia 
puramente abstracta e aproxima-se a psicologia das questes concretas 
da vida prtica."
S. L. Rubinstein,
Princpios de Psicologia Geral, 1 vol., Ed. Estampa, 1972, pp. 
51-52.

        Texto 10

        PSICOLOGIA CIENTFICA

Chamamos cientfica a toda a psicologia que se inspira nos 
princpios enunciados por Claude Bernard em 1865. A observao dos 
factos  a substncia de todo o saber cientfico. "O esprito do 
sbio", diz C. Bernard, "encontra-se sempre entre duas observaes, 
uma que serve de ponto de partida ao raciocnio, a outra que lhe 
serve de concluso." E  assim que Paul Fraisse, professor da 
Sorbona, escreve, apoiando-se em C. Bernard: "o mtodo experimental 
mede o abismo que separa o especulativo do cientfico." Hoje, a 
observao dos factos, a experimentao, a desconfiana relativamente 
s vastas teorias sintticas parecem-nos perfeitamente simples. Mas a 
atitude cientfica positiva no se adquiriu sem dificuldades. Por 
mais que Hume se esforasse por desligar a psicologia de todo o 
dogmatismo metafsico, por criar um modelo mecanista dos fenmenos 
mentais, permanece o que Fraisse chama o especulativo mais preocupado 
com uma concepo de conjunto do que com a observao minuciosa e 
prudente dos factos. Para que a cincia positiva adquirisse direitos 
de cidadania, foi necessrio que ela se libertasse da metafsica e 
ainda que ela fosse assumida por toda uma nova inteligncia 
correspondendo a uma mudana de classe social. Estes filsofos 
pertencem em geral ao terceiro estado; aquela burguesia cujo 
movimento ascendente, comeando desde h muito, atinge o seu mais 
alto nvel. O seu esprito positivo, pouco disposto  especulao 
pura, desejoso de resultados prticos, reflecte-se nos filsofos dos 
sculo XVIII. As concepes do homem so influenciadas pelas cincias 
naturais. A classificao, a comparao, a estruturao anatmica 
tornam-se instrumentos metodolgicos fundamentais. O homem  visto 
como um ser da natureza e estudado como tal.  neste momento, 
exactamente em 1732, que Christian Wolff, filsofo e matemtico 
alemo, d o nome de psicologia  nova cincia do homem.  nos 
ltimos dias do sculo XVIII, em 1799, que o mdico francs Cabanis 
(1757-1808) publica a sua memria intitulada "Des Rapports d Physique 
et d Moral". O problema no era novo, mas tinha sido posto de lado 
desde Descartes, porque ele levava directamente  ontologia. S podia 
ser retomado no esprito de uma concepo fenomenista  e era natural 
que fosse retomado por um mdico, desde que o sculo XVIII tinha 
feito evoluir os processos da investigao biolgica. Cabanis aplica 
 psicologia o raciocnio das cincias biolgicas e interpreta os 
factos da sensibilidade como factos biolgicos. As pesquisas diversas 
pem em causa a unidade da psicologia.

Apesar da converso intelectual, os acontecimentos vo, no 
entanto, mais devagar do que se poderia supor. Ter de se esperar 
pela segunda metade do sculo XIX para que se empreendam de forma 
sistemtica as pesquisas psicolgicas. Com efeito, s em 1860 aparece 
a primeira obra de psicologia experimental: "Elemente der 
Psychofisie" de Fechner. O problema da medida  finalmente atacado de 
frente: comparao entre o aumento de estmulos e o aumento de 
sensaes; determinao de uma relao matemtica entre uns e outros. 
A sensao cresce como o logaritmo da intensidade do estmulo; e foi 
a primeira lei da psicologia experimental. Ser preciso esperar ainda 
vinte anos para que seja criada por Wundt,  em 1879, o primeiro 
laboratrio de psicologia. As pesquisas de Wundt incidem 
principalmente sobre as medidas dos tempos de reaco em matria de 
percepo e de sensao. Mas o impulso est dado. Os mtodos 
fisiolgicos alargar-se-o neles ao estudo das sensaes, mas ainda 
aos processos psquicos mais complexos.  assim que o russo Pavlov 
(1849-1936), descobrindo nos ltimos anos do sculo XIX o reflexo 
condicionado, chega a associar conjuntos de excitaes fisiolgicas a 
conjuntos de reaces psquicas. A partir do fim do sculo XIX a 
psicologia experimental ganha uma extenso crescente em direces to 
diversas que a prpria unidade da psicologia foi posta em causa. A 
psicologia experimental no se reduz  psicologia de laboratrio. "o 
laboratrio  muitas vezes necessrio  experimentao, mas no  
seno um meio cujo alcance est subordinado ao fim cientfico 
prosseguido e  tcnica utilizada pela experimentao". P. Fraisse, 
La Psychologie Exprimental, Paris, P.U.F., que Sais-je). A 
psicologia experimental orienta-se hoje para as aplicaes mais 
frutuosas em matria de aprendizagem, de comunicao, de pedagogia, 
de relaes interpessoais, de conselho de orientao e de seleco 
profissional, estudo das necessidades e das motivaes. O psiclogo, 
doravante, tem o seu lugar reservado na administrao, na indstria, 
na escola, no exrcito, junto dos tribunais. A psicologia 
experimental apurou os seus mtodos. Durante muito tempo julgou-se 
que o experimentador se limitava  interpretao psicomtrica das 
suas observaes. De facto, ele foi rapidamente levado a ultrapassar 
resultados quantitativos para chegar a uma interpretao quanto  
significao das condutas individuais ou colectivas, no que foi 
ajudado pela psicologia clnica. A psicologia clnica ultrapassa a 
psicologia patolgica, como a psicologia experimental ultrapassa a 
psicologia de laboratrio. Entre a psicologia experimental e a 
psicologia clnica a diferena consiste em que a primeira utiliza, 
para uma situao dada, o mtodo de variao de factores um a um, ao 
passo que a segunda se encontra sempre perante um sujeito individual, 
que deve ser apreendido na totalidade da sua pessoa. Da, nos 
primeiros tempos da psicologia, uma oposio entre experimentalistas 
e defensores de uma psicologia clnica. Th. Ribot (11839-1916), 
dizia: " uma iluso acreditar que, porque se empregam processos 
matemticos, se chega a uma certeza matemtica"; e P. Janet (1859-
1942): "os nmeros  que deitaram a perder o mtodo dos testes".
Provavelmente o conflito era inevitvel quando as pesquisas da 
psicologia cientfica se faziam de maneira dispersa. Mas hoje as 
primeiras hostilidades desapareceram. Os exploradores do campo 
psicolgico apoiam-se mutuamente.
Dictionaire de la Psychologie Moderne, Marabout, 1 vol., 
pp. 262-266.

 

        FUNDAMENTOS BIOLGICOS DO COMPORTAMENTO

        TEXTO I

        LEIS FISIOLGICAS E PSICOLOGIA

A lei permanece o modelo de toda a verdade fsica. Pelo 
contrrio, "o fundamento no relacional" com o qual choca a biologia 
explicativa designa-se por "caracteres positivos",  a revelao de 
relaes objectivas de um novo gnero. As cargas elctricas locais 
num condutor elipside eram determinveis em funo das coordenadas 
do ponto considerado, da grandeza dos eixos e da grandeza da carga 
total. No  desta maneira, submetendo-se a uma mesma lei, que se 
unem os fenmenos locais num organismo.
O organismo distingue-se dos sistemas da fsica clssica, porque 
no admite a diviso no espao e no tempo. A funo nervosa no est 
pontualmente localizada, uma melodia cintica est totalmente 
presente desde o seu incio e os movimentos nos quais ela 
progressivamente se realiza no podem ser previstos seno em funo 
do conjunto. O organismo distingue-se tambm dos sistemas da fsica 
moderna, porque as unidades indivisveis de comportamento permanecem 
em fsica dados opacos, enquanto na biologia elas se tornam o meio de 
um novo gnero de inteleco: tornam-se a ligar, pouco a pouco, as 
particularidades de um organismo individual  sua capacidade de aco 
e a estrutura do corpo  no homem a expresso de carcter. A unidade 
dos sistemas fsicos  uma unidade de correlao; a dos organismos, 
uma unidade de significao. A coordenao pelas leis, como  
praticada pelo pensamento fsico, deixa nos fenmenos da vida um 
resduo que  acessvel a um outro gnero de coordenao: a 
coordenao pelo sentido. As mesmas razes, que tornam quimrica uma 
fsica completamente dedutiva, tornam quimrica tambm uma biologia 
completamente explicativa.
MERLEAU-PONTY, Existence et Dialectique, Textes Choisis. Collection 
SUP -- P.V.F., Paris, pp. 28-29.

        TEXTO II

        FISIOLOGIA E SISTEMA NERVOSO

A antiga fisiologia no estava errada quando punha em paralelo a 
actividade nervosa e as operaes da conscincia. Mas o mtodo de 
anlise elementar que decompe o todo numa soma de partes reais 
dissociava o funcionamento nervoso num mosaico de processos 
justapostos, repartia-os entre centros autnomos, reduzia os actos de 
conscincia  associao de contedos reais ou ao jogo combinado de 
faculdades abstractas. O paralelismo obtido era assim ilusrio. Pode-
se ainda fazer corresponder a sensaes isoladas, excitaes locais, 
mas  na condio de operar num meio artificial da experincia de 
laboratrio. As excitaes como as sensaes assim obtidas no so 
elementos integrantes do funcionamento nervoso normal ou da 
conscincia viva.

O descrdito da anlise real, em psicologia, como em fisiologia, 
fez substituir este paralelismo dos elementos ou dos contedos por um 
paralelismo funcional ou estrutural. J no se juntam dois a dois 
"factos psquicos" e "factos fisiolgicos". Reconhece-se que, a vida 
da conscincia e a vida do organismo no so feitas de uma poeira de 
acontecimentos externos uns aos outros, que psicologia e fisiologia 
procuram uma e outra os modos de organizao do comportamento e os 
graus da sua integrao, uma para os descrever, a outra para fixar o 
suporte corporal.
MERLEAU-PONTY, ob cit. p. 35.

        TEXTO III

        IMPORTNCIA DO CREBRO

Compreendemos cada vez melhor que o crebro no  um rgo 
qualquer cujo funcionamento possa despertar curiosidade ou apenas 
dizer respeito ao especialista. No  uma mecnica banal:  o rgo 
que faz do homem, um homem, uma pessoa. Orgo do pensamento e da 
aco, preside s mais altas funes psquicas ao agir pela via 
nervosa sobre todo o funcionamento orgnico. , pois, o rgo da 
sade, da vida humana equilibrada, plenamente humana. Devido a essa 
unidade psicossomtica de que  agente, toda a perturbao somtica 
que se repercute no crebro tende a causar uma perturbao espiritual 
e toda a preocupao espiritual se torna factor de uma doena 
orgnica. Tudo age sobre o crebro e o crebro age sobre tudo. No h 
teraputica em que o crebro e o sistema nervoso no estejam 
implicados. Este ponto de vista, que decorre da neurofisiologia 
moderna, no est ainda suficientemente difundido. A medicina 
cientfica ainda se mantm uma medicina de rgos que esquece o todo, 
o homem: a psicossomtica  muitas vezes tratada como uma nova 
especialidade. Sob pretexto de defender os valores espirituais 
humanos, afirmamos a sua transcendncia total, de tal modo que o o 
universo moderno cientfico e tcnico, voltado para a anlise 
quantitativa do material, desinteressa-se deles: ora, os poderes 
destes so tais que corremos o risco de levar a runa a humanidade. A 
verdadeira defesa do esprito deve ser realista e basear-se no modo 
como se realiza o espiritual no homem, graas ao funcionamento do 
crebro. 
PAUL CHAUCHARD, Le Cerveaux et la Conscience, Paris, "le Rayon de la 
Science", Seuil, 1969, pp. 137-138.
*/*
        TEXTO IV

I -- FUNES PSQUICAS E ENCFALO


O conjunto do sistema nervoso pode ser considerado como uma 
mquina bioelctrica de uma extraordinria complexidade. Sabe-se que 
a clula nervosa  uma fonte de electricidade, toda a excitao 
provoca uma perturbao da sua carga elctrica, por via qumica, que 
constitui o influxo nervoso. Este no  um fludo misterioso feito de 
"espritos animais" de que falava Descartes,  uma onda elctrica 
cuja velocidade de propagao podemos medir. Essa onda caminha 
atravs de neurnios contguos tendo a mesma cronaxia, regulada no 
seu trajecto pelas sinapses que, de acordo com leis definidas, 
facilitam a passagem, bloqueiam a via, ou mudam a agulha. A realidade 
deste processo fsico de transmisso de um mecanismo elctrico foi 
estabelecida por Lapicque ( ); demonstrou que, para que a transmisso 
fsica entre dois neurnios fosse possvel, era necessrio que entre 
ambos existisse um acordo funcional de cronaxias, ou isocronismo. 
Para outros fisiologistas, o papel do influxo consistia apenas em 
libertar uma hormona tissular a acetilcolina, a qual provocaria a 
transmisso, de elemento em elemento, agindo como um mediador 
qumico. O papel dos centros nervosos consiste essencialmente em 
orientar correctamente os influxos, tendo o poder de modificar as 
cronaxias dos diversos neurnios, conforme as necessidades. Esta 
metacronose, ou seja, mudana de cronaxias, tal como metamorfose 
significa mudana de forma,  sempre dirigida, sendo cada centro 
orientador submetido ao comando de outros centros rigorosamente 
hierarquizados e localizados principalmente no crebro.
 medida que subimos na escala animal,  medida que a reaco 
depende cada vez mais de uma excitao e mais da experincia passada, 
 medida que o comportamento se torna mais complexo, mais variado, 
mais adaptado, o sistema nervoso torna-se cada vez mais centralizado. 
A anatomia comparada mostra o desenvolvimento gradual do encfalo nos 
vertebrados superiores e a embriologia revela-nos um desenvolvimento 
semelhante no embrio humano. O peso do encfalo, relativamente ao do 
corpo, aumenta, os hemisfrios cerebrais, principalmente os lobos 
frontais, desenvolvem-se, o crtex cerebral pregueia-se numa 
quantidade de circunvolues que lhe aumentam a superfcie, ao mesmo 
tempo que se diferenciam as reas citoarquitectnicas. Essa 
diferenciao morfolgica pressupe uma heterogeneidade funcional. 
Poder-se- sobrepor  carta anatmica do crebro uma carta 
psicolgica? Eis o problema das localizaes cerebrais.
Nos primeiros anos do sculo dezanove, um mdico oriundo de Bade 
e tendo-se fixado em Paris, Gall, professava uma doutrina singular. 
Pretendia que as faculdades da alma se localizavam nas circunvolues 
cerebrais e como admitia que a forma do crnio se modela sobre a do 
crebro, concluia que  possvel determinar o carcter e as aptides 
de um indivduo atravs da simples explorao das bossas cranianas, 
estudo este designado por frenologia. O ponto de partida era 
puramente emprico. Gall, em criana, julgou notar que os seus 
condiscpulos dotados de melhor memria tinham os olhos salientes,  
superfcie da cabea, o que lhe pareceu significar um grande 
desenvolvimento dos lobos frontais vizinhos das rbitas, onde ele 
situou, sem outro argumento, a memria verbal. De suposio em 
suposio, pretendeu descobrir as "bossas" correspondentes a 
disposies to complexas como o pensamento da propriedade, a 
bondade, a firmeza, a aptido para a literatura. Era natural que 
hipteses to estravagantes encontrassem a oposio dos melhores 
espritos do seu tempo, entre os quais os de Laennec e Cuvier.

Em 1861, um cirurgio do hospital de Bictre, Paul Broca, fez a 
autpsia de um doente que perdera a linguagem, um afsico chamado 
Leborgne, cujo encfalo ainda hoje se pode ver no Museu Dupuytren, 
conservado em lcool. Paul Broca descobriu neste crebro de afsico 
uma leso da terceira circunvoluo frontal esquerda, designada mais 
tarde, circunvoluo de Broca, onde ele localizou, de acordo com as 
antecipaes empricas de Gall, o centro da linguagem.  difcil 
imaginar as polmicas nascidas desta verificao de Broca. O dogma da 
terceira frontal foi objecto de controvrsias eivadas de preocupaes 
estranhas  serenidade da cincia. Ser contra ou a favor da 
localizao cerebral era sinnimo de ser bom ou mau pensador. 
Todavia, os fisiologistas continuavam o seu caminho, Fritsch e Hitzig 
descobriram os centros motores do crtex cerebral, Ferrier o centro 
visual, Cecil Wernicke os centros sensoriais da linguagem. De acordo 
com as teorias psicolgicas reinantes, em especial o atomismo que 
decompe a vida do esprito nos seus elementos mais simples, encarou-
se o crebro como um polipeiro de imagens, esforando-se cada um por 
descobrir um centro novo, da msica, da geometria, etc.
Os excessos dos localizacionistas deviam conduzir a uma reaco. 
Primeiro Bergson, depois Pierre Marie, um baseando-se na anlise 
psicolgica e o outro em bases antomo-clnicas, criticaram a 
idolatria dos centros de imagens e, sob os golpes destes 
iconoclastas, a doutrina caiu no descrdito. Sob a sua primitiva 
forma, mecanicista e esttica, a teoria dos centros de imagens est 
definitivamente posta de lado, mas as crticas de Bergson e de Marie 
no podem aceitar-se em relao  imagem concebida como dinamismo 
associativo, ( ) concepo, alis, de acordo com os dados mais 
recentes da electrofisiologia cerebral. Independentemente destas 
discusses tericas, a experincia neurolgica de guerra, e, 
sobretudo os progressos da cirurgia cerebral, permitindo. conforme a 
perturbao de tal ou tal funo psquica, localizar um tumor 
cerebral, tendo em vista a sua ablao, mostravam que a hiptese das 
localizaes era, pelo menos, uma hiptese til e vivel. Por outro 
lado, a escola de Jackson, isto , os fisiologistas da descerebrao 
e os psiclogos da dissoluo, renovavam a perspectiva sobre a qual 
podem ser encaradas as localizaes cerebrais. Mostravam que a 
psicopatologia no se reduz aos dois conceitos de excitao e de 
inibio: qualquer leso ou inibio cerebral no tem apenas um 
aspecto negativo deficitrio, mas tambm um aspecto positivo que 
traduz a libertao de instncias subjacentes.  descerebrao 
lesional ou funcional corresponde, no plano psicolgico, a dissoluo 
com o seu duplo aspecto de deficit e de emancipao  sob este 
aspecto que hoje  possvel comear a entrever os respectivos papis 
do crtex e da base do crebro na vida psquica. 

        O PAPEL DO CRTEX

          H muitas zonas no crtex cerebral ainda mudas para o 
psicofisiologista, mas j lhe  possvel localizar funes sensrio-
motoras, a funo da linguagem, mesmo, de certo modo, as funes 
intelectuais superiores.

As funes sensrio-motoras sos as que presidem  sensao e ao 
movimento, ou, de uma maneira ainda mais geral,  impresso e  
expresso.
Pavlov descreveu no crtex cerebral analisadores sensoriais, 
ocupando cada um o seu territrio, cuja destruio faz desaparecer 
tal ou tal tipo de sensao e cuja leso parcial limita a 
diferenciao dos seus excitantes condicionais especficos. No 
territrio de cada analisador  possvel distinguir uma rea 
sensitiva destinada  reaco pura e simples, e uma rea 
psicossensitiva ou gnsica, situada na vizinhana da precedente, e 
destinada  elaborao e  utilizao da sensao percebida. Assim, a 
rea sensitivo-tctil ocupa a circunvoluo  parietal, ascendente, 
mas por trs encontra-se a rea psicossensitiva ou gnsica. A 
destruio da primeira origina a anestesia, a destruio da segunda 
provoca agnosia tctil: o doente faz a apreenso dos objectos, mas 
no os reconhece pelo tacto. Aqui  necessrio fazer ainda uma 
distino entre dois tipos de perturbaes para ns diferentes: a 
agnosia de diferenciao e a agnosia de reconhecimento: no primeiro 
caso, o doente percebe as sensaes elementares, mas  incapaz de 
lhes diferenas a intensidade e a extenso, no pode, pois, 
diferenar as matrias e as formas; no segundo caso, percebe as 
sensaes elementares e aprecia as diferenas de matria e de forma, 
mas tornou-se incapaz de reconhecer o tipo de objecto que palpa; 
diferencia, mas no reconhece ( ). Da mesma maneira, a rea 
sensitivo-visual ocupa os bordos da funda calcarina e a rea 
psicossensitiva ou gnsica localiza-se  sua volta. A destruio da 
primeira origina a hemianopsia, ou, se  bilateral, a cegueira; a 
destruio da segunda provoca a agnosia visual: o doente v mas no 
reconhece o que v; como acontecia com o tacto, pode haver tambm uma 
agnosia de diferenciao e uma agnosia de reconhecimento.
Mas ao lado dos analisadores da sensao existem tambm, no 
crtex, os efectores do movimento cujo territrio compreende uma rea 
motora propriamente dita e uma rea psicomotora ou prxica. A rea 
motora ocupa a circunvoluo frontal ascendente, consta de centros 
cuja excitao elctrica provoca movimentos dos membros, da face ou 
do tronco da metade do corpo do lado oposto, centros escalonados de 
tal forma que o esquema motor do homem representa-o deitado sobre a 
circunvoluo frontal ascendente, de cabea para baixo e os ps para 
cima. A rea psicomotora ou prxica situa-se adiante da precedente, a 
sua destruio no provoca paralisia, como sucede com a rea motora, 
mas sim a apraxia, isto , a impossibilidade de adaptar os movimentos 
a um fim determinado, de fazer do movimento um gesto.  agnosia, 
assimbolia da impresso, corresponde a apraxia, assimbolia da 
expresso.

A funo da linguagem aparece ligada  parte posterior do lobo 
temporal parietal esquerdo, a chamada zona de Wernicke, cuja leso 
origina a afasia. Mas a prpria situao da leso responsvel explica 
porque razo este sndroma se encontra to raramente no estado puro. 
 porque a zona de Wernicke se situa no ponto de encontro dos 
analisadores sensoriais e dos efectores prxicos que a sua 
sintomatologia se complica em agnosias e apraxias verbais de que ela 
 independente ( ).
A linguagem, lida ou ouvida, representa para os analisadores 
visual e auditivo uma diferenciao particularmente fina de 
excitantes condicionais complexos; tambm no nos admiraremos de ver 
as agnosias verbais, visuais ou atingidas de forma relativamente 
dissociada no meio das prprias agnosias sensoriais comuns, nem a 
agnosia visual verbal localizar-se no Gyrus parietalis, vizinho da 
esfera psquica da vista, como tambm a agnosia auditiva-verbal na 
vizinhana da esfera psquica da audio.
Da mesma forma, a linguagem verbal ou escrita representa para os 
efectores prxicos uma gesticulao particularmente complexa. A 
articulao verbal , afinal, uma gesticulao oro-larngea, 
localizando-se a anatria ou apraxia oro-larngica no p da terceira 
circunvoluo frontal esquerda, perto dos centros motores da oro-
laringe; a neurocirurgia trouxe uma confirmao importantssima a 
esta tese de Broca, de tal forma que Clovis Vincent observou anatria 
aps a resseco do p da terceira circunvoluo frontal esquerda.
A escrita no  mais que uma gesticulao digital localizando-se 
a agrafia ou apraxia digital na vizinhana do centro motor esquerdo 
correspondente  mo direita. E o que confirma esta integrao das 
gnosias e das praxias verbais no quadro das gnosias e das praxias 
comuns  a inverso da preponderncia simblica do hemisfrio 
cerebral esquerdo sobre o direito, observada nos indivduos canhotos.
As funes intelectuais superiores no so facilmente 
localizveis. A sua distino em funes autnomas tal como se faz na 
psicologia escolar corresponde mais a necessidades didcticas do que 
a exigncias da realidade. Por exemplo, a ateno voluntria no  
outra coisa se no um grau superior da conscincia, uma conscincia 
de estar consciente, uma tomada de conscincia, enfim, uma sntese 
mental.  precisamente a este plano da sntese mental que pertencem 
igualmente as funes intelectuais superiores que representam acima 
de tudo expresses individualizadas de uma mesma forma de actividade 
mental, entre as quais no h diferenas de qualidade, mas sim de 
grau, assim como a memria sob a forma de juzo de anterioridade, a 
percepo sob a forma de juzo de exterioridade. O seu deficit surge 
solidariamente de um deficit intelectual global, de uma regresso 
simultnea de um plano a outro.

Ora a actividade de sntese mental necessita da integridade dos 
lobos pr-frontais. No nos podemos basear, neste caso, sobre o 
estudo das leses pr-frontais unilaterais, dadas as capacidades 
vicariantes do lobo conservado, mas  um facto que a desfrontalizao 
bilateral, isto , a destruio total dos lobos pr-frontais,  
incompatvel com a manuteno de qualquer esforo intelectual. O 
comportamento dos grandes macacos antropides, cuja inteligncia foi 
notavelmente estudada por Kohler, torna-se, aps desfrontalizao, 
semelhante ao de autmatos. O mesmo sucede com os doentes em quem o 
neurocirurgio teve de fazer uma lobectomia pr-frontal bilateral no 
caso de certos tumores cerebrais, por exemplo. Perderam toda a 
iniciativa, toda a elaborao destes esquemas dinmicos, traduzidos 
em imagens pelo esforo intelectual; em face de um problema, mesmo 
que possuam todos os elementos necessrios, no conseguem encontrar a 
soluo, apresentam-se inertes, reduzidos a actividades automticas, 
respondendo s diferentes estimulaes por reflexos idnticos, tal 
como dementes. Olhando ao conjunto destes sintomas, o neurologista 
pode fazer o diagnstico de sndroma pr-frontal bilateral, que a 
encefalografia gasosa confirma, mostrando uma atrosia por vezes 
enorme destes lobos, a tal ponto que as bossas frontais se encontram 
quase vazias.
Atravs de todas estas observaes, podemos concluir o papel 
essencialmente intelectual do crtex, quer se trate de funes 
sensrio-motoras, quer da funo da linguagem ou de actividades de 
sntese criadora, reunindo fenmenos num fenmeno novo, diferente dos 
seus componentes.

        O PAPEL DA BASE

         As investigaes cerebrais dos psicofisiologistas limitaram-se 
de incio ao crtex, mas a pouco e pouco foram-se alargando  base do 
crebro e foi-se verificando a importncia considervel na vida 
psicolgica, propriamente dos ncleos opto-estriados e mais tarde do 
diencfalo; enquanto o papel do crtex  essencialmente intelectual, 
o papel da base  essencialmente afectivo.
Os ncleos opto-estriados so duas massas volumosas de 
substncia cinzenta situadas na base do crebro; a cama ptica ou 
tlamo e os corpos estriados derivam de duas formaes intimamente 
ligadas: o pallidum e o striatum. As suas funes neurolgicas so 
mltiplas, mas do ponto de vista estritamente psicolgico que nos 
interessa neste momento, salientaremos o papel importante que 
desempenham, como o crtex, mas num plano completamente diferente, 
nas funes sensrio-motoras de impresso e expresso.
O tlamo  um rgo essencialmente sensitivo.  apenas uma placa 
giratria para as vias sensitivas que sobem para o crtex,  tambm 
um receptor das impresses corporais superficiais e profundas de 
carcter elementar.  incapaz de fazer, como o crtex, diferenciaes 
finais da intensidade e extenso das sensaes, no compara nem mede, 
a sua actividade  grosseira, e, utilizando os termos de Head ( ), 
podemos qualific-la de protoptica, sendo a do crtex epicrtica. 
Mas o que caracteriza o papel do tlamo na sensao  o facto de 
parecer que ele rege a sua tonalidade afectiva, agradvel ou 
desagradvel, dolorosa ou voluptuosa.

A leso unilateral do tlamo conduz a um exagero extraordinrio 
do carcter afectivo das sensaes, no lado do corpo correspondente  
leso; as sensaes na maior parte das vezes exageram-se at  dor, e 
o mesmo  vlido tambm para as sensaes de carcter esttico, tendo 
sido demonstrado por Head que um talmico no sente a msica da mesma 
forma  esquerda e  direita. Todas as sensaes tm um componente 
afectivo e um componente representativo, aquele depende do tlamo, 
este do crtex; ora a leso do tlamo, segundo Head, tem precisamente 
o efeito de libertar do controlo do crtex. Por outras palavras, o 
sndroma talmico originaria uma dissoluo da sensao; o aspecto 
positivo da dissoluo seria representado pela exaltao do 
componente afectivo e o aspecto negativo constaria do deficit do 
componente intelectual, melhor, do deficit na apreciao fina dos 
limiares intensivo e extensivo. Como sempre, o afecto est aqui na 
razo inversa da representao.
Os corpos estriados constam de duas partes, uma 
filogeneticamente mais antiga, o pallidum, a outra filogeneticamente 
mais recente, o striatum. O pallidum controla a adaptao tnica dos 
msculos s diversas atitudes impostas pelas nossas reaces ao mundo 
exterior e a regulao dos movimentos automticos emocionais. A sua 
destruio bilateral provoca a rigidez muscular ou hipertonia, a 
perda da mmica emocional e de todos os automatismos primrios de 
origem remota na srie animal. O striatum, por um lado, exerce uma 
aco inibidora sobre o pallidum e os centros motores subjacentes, e, 
por outro, uma aco coordenadora sobre certos automatismos motores. 
A sua destruio bilateral d origem  hipotonia e ao aparecimento de 
movimentos espontneos incoordenados, indo at verdadeiras loucuras 
musculares, tais como as danas rpidas da Coreia ou as lentas 
reptaes das atetoses. Tambm aqui se trata de uma dissoluo cujo 
aspecto positivo, a libertao de automatismos motores, no 
representa mais do que a supresso de uma inibio.
Em conjunto, os corpos opto-estriados representam um sistema de 
integrao que, apesar de no possuir a plasticidade e a delicadeza 
do sistema de integrao cortical, nem por isso deixa de representar 
na escala nervosa um nvel de uma importncia considervel na 
regulao das funes sensrio-motoras.
Actualmente, a maior parte dos psicofisiologistas concentra a 
ateno sobre o papel psicolgico do hipotlamo ou, de uma maneira 
geral, o diencfalo. Pareceu-nos que se poderia sintetizar em duas 
funes essenciais: a regulao das oscilaes do humor e a regulao 
das oscilaes da conscincia ( .

           O humor ou, como se diz tambm, o estado tmico, oscila entre 
dois plos: a exaltao ou hipertemia e a atonia ou hipotimia. A 
exaltao do humor d-se no sentido da alegria, da expanso, da 
actividade, o que, num grau patolgico, constitui um estado 
maniforme, ou, no sentido da tristeza, da ansiedade, da inibio, o 
que, nu grau patolgico, constitui um estado melanclico ou 
depressivo. A atonia afectiva, a indiferena afectiva, observam-se 
patologicamente na demncia precoce, cujo humor frio  
caracterstico. Ora as leses do diencfalo, consecutivas a causas 
diversas, infeces, como a encefalite, ou tumores, do precisamente 
origem as estas diferentes variedades de perturbaes de humor. 
Observaes neurocirrgicas de uma importncia crucial foram as 
realizadas por Foerster e Gagel no decurso de intervenes sobre a 
base do crebro; desencadearam-se subitamente sobre a mesa operatria 
e por irritao do diencfalo, a euforia caracterstica da mania, com 
o seu cortejo sintomtico habitual de trocadilhos mais ou menos 
moriticos, causticidade, erotismo, agitao, versatilidade 
expansiva, reflectindo a fuga de ideias.
Tais factos foram assinalados mais tarde por outros 
neurocirurgies e por ns prprios, no decurso de simples 
encefalografias gasosas que incidem sobre a regio hipotalmica. A 
experimentao animal fornece um valioso apoio a estes dados 
clnicos, basta recordar as experincias j citadas de Cannon e Bard 
sobre os fenmenos "pseudo-afectivos" dos animais talmicos e 
potalmicos. 
         A conscincia tem sido definida de inmeras formas, mas sob o 
ponto de vista psicofisiolgico conscincia entende-se no sentido de 
vigilidade. Estar consciente  estar acordado, vgil, estar 
inconsciente  estar adormecido. Se  verdade, segundo escreveu 
Bergson, que dormir  desinteressar-se, a inconscincia do sono 
traduz o grau mais profundo da inateno  vida e todos os graus da 
conscincia so graus da ateno. A regulao da tenso psicolgica 
que preside  nossa ateno  vida no difere, na sua essncia, da 
regulao do sono e da viglia, sendo o estado de baixa tenso 
psicolgica vizinho do sono e o estado de alta tenso psicolgica uma 
vigilidade extrema.
O sono  uma relaxao psquica, uma distole; a conscincia uma 
contraco psquica, uma sstole.
Localizar um centro regulador das oscilaes da viglia e do 
sono , em ltima anlise, localizar um centro regulador das 
oscilaes da conscincia.
Ora h numerosos factos antomo-clnicos e experimentais que 
testemunham a existncia de um dispositivo anatmico desse gnero, no 
diencfalo. 

Em 1917, o surto epidmico de encefalite letrgica permitiu 
verificar anatomicamente, em numerosos casos, a existncia de leses 
do diencfalo responsveis pela letargia. Muitas outras leses 
dienceflicas se revelaram na origem de sonolncia mrbida, 
realizando todas as transies entre os sonos paroxsticos ou 
narcolepsias, os sonos prolongados ou letargias e os sonos 
irreversveis ou comas. Mas estes factos antomo-clnicos prestaram-
se mal  determinao precisa de um centro, por causa da difuso 
habitual de leses. A demonstrao experimental foi feita por Demole 
( ), em 1927, injectando gota a gota, na regio infundibular de 
coelhos e gatyos, um soluto de Ringer contendo doses infinitesimais 
de cloreto de clcio; obtinha assim um sono profundo, mais ou menos 
duradouro, e capaz de se interromper quando se substitua o soluto de 
clcio por um soluto de cloreto de sdio ou de potssio. Depois 
vieram experincias baseadas sobre a injeco de ies metlicos no 
hipotlamo e sobre a produo de leses mecnicas ou elctricas no 
hipotlamo; desta forma, Bergreen e Moberg demonstraram que a simples 
picada de uma agulha, num ponto exacto situado atrs do ncleo 
infundibular, bastava para adormecer o animal; e tambm Hess ( ), de 
Zurique, numa srie de experincias realizadas entre 1925 e 1936, 
mostrou que, fazendo passar uma corrente elctrica atravs da rea 
hipotalmica, se obtinha o sono.
Alguns resultados discordantes mostrando que a estimulao 
ligeira daquela mesma regio conduzia no  sonolncia e  
hipersnia, mas, pelo contrrio,  excitao psquica e  insnia, 
levaram a rever a noo inicial de um centro do sono e a substitu-la 
pela de um centro do despertar, cuja estimulao conduz  viglia e  
paralisia do sono. Esta concepo, fisiologicamente mais 
satisfatria, est de acordo com a teoria txica do sono, sustentada 
principalmente por M. Piron, na qual a hipnotoxina agiria para todos 
os efeitos como que entorpecendo o centro vgil. A esta 
experimentao no animal ia corresponder a experimentao no homem, 
realizada pelos neurocirurgies, de Foerster e Gagel a Clovis 
Vincent, que observaram a perda sbita de conscincia ao serem feitas 
manobras operatrias no pavimento do terceiro ventrculo: o doente, 
acordado at esse momento, adormece na mesa de operaes, desde que 
se aborde esta regio.
Devemos concluir, como se pretendeu, que o sono deve ser 
localizado ao diencfalo e no ao crtex cerebral.  uma 
interpretao errada.  certo que o sono est ligado a uma alterao 
profunda do crtex cerebral, o que  comprovado, entre outras formas, 
pela elctroencefalografia que nos mostra a lentificao das ondas 
elctricas corticais, mas o que se verifica  que esta modificao da 
actividade cortical est subordinada  modificao de um centro 
dienceflico que surge como um verdadeiro aparelho de regulao da 
viglia e do sono e, de certo modo, como um comutador. Se ele est 
aberto, o homem est acordado, se ele est fechado, o homem dorme. o 
sono pode ser considerado como uma inibio cortical de origem 
dienceflica, e esta definio est em completo acordo com as 
verificaes dos neurofisiologistas pertencentes s escolas mais 
diversas, a escola reflexolgica de Pavlov, que o define como uma 
inibio cortical de todos os analisadores;
a escola electroencefalogrfica de Bremer, definindo-o pelo bloqueio 
dos influxos aferentes ao crtex, tal como o realizam os hipnticos 
de aco dienceflica ou a desaferentao experimental do 
teleencfalo ( ); a escola cronaximtrica de Lapicque, que afirma que 
dormir  perder a subordinao dos neurnios e localiza no diencfalo 
o centro regulador das cronaxias corticais ( .

           Em concluso, o papel do crtex  essencialmente intelectual e o 
papel da base  essencialmente afectivo, podendo dizer-se, em 
conjunto, que um  o crebro da representao e o outro o crebro do 
afecto. Mas existem entre eles interaces estreitas. O crtex 
controla a base e a base controla o crtex. As leses bilaterais do 
crtex conduzem a libertaes da actividade tradutora da emancipao 
dos centros da base, por enfraquecimento da sua tutela; as 
modificaes funcionais ou lesionais da base conduzem, por intermdio 
do centro regulador do sono e da viglia, a excitaes corticais com 
excitao psquica e insnia e a inibies corticais, com inibio 
psquica e hipersnia. Assim, o crtex tem aco sobre a regulao 
afectiva e a base sobre a regulao intelectual. Por qualquer 
perspectiva que se observe, as funes psquicas do encfalo 
aparecem-nos hierarquizadas, subordinadas e, utilizando a primeira 
expresso de Sherrington, integradas. 

        II -- FUNES PSQUICAS E ENDCRINAS

Os progressos da fisiologia das glndulas de secreo interna 
abriram numerosos captulos da psicofisiologia e mostraram, em 
especial, o papel das hormonas na vida instintivo-afectiva ( ).
As hormonas masculinas e femininas, as hormonas tiroideia e 
paratiroideia, as hormonas supra-renais, as do pncreas e do fgado 
endcrino, as da hipfise, que tm sob a sua dependncia todo o 
sistema endcrino, desempenham um papel to importante que, por um 
exagero lamentvel, se chegou a concluir que a "frmula psquica" de 
um indivduo se reduzia  sua "frmula endcrina".
Quando chegarmos ao estudo da psicofisiologia individual veremos 
o que pensar das doutrinas que se esforam por assimilar os tipos 
humanos a tipos endcrinos; de momento, procuraremos apenas analisar 
se tal ou tal funo psquica se pode relacionar de certo modo com 
tal ou tal funo endcrina.
Neste campo, o exemplo do instinto sexual  particularmente 
instrutivo. A experimentao animal, tal como a patologia humana, 
comprovam a existncia de uma relao estreita entre o instinto 
gensico e as hormonas sexuais. Sabe-se que nos batrquios o perodo 
do cio se d na primavera e  caracterizado pelo reflexo do abrao. 
Se Se extirpam os testculos  r, o reflexo do abrao desaparece ao 
mesmo tempo que o instinto gensico: o macho torna-se indiferente 
perante a fmea. Se se injectam a esta r castrada extractos 
testiculares provenientes de qualquer espcie animal, batrquios, 
aves ou mamferos, o desejo gensico reaparece e com ele o reflexo do 
abrao. Steinach demonstrou mesmo que o crebro e a espinal-medula do 
macho continham, na primavera, um princpio erotizante que, 
injectando o extracto desses rgos sob a pele de um macho castrado, 
se fazia renascer o instinto sexual, como se a glndula genital 
tivesse produzido na poca do cio uma hormona que erotiza o sistema 
nervoso.

Pzard ( ) e Caridroit, experimentando em galinceos, afirmaram 
que o galo difere da galinha pelos seis caracteres seguintes 
(sobretudo aparentes nas raas seleccionadas): a plumagem, o 
desenvolvimento do esporo, o desenvolvimento da crista, o canto, o 
ardor sexual, o carcter combativo. Se se extirpam os testculos do 
galo, o animal transforma-se tanto sobre o ponto de vista fsico como 
psquico, o canto acaba, a crista atrofia-se, como tambm o carcter 
combativo deixa de se manifestar, o ardor gensico extingue-se e por 
vezes d lugar a um instinto feminino. Por outro lado, a plumagem no 
se modifica e, se a operao foi feita num animal jovem, o esporo 
desenvolve-se normalmente. Se se fizer a mesma experincia na 
galinha, observa-se que as penas que caem so substitudas por penas 
de aspecto masculino, a crista e o esporo desenvolvem-se de tal modo 
que se torna muito semelhante ao macho. Tudo se passa como se os 
ovrios produzissem substncias capazes de impedir o desenvolvimento 
dos caracteres masculinos.  +possvel restituir a estes seres 
dessexuados o seu aspecto primitivo enxertando-lhes a glndula 
extirpada ou injectando-lhes extractos. V-se, ento, no capo, a 
crista desenvolver-se, reaparecer o canto, o ardor sexual e o 
carcter combativo. Para mais, depois da extirpao dos ovrios a uma 
galinha, seguida do enxerto de testculos de galo, foi possvel v-la 
comear a cantar e adquiri o carcter batalhador dos instintos do 
macho.
Cobaias machos privadas de testculos podem ser atradas pelos 
machos aps enxertos dos ovrios e adquirir reflexos prprios de 
fmea. Uma cobaia fmea,  qual se enxertem testculos ou se 
administre o extracto testicular -- testosterona --, depois de se lhe 
terem tirado os ovrios,  excitada por fmeas e adquire os reflexos 
do macho. 
Os efeitos psquicos produzidos pela ablao das glndulas 
sexuais dos mamferos, e, principalmente nos animais domsticos, sob 
os quais a operao se pratica quotidianamente, so bem conhecidos: 
sabe-se, por exemplo, a diferena radical de comportamento entre o 
touro e o boi.
Os resultados desta experimentao no animal aplicam-se em 
grande escala ao homem. Os efeitos da castrao, pelo menos quando 
praticada antes da puberdade, testemunham-no. O instinto gensico no 
volta a aparecer, bem como os caracteres sexuais secundrios 
morfolgicos (modificaes dos rgos sexuais secundrios, do 
esqueleto, da laringe, do sistema piloso) e psicolgicos; conhece-se 
desde a antiguidade a psicofisiologia do eunuco. Os resultados da 
castrao viril e feminina conduziram Maraon a uma curiosa teoria da 
sexualidade, segundo a qual todos os seres, bissexuados na sua 
origem, sofrem uma evoluo do tipo feminino para o masculino. Seja 
ou no,  certo que os machos e as fmeas elaboram hormonas mistas, 
em propores, efectivamente, muito diferentes. A constituio destas 
hormonas -- no homem a testosterona, na mulher a foliculina e a 
lutena --  quimicamente conhecida da at ao dizer-se que o 
problema do instinto gensico se reduz a um problema hormonal, 
faltava apenas um passo, passo que foi tambm dado, e, assim, 
pretendeu-se que todas as deficincias e aberraes deste instinto, 
to frequentes na clnica humana, se reduziam a insuficincias ou a 
desequilbrios hormonais. 

           E  aqui, como em muitas outras circunstncias, que o mtodo 
patolgico mostra a sua superioridade incontestvel em relao  
experimentao animal; s ele nos revela a verdadeira estrutura das 
funes psquicas do homem. A funo sexual, no homem, no tem a 
simplicidade peridica que tem nos batrquios e nos galinceos. A 
sexualidade humana no se reduz  testosterona.
Se  verdade, como pensamos, que toda a funo psquica  uma 
hierarquia de estruturas, as funes instintivas em geral e o 
instinto sexual em particular no escapam a essa lei. Ele resulta, 
como os outros instintos, de uma infra-estrutura biolgica e de uma 
supra-estrutura social, correspondendo a um processo infinitamente 
complexo de socializao e de espiritualizao das tendncias. Aquela 
repercute-se sobre esta e transforma-a profundamente.
As numerosas dissolues da sexualidade que observamos na 
clnica humana s excepcionalmente so explicveis por desequilbrios 
hormonais. Pela expresso  "dissoluo da sexualidade" designamos no 
apenas os simples deficits, mas as perverses, segundo a doutrina 
freudiana, a qual v precisamente nestas perverses paragens ou 
regresses da sexualidade a estados evolutivos do desenvolvimento da 
libido, doutrina que Freud resumiu nesta pequena frmula: "ningum se 
torna perverso, fica-o." A obra de Freud mostra a distino 
indispensvel entre a genitalidade, cujas manifestaes surgem na 
puberdade, em funo das modificaes endcrinas hormonais e 
humorais, e a sexualidade, cujas manifestaes aparecem na criana, 
desde os primeiros anos de vida. A existncia desta sexualidade 
infantil, demonstrada, e cujo desenvolvimento  to importante para o 
desenvolvimento da futura sexualidade do adulto, parece depender, no 
de influncias hormonais, mas de influncias sociais, entre as quais, 
principalmente, as influncias dos pais, origem fundamental dos 
complexos afectivos.
Desde a sua origem, a sexualidade , toda ela, eivada de cargas 
afectivas. A funo sexual, tal como  vulgarmente entendida, 
representa uma integrao do instinto gensico e do instinto sexual, 
em sentido lato, integrao harmoniosa, cujas dissolues, separando 
a super-estrutura social da infra-estrutura biolgica, demonstram a 
sua fragilidade ( ).

Se nos alongmos um pouco sobre o problema do instinto sexual, 
foi porque nos pareceu muito representativo dos resultados e limites 
da psicofisiologia endcrina. Um estudo sistemtico deveria encarar 
sucessivamente o papel de cada hormona sobre a vida psquica. A 
ablao da glndula tiroideia, dano origem ao mixidema ps-
operatrio, ou  sua insuficincia manifesta em todos os mixidemas e 
hipotiroidismos, acompanha-se, sobretudo nos jovens, de uma 
lentificao considervel da actividade intelectual, indo desde a 
simples lentificao da ideao, com viscosidade mental, at aos 
atrasos mentais mais tpicos. Tais perturbaes so, evidentemente, 
devidas ao deficit de hormona tiroideia, uma vez que a administrao 
de extractos tiroideus, de qualquer espcie animal, ou da sua 
substncia activa -- a a tiroxina --, quimicamente isolvel e 
susceptvel de se sintetizar, corrige-as e cura-as.
Por outro lado, a hiperfuno das glndula tiroideia, tal como 
se verifica na doena de Basedow, acompanha-se de hiperemotividade, 
irascibilidade, agitao, insnia, e pode originar verdadeiras 
psicoses.
A hormona paratiroideia, ou paratormona, desempenha um papel 
importante na regulao da excitabilidade nervosa, pelo facto de 
reger electricamente o metabolismo do clcio.
As supra-renais actuam simultaneamente pela sua hormona cortical 
-- o cortisol --, cujos efeitos so, por vezes, notveis, em certas 
astenias psicossomticas, e cuja hiperactividade espontnea pode 
determinar virilismo psicossomtico, e pela sua hormona medular -- a 
adrenalina --j, excitante especfico do sistema neuro-vegetativo 
cujo papel na emoo foi particularmente demonstrado por Cannon.
Exactamente pelo facto de assegurarem o equilbrio do meio 
interno, cujas flutuaes se repercutem tanto no equilbrio psquico, 
todas as glndulas endcrinas, e, por exemplo, o fgado, o pncreas, 
cuja insulina preside ao metabolismo dos acares, intervm mais ou 
menos directamente nas regulaes fisiolgicas.
A hipfise anterior pode ser actualmente considerada, segundo a 
expresso de Cushing, como um verdadeiro crebro endcrino. Com 
efeito, ela segrega uma quantidade de hormonas, as estimulinas, que 
tm sob a sua dependncia a secreo de todas as outras glndulas 
endcrinas; ovrios e testculos, tiroideias e paratiroideias, 
pncreas, crtex supra-renal e medula supra-renal, todas lhe esto 
subordinadas. O sistema endcrino, tal como o sistema nervoso,  uma 
hierarquia, uma integrao funcional de equilbrios hormonais, e a 
hipfise representa o seu mais alto nvel de integrao glandular. A 
hiper ou hipossecreo daquelas estimulinas hipofisrias originam as 
mesmas perturbaes que a hiper ou hipofuno da glndula cuja 
secreo depende da estimulina correspondente. Assim, em presena de 
um sndroma endcrino, seja qual for a sua expresso clnica, 
tiroideia, supra-renal, genital, convm averiguar se no ser antes 
uma manifestao real da disfuno da glndula-chefe. 
Mas a expresso bem clara, empregada por Cushing, justifica-se 
duplamente: a hipfise  o crebro endcrino, no s porque  a 
glndula-chefe, mas tambm porque  glndula cerebral. A sua 
localizao na base do crebro, ligada ao hipotlamo pela haste 
pituitria, fazia prever correlaes estreitas hipfiso-
hipotalmicas, confirmadas pelo estudo histofisiolgico devido 
principalmente a Russy e Mosinger ( ) e a Rmy Collin ( ).

As correlaes entre a hipfise e o hipotlamo fazem-se em dois 
sentidos: por um lado, os centros excitossecretrios do diencfalo 
agem sobre o funcionamento hipofisrio; por outro lado, a aco 
directa dos produtos glandulares da hipfise exerce uma activao 
constante sobre os centros do diencfalo. A hipfise e o hipotlamo 
constituem um complexo neuro-glandular em que  difcil dissociar 
nitidamente o papel de cada um.
A psicofisiologia hipotlamo-hipofisria mostra, de uma forma 
to evidente, esta interaco e  muitas vezes difcil descobrir o 
que se deve  hipfise ou ao hipotlamo.  o que se passa, por 
exemplo, com a regulao dos grandes instintos vitais, tais como o 
instinto gensico ou o instinto da sede.
Um sndroma de insuficincia genital do tipo do infantilismo 
(persistncia, na idade adulta, dos caracteres infantis) pode 
traduzir uma hipossecreo das estimulinas genitais produzidas pela 
hipfise e pe a hiptese de um tumor desta glndula. Acompanha-se 
ainda, alis, de uma obesidade tpica, dando em conjunto o sindroma 
adiposo-genital descrito por Babinski e por Froelich. Neste caso, o 
deficit do instinto gensico no depende de uma leso primitiva das 
glndulas genitais, mas sim da sua insuficincia funcional, por sua 
vez consecutiva  insuficincia hipofisria. Ora verifica-se que uma 
leso estritamente hipotalmica, no atingindo de forma alguma a 
hipfise, pode ser responsvel pelo mesmo sndroma, quer se trate de 
infantilismo simples, quer da doena de Babinski-Froerlich; 
experincias muito recentes parecem mesmo demonstrar que a hipfise 
deixa de exercer a sua aco estimulante do desenvolvimento genital 
aps seco da haste pituitria que a liga ao hipotlamo.
Da mesma maneira a diabete inspida, doena caracterizada por um 
desregramento intenso da sede, com poliria, foi atribuda a leses 
hipofisrias ou a leses hipotalmicas, e depois a uma leso global 
do complexo hipotlamo-hipofisrio; ora os neurocirurgies, atingindo 
na mesa operatria o diencfalo, desencadearam subitamente, e, de 
certo modo, experimentalmente, a sede incontrolvel.  regulao dos 
grandes instintos vitais, tais como o desejo gensico e da sede, 
dependeria, tal como a regulao tmica, do hipotlamo?
O problema foi posto, mas est longe de se resolver. A 
maravilhosa srie de descobertas que mostrou sucessivamente o papel 
do hipotlamo nas regulaes neurovegetativas, nas regulaes 
metablicas, nas endcrinas, e, enfim, nas regulaes psicolgicas, 
no conduzir a um embarao semelhante ao que se seguiu s 
descobertas de Claude Bernard sobre a fisiologia do bulbo raquidiano?
A ser assim, o diencfalo tornar-se-ia um verdadeiro centro da 
personalidade, o ich zentrum de Ariens Kuppers e Descartes ter-se-ia 
apenas enganado no andar, ao colocar na epfise a localizao da 
alma. Tais afirmaes, todas elas gratuitas, apenas servem para 
desacreditar o interesse que os psicofisiologistas manifestam 
actualmente por esta regio da base. Acresce que, pela sua situao 
privilegiada, na confluncia do sistema nervoso da vida vegetativa e 
do sistema nervoso da vida de relao, o hipotlamo representa um 
nvel de integrao somatopsquica de uma importncia muito 
particular.

        III -- RESERVAS SOBRE A LOCALIZAO DAS FUNES

Depois de termos encarado as tentativas de localizao das 
funes psquicas em relao ao sistema nervoso e ao sistema 
endcrino, convm introduzir nesta exposio esquemtica algumas 
restries: No se localiza uma funo em relao a um centro, mas em 
relao a um sistema; no se localiza uma funo num sistema, mas por 
sistema; no se localiza toda uma funo, mas somente os seus 
aspectos mais elementares.
1 no existe uma nica funo psquica que se possa atribuir, 
em conjunto, a um centro nico e estreitamente delimitado. Se usmos 
correntemente esta expresso foi subentendendo que sob esta 
designao de centro, se considerava apenas a pea bsica de um 
dispositivo anatmico complexo de um sistema. O Acto psquico mais 
simples exige sinergias anatmicas e funcionais mltiplas no tempo e 
no espao. Tal como o movimento cuja localizao temporal e espacial, 
notavelmente estudadas por Monakow e Mourgue ( ), exige todo um 
teclado cuja integridade  indispensvel  execuo da melodia 
quintica, assim o instinto sexual no poderia ser posto 
exclusivamente em correlao com as glndulas genitais, mas sim com 
todo o sistema neuro-endcrino, e em especial com os centros 
hipfiso-dienceflicos;

2 Localizar uma funo significa apenas que se localiza o 
dispositivo anatmico necessrio  exteriorizao dessa funo ( ). 
Uma vez destrudo tal dispositivo, a funo no pode manifestar-se,  
isto apenas o que podemos dizer. A propsito, o exemplo das relaes 
entre a memria e o crebro  particularmente significativo.  tese 
que localiza a memria no crebro, ope-se a tese bergsoniana, que 
considera apenas o crebro como o instrumento da memria. Parece-nos 
til recordar aqui o que Bergson escreveu, em "Matria e Memria": "a 
ideia de que o corpo conserva as recordaes sob a forma de 
dispositivos cerebrais, que as perdas e as diminuies da memria 
consistem na destruio mais ou menos completa destes mecanismos... 
no se confirma nem pelo raciocnio nem pelos factos. O que  
realmente atingido so as zonas sensoriais e motoras correspondentes 
a esse gnero de percepes e sobretudo os anexos que se permitem 
accion-las interiormente, de tal modo que a recordao, no 
encontrando a que se prender, acaba por se tornar praticamente 
impotente: ora em psicologia, impotncia significa inconscincia"; e, 
em "A Energia Espiritual": "As diversas memrias so bem localizveis 
no crebro, no sentido em que o crebro possui para cada espcie de 
recordaes um dispositivo especial destinado a converter a 
recordao pura em percepo ou imagem nascente." Ns demonstrmos j 
( ), que os conhecimentos modernamente adquiridos pela anatomia, pela 
experimentao, pela patologia, so compatveis com a tese 
bergsoniana. Assim, a patologia no nos mostra a destruio das 
recordaes mas sim o seu desaparecimento e os processos de 
explorao do inconsciente, tanto farmacodinmicos, como 
psicanalticos, revelam a persistncia inconsciente das recordaes e 
as condies do seu reaparecimento. 
Durante a evoluo de uma amnsia orgnica, certas recordaes podem 
ressuscitar bruscamente, em consequncia de um choque ou de uma 
teraputica, por exemplo. Isto seria inexplicvel se tivesse havido 
destruio de imagens estticas depositadas no crebro, mas no o  
se a leso cerebral, geradora da amnsia, conduziu somente a uma 
perturbao da realizao dinmica das imagens. Estas no so 
destrudas, no sabem onde se prender, perderam o seu ponto e apoio, 
o seu ponto de insero no real. Assim, o crebro pode ser 
considerado como um aparelho de actualizao das imagens, que as faz 
passar da existncia inconsciente  existncia consciente, da 
potncia ao acto. Sem dvida uma recordao no pode aparecer sem o 
auxlio do crebro, mas nada se ope a que ela possa existir sem 
aparecer. A atitude idealista (no sentido lato e no no estrito de 
Berkeley) continua, pois, to defensvel se se admitem as 
localizaes cerebrais (e no se pode deixar de as admitir, como era 
anteriormente. No est posto de lado que o crebro seja apenas o 
nosso intermedirio entre o inconsciente e o mundo exterior que ele 
toma sob a forma de impresses e que traduz sob a forma de 
expresses;
3 Por outro lado, cada uma das funes psquicas pode ser 
considerada sob a perspectiva de uma hierarquia de estruturas, uma 
vez que consta de uma infra-estrutura biolgica e de uma supra-
estrutura social. Esta distino  vlida para todas as funes 
psquicas, quer se trate de uma funo instintiva, como o instinto 
sexual, quer de uma funo intelectual, como a memria.  infra-
estrutura biolgica correspondem os aspectos mais elementares, 
localizveis, por exemplo, num territrio de analisadores ou de 
efectores;  supra-estrutura social correspondem os aspectos mais 
complexos, relacionados com a linguagem e, bem assim, integrados nos 
quadros sociais da inteligncia, considerada na sua totalidade; a sua 
localizao exacta  impossvel, uma vez que, actualmente, nos 
devemos limitar a verificar uma correlao global entre o 
desenvolvimento desta inteligncia e o do crtex cerebral, em geral, 
mais especialmente o dos lobos frontais.
A demncia decapita estas supra-estruturas, atingindo 
uniformemente as funes psquicas, tal como certos aspectos 
particulares da inteligncia geral. Nisto consiste a dissoluo 
psiquitrica; ope-se s dissolues neurolgicas, que traduzem, pelo 
contrrio, a leso electiva e especial de uma infra-estrutura 
orgnica, prejudicando o indivduo tal como a perda de um utenslio 
prejudica o operrio. Uma ataca a funo psquica por cima, a outra, 
por baixo, e a anlise destes dois modos de dissoluo leva-nos a 
compreender a sua integrao.
Jean Delay, A Psicofisiologia Humana, Liv. Almedina, Coimbra, 1973, 
pp 31-62.

   TEXTO V

        FUNCIONAMENTO DO CREBRO

O funcionamento cerebral, tal como o de todos os centros 
nervosos,  de origem reflexa, agulhagem de certas mensagens 
sensoriais sobre certos neurnios motores: uma agulha pica-me e eu 
retiro-a. Mas, enquanto no caso de um centro inferior como a medula, 
em que a rede nervosa  bastante simples, h simplesmente passagem da 
mensagem, num centro com actividade central reduzida, no caso do 
crebro, os sentidos superiores e a sensibilidade geral trazem 
continuamente mltiplas mensagens activadoras pelas entradas da rede 
nervosa, cuja complexa organizao ir ser activada no seu conjunto 
de modo permanente. 
As mensagens vo poder circular no interior do crebro pelos 
inmeros circuitos neurnicos sem obrigatoriamente se agulharem para 
os neurnios motores: esta agulhagem apenas ocorre em certos casos e 
especialmente se o quisermos. Por outro lado, o crebro activado no 
mais necessita de um fornecimento constante de mensagens sensoriais: 
continua a funcionar de maneira autnoma. O repouso sensorial que 
pode conduzir ao sono permite tambm que nos fechemos nos nossos 
pensamentos, que obtenhamos do crebro um funcionamento puramente 
cerebral. Tambm sem mensagens incidentes, podemos  discrio 
activar os nossos neurnios motores e dar uma resposta que no seja 
reflexa. A complexa activao do crebro vai, portanto, permitir que 
ele no mais esteja submetido ao automatismo da agulhagem reflexa e 
seja capaz de autonomia, portanto de espontaneidade; uma vez 
activado,  senhor da sua actividade: particularmente, pode 
reproduzir uma actividade passada, graas  memria e  imaginao; 
pode ser criador, quer dizer, organizador de tipos de actividades 
variadas. Uma tal diferena relativamente ao automatismo reflexo 
deve-se unicamente  complexidade cerebral; j na medula se manifesta 
uma amostra de autonomia e de actividade prpria.
O que  o pensamento, a conscincia, o esprito, sob o ponto de 
vista biolgico? Precisamente, essa actividade cerebral autnoma. A 
interioridade, no sentido espiritual,  assegurada pela actividade 
interna do crebro, onde se organiza a equivalncia cerebral, o 
reflexo do mundo exterior e de ns prprios.  por terem o seu 
crebro reduzido a um interior insuficiente que os animais no so 
capazes de espiritualidade interiorizada e reflectida do homem. 
Paul Chauchard, Le Cerveau et la Conscience, Paris, Le Rayon de la 
Science, Seuil, 1969, pp. 60 e 63.

        TEXTO VI

         Imvel, prolongado numa profunda e contnua sonolncia, o 
anencfalo observado por Edinger e Fisher mamou primeiro 
correctamente. As funes de suco e de nutrio eram regulares, a 
ponto de se ter podido fazer, a partir do quarto ms, uma alimentao 
a bibero. Ao contrrio dos anencfalos vulgares, este ser apenas 
privado de telencfalo apresentava reaces motoras como resposta a 
estmulos visuais e auditivos; estremecendo com o barulho, fechava as 
plpebras se lhe projectavam na retina uma luz viva e nunca 
reconheceu a me. Embora gesticulasse e chorasse muito, esta criana 
sem crebro nunca realizou nenhum movimento expressivo e at  morte 
a amnsia manteve-se absoluta.

A histria deste monstro sem crebro tem, para alm de tudo, um 
ensinamento preciso. Faz-nos tocar com o dedo, digamos assim, no 
abismo que separa o deficit funcional no co sem crebro e na criana 
sem crebro. No primeiro, cujo nmero de funes reflexas e 
instintivas se integram no sistema segmentrio, o comportamento 
aparece, depois da descerebrizao, bastante rico e variado; no 
segundo, ao contrrio, em que todas as actividades nervosas 
definitivamente hierarquizadas so comandadas pelo rgo 
telenceflico, as reaces que persistem na cerebrao chocam-nos 
pela sua imutvel fixidez e sobretudo pela sua monotonia desoladora. 
Mais ainda do que o macaco sem crebro de Kapus e Kreidl, o 
anencfalo que se lhe assemelha em diversos aspectos mostra-se 
despojado de qualquer actividade sinttica, do mnimo rudimento de 
vida afectiva e,  parte alguns reflexos muito elementares, e 
qualquer actividade verdadeiramente adaptada.
J. Lhermitte, in Psychologie, P. Foulqui, ed. de l'cole, Paris, 
1959, p. 22.

        TEXTO VII

Todos os homens actuais tm o mesmo coeficiente mdio de 
cefalizao que os separa dos antropides, mas o seu peso cerebral, 
superior, em mdia, aos antropides, apresenta grandes variaes 
individuais que no tm qualquer relao com o grau de inteligncia, 
que  aptido funcional inata ou adquirida; homens mais inteligentes 
podem ter um crebro menos volumoso. O Crebro menos pesado da mulher 
no  ndice de diferena intelectual.
Da mesma maneira, se explica que em patologia ou 
experimentalmente, ablaes cerebrais de grande importncia possam 
no acarretar diminuio psicolgica aprecivel se no forem 
afectadas zonas essenciais, como, por exemplo, a da linguagem.
Lasheley mostrou que se podia extrair uma quantidade importante 
de substncia cerebral do rato sem que ele manifestasse qualquer 
diminuio das suas possibilidades de comportamento, desde o momento 
que as zonas motoras e sensoriais fossem suficientemente respeitadas. 
J no se passa o mesmo com o macaco. No homem, pode-se extrair todo 
o hemisfrio oposto ao da linguagem sem diminuio a inteligncia.  
sabido que Pasteur, j hemiplgico, continuou as suas experincias. 

Seria falso, todavia, daqui concluir que, diminuindo assim a 
massa cerebral se prove a inutilidade da substncia extrada, 
dissociando de qualquer forma o psiquismo do crebro. Em primeiro 
lugar, o crebro, rgo muito malevel,  capaz de compensar em larga 
medida as suas zonas "prejudicadas", tanto mais que as destruies 
superficiais no desligam as diversas zonas do crebro que permanecem 
unidas em profundidade. Enquanto no adulto humano  impossvel 
extirpar, sem diminuio psicolgica grave, o crebro da linguagem, o 
mesmo no se passa com a criana, que aprende a falar com o crebro 
oposto que ainda mantm a possibilidade. O crebro humano  
superabundante em neurones; quando uma leso ou uma ablao suprimiu 
uma parte da rede, as mesmas relaes podem fazer-se por via 
desviada. As destruies cerebrais diminuem mais as possibilidades 
novas de aprendizagem do que afectam os automatismos j 
estabelecidos. O crebro mutilado de Pasteur continuava a ser o 
crebro de Pasteur, nas suas partes ss.  graas a este excesso de 
neurones que o crebro humano  um rgo de possibilidades 
extraordinrias de progresso cultural que do o sentido de progresso 
 histria humana. Todos os homens actuais, mesmo os mais atrasados 
australianos, tm o mesmo crebro, as mesmas possibilidades de 
origem, com ligeiras variantes individuais. A diferena entre os 
homens reside, sobretudo, na maneira como aprenderam a servir-se 
dessas possibilidades.
Paul Chauchard, Psychisme humain et psychisme animal, PUF, 1970, pp. 
45-46.

        TEXTO VIII 

"Aquele que pudesse olhar para o interior de um crebro em plena 
actividade, seguir o vaivm dos tomos e interpretar tudo o que eles 
fazem, esse saberia, sem dvida, alguma coisa do que se passa no 
esprito, mas no saberia grande coisa. Conheceria precisamente o que 
se pode exprimir por gestos, atitudes e movimentos do corpo. O resto 
escapar-lhe-ia. Estaria, em relao aos pensamentos e sentimentos que 
se passam no interior da sua conscincia, na mesma situao do 
espectador que v distintamente tudo o que se os actores fazem na 
cena, mas no ouve uma palavra do que dizem. A relao do crebro com 
o pensamento , portanto, complexa e subtil.
A actividade cerebral est para a actividade mental como os 
movimentos da batuta do chefe de orquestra esto para a sinfonia. A 
sinfonia ultrapassa em muito os movimentos que a medem. A vida do 
esprito ultrapassa da mesma maneira a vida do crebro; mas o crebro 
mantm, sem cessar, o esprito em contacto com as realidades. No , 
portanto, propriamente rgo de pensamento, nem de sentimento, nem de 
conscincia; mas ele (crebro) faz com que conscincia, sentimento e 
pensamento fiquem tensos sobre o real e, por consequncia, capazes de 
aco eficaz. Digamos, se quiserem, que o crebro  o rgo de 
ateno  vida."
Bergson, L'energie spirituelle, in G. Pascal, Les Grands Textes de la 
Philosofie, Bordas, pp. 232-233.

        TEXTO IX

        HEREDITARIEDADE


A continuidade do presente captulo pode parecer rudemente 
interrompida por esta repentina transio. Na realidade, esta 
transio segue-se logicamente. Vimos que, em virtude de a estrutura 
do organismo determinar a forma geral do seu comportamento, o estudo 
de psicologia tem de ter um certo conhecimento de fisiologia. O facto 
de no conseguirmos voar e de o canrio no poder ler  uma diferena 
de comportamento devida, em primeiro lugar, s diferenas entre a 
nossa desenvolvida anatomia e, sobretudo, ao nosso sistema nervoso e 
ao do canrio. Mas como se originam estas diferenas estruturais? 
Porque  que o homem tem um crtex cerebral convolucionado em lugar 
do crtex liso do canrio? Porque  que o canrio tem asas em vez de 
braos com mos hbeis? "hereditariedade"  a resposta bvia. Mas 
esta resposta s  til se compreendermos devidamente o que se 
entende por hereditariedade.
No herdamos caractersticas anatmicas como podemos herdar 
dinheiro. A transmisso por hereditariedade no  to directa nem to 
simples como esta, ainda que seja mais comum. O embrio humano parece 
precisamente to inumano como os dos outros vertebrados. Neste estado 
inicial, no tem um crtex enrugado nem mesmo braos com mos; tem s 
as potencialidades.
Se o embrio humano inicialmente no tem um crebro enrugado, 
como o adquire? A resposta a esta pergunta leva-nos directos ao papel 
da hereditariedade. Nas clulas do embrio humano existem agentes ou 
substncias que controlam as actividades bioqumicas responsveis 
pelo crescimento e desenvolvimento fisiolgicos. No estado 
embrionrio, estes agentes controlam o crescimento das clulas 
cerebrais, de tal maneira que, passada a fase inicial, venha a 
desenvolver-se, com o tempo, um crtex humano convolucionado. Da 
mesma maneira, agentes no interior das clulas do canrio controlam-
lhe o desenvolvimento, de tal maneira que resultam certas estruturas 
caractersticas. O que na realidade  herdado, so, portanto, agentes 
que controlam os processos imensamente complexos da constituio 
orgnica. Por exemplo, estritamente falando, no herdamos a cor dos 
olhos, herdamos agentes que controlam o aparecimento dos pigmentos 
particulares do olho.
O problema do que  herdado  importante, especialmente quando 
se consideram os contributos respectivos dados pela hereditariedade e 
o ambiente na determinao de vrios gneros de respostas. No uso 
quotidiano, o significado do termo "hereditariedade"  to vago que 
tende a confundir, mais que a clarificar, os problemas; a nossa 
tarefa, por agora, ser clarificar o termo, descrevendo o mecanismo 
subjacente responsvel pela transmisso hereditria de gerao em 
gerao. A cincia que trata deste assunto  a gentica.
H. Kendler, Introduo  Psicologia, I vol., Ed. F. C. Gulbenkian, 
pp. 188-189.

        TEXTO X

        O GENE E O SEU MEIO

Considermos os genes como unidades de hereditariedade que 
controlam o desenvolvimento fsico. Mas o que  que controla a 
actividade do gene? So eles completamente alheios a todas as 
actividades fisiolgicas? No so. Os genes encontram-se dentro dos 
cromossomas, no interior do ncleo, o qual, por sua vez se localiza 
dentro da clula. Os fenmenos que ocorrem nos cromossomas, no 
ncleo, no citoplasma da clula ou mesmo fora da clula, podem 
influenciar a operao dos genes.

Os genes, como todas as molculas, esto sujeitos a alteraes. 
Algumas destas alteraes podem ocorrer no decurso normal dos 
fenmenos; Outras podem ser produzidas artificialmente, em 
consequncia de foras fsicas provenientes do exterior. H. J. 
Mueller, distinguido com um prmio Nobel, verificou que era capaz de 
produzir alteraes estruturais em algumas moscas da fruta se as 
expusesse as um bombardeamento de raios x insuficiente pra lhes 
causar a morte. Estas alteraes persistiram nas geraes seguintes 
e, por consequncia, Mueller concluiu que os raios x alteravam 
permanentemente certas potencialidades determinantes da estrutura dos 
genes. Note-se que esta influncia ambiental foi exercida antes da 
fertilizao da clula.
O meio celular que rodeia os genes pode influenciar a sua 
expresso, isto , pode ter efeito sobre o que eles causam, durante o 
desenvolvimento do organismo. Experincias com ourios do mar, 
pequenos organismos marinhos, demonstram que as clulas que contm 
genes idnticos mas diferentes citoplasmas se desenvolvero 
diferentemente. Investigaes recentes, nas quais foi empregado um 
microscpio electrnico muito potente, feitas com pedaos de ovos de 
r de um milionsimo de polegada de espessura, puseram em evidncia 
delgadas fibras que conectam o ncleo com o citoplasma. Esta fibras 
podem ser as unidades estruturais pelas quais os genes do interior do 
ncleo so influenciados pelos fenmenos do interior do citoplasma.
O gnero de meio externo em que o embrio se desenvolve pode 
tambm influenciar o curso da determinao gentica. As larvas de 
certo peixe, se criadas numa soluo qumica especfica, viro a 
apresentar um olho em vez de dois.
Os bebs filhos de mes que fumam tendem a ser mais pequenos que 
os bebs filhos de mes que no fumam. Uma hiptese para explicar 
esta diferena  que o crescimento do feto da me que fuma fica 
ligeiramente enfezado por causa da reduzida corrente sangunea que 
atravessa a placenta durante a gravidez. 
A influncia ambiental sobre a determinao gentica pode tambm 
ocorrer depois do nascimento. No vero, o coelho das neves  da mesma 
cor que o seu acastanhado ambiente. Quando, porm, chega o outono e o 
tempo se torna mais frio, o coelho das neves comea a mudar de cor 
at que, no inverno, quando a neve cobre o terreno, fica inteiramente 
branco. No caso do coelho das neves, parece que alguma circunstncia 
caracterstica do meio durante os meses frios (baixa temperatura, 
dias pequenos) pode determinar a expresso dos genes.

Qual o contributo destes factos para a psicologia?  claro que 
os genes no fixam rigidamente o destino estrutural do organismo sem 
qualquer possibilidade de desvio. Os genes determinam o curso do 
desenvolvimento fisiolgico, controlando certas reaces bioqumicas 
das clulas. Mas a prpria actividade dos genes  influenciada pelo 
seu ambiente. Esta evidncia da interaco entre os agentes da 
hereditariedade e do ambiente refuta a noo geral de uma ntida e 
diviso entre os efeitos da hereditariedade e do ambiente. Na 
realidade, no pode descobrir-se uma ntida distino dos efeitos.  
o peso de nascena do beb humano devido a factores hereditrios ou a 
factores ambientais?  a cor da pele do coelho das neves produzida 
pelos factores hereditrios ou ambientais? Para nos exprimirmos com 
clareza, h que afirmar que no se pode responder a tais perguntas, 
porque ns sabemos que o peso de nascena das crianas e a cor da 
pele dos coelhos das neves so determinados pela interaco dos 
factores hereditrios e ambientais. Os genes pertencem sempre, de 
certo modo, ao ambiente e a sua influncia sobre o desenvolvimento 
tem de ser considerada em relao com ele. Em vez de considerar a 
hereditariedade e o ambiente como foras separadas e opostas, devemos 
aceitar o facto de que so inextrincavelmente interdependentes e, 
depois, procurar compreender a natureza das suas influncias 
recprocas.
H. Kendler, Introduo  Psicologia, I vol., ed. F. C. Gulbenkian, pp 
193-195.

        TEXTO XI

        O RECM-NASCIDO  J UM INDIVDUO

Logo de incio  valido para este novo e pequeno organismo que 
mais tarde ser uma das regras principais do processo vital: o facto 
de que a vida decorre, por um lado, segundo determinadas leis gerais 
e, por outro,  tambm sempre individual. Vejamos o que isto 
significa:
Logo de incio, por exemplo, todos os recm-nascidos so 
activos. No entanto, j nessa altura se verificam graus de 
actividades muito diversos, que, segundo parece hoje em dia a bons 
observadores, so congnitos e imutveis. Estes graus de actividade, 
dos quais por exemplo, margarete Fries distingue cinco, desde o mais 
lento ao mais rpido, parecem andar par a par com um ritmo congnito. 
Isto no significa necessariamente que todas as crianas que 
fazem desesperar as mes pela sua lentido em comer e em se vestir 
possuam um baixo grau congnito de actividade. A maior parte destes 
pequenos preguiosos encontra-se antes possuda de aborrecimento ou 
de esprito de oposio. E so necessrios estudos cuidadosos e 
especializados para se verificar o verdadeiro ritmo individual. 
Ouve-se constantemente repetir que todos os recm-nascidos se 
assemelham. E, de facto, utilizam-se frequentemente, nas clnicas, 
pequenas pulseiras com os nomes inscritos para que os bebs no sejam 
trocados. Apesar dessa semelhana superficial  e apesar da identidade 
de muitas formas de comportamento, existe, no entanto, a partir do 
primeiro grito, a partir das primeiras reaces  alimentao,  luz 
e ao som,  temperatura e  presso, uma forma individual 
absolutamente diversa de se dirigir ao mundo circundante. E, 
observando minuciosamente, encontra-se tambm muitas vezes uma 
expresso de rosto diferente.

        AS CARACTERSTICAS HEREDITRIAS E AS ADQUIRIDAS CONFLUEM LOGO DE 
INCIO

Saber em que grau o indivduo  determinado no seu 
desenvolvimento pelo que nele  congnito, ou seja pela 
hereditariedade, e em que grau o  pelas influncias do meio 
ambiente,  problema que interessou desde sempre o pensamento e aco 
humanos. Todos ns conhecemos as consequncias funestas que os 
pareceres radicalmente exagerados sobre o papel da hereditariedade 
produziram num passado recente.
Hoje em dia, os conhecimentos da cincia - exceptuando o que 
aprendemos a partir da moderna experincia educacional -- excluem 
todos os pontos de vista extremos no que se refere ao papel do factor 
hereditrio e do factor ambiente. 

Os conhecimentos adquiridos com a experincia educacional em 
institutos modernos, bem como os resultados preponderantemente 
favorveis das adopes realizadas por um nmero crescente de 
famlias, significam para todas as pessoas imparciais uma 
demonstrao viva da extraordinria fora formativa de um meio 
ambiente favorvel sob o ponto de vista educativo.
Ocupemo-nos aqui, porm, com os resultados mais recentes da 
cincia e reflictamos mais pormenorizadamente sobre eles, tendo em 
vista o interesse to divulgado pelo problema da hereditariedade e a 
sua grande importncia.
No necessitamos de nos deter em consideraes biolgicas 
pormenorizadas sobre genes, cromossomas e leis da hereditariedade. 
Para tal vim, o leitor poder consultar uma boa bibliografia 
biolgica de fcil compreenso, como por exemplo os livros de E. 
Weiser: "Assim Surge o Ser humano -- Acerca da Procriao e 
hereditariedade" o volume ilustrado, publicado pela casa Knaur, 
"Hereditariedade". A ns interessa-nos antes espertar a compreenso 
prtica para o papel que a hereditariedade desempenha no todo do 
processo de desenvolvimento de um ser humano. 
Dois conhecimentos recentes da moderna cincia se revelam ser de 
especial importncia para este aspecto. No primeiro caso trata-se dos 
resultados da investigao sobre o comportamento dos genes, essas 
pequenas estruturas, ultramicroscpicas, portadoras da 
hereditariedade. Estes genes ou factores hereditrios foram 
considerados desde a criao da cincia da hereditariedade no ano de 
1900 -- nessa altura voltou-se a descobrir as clebres experincias 
de Gregor Mendel dos anos de 1854 at 1866 --  como unidades 
fundamentais determinantes do desenvolvimento, imutveis e no 
influenciveis. Contudo prova-se -- e este  certamente um dos 
resultados mais sensacionais da bioqumica moderna -- que, em 
determinadas circunstncias e nos primeiros estdios do 
desenvolvimento, os genes so at certo grau influenciveis na sua 
funo. Este conhecimento representa sem dvida uma das maiores 
transformaes operadas nas ideias sobre os factores hereditrios que 
nos provinham de Gregor Mendel.
H, porm, um segundo conhecimento que ainda mais afecta as 
convices anteriores: uma grande quantidade de resultados tanto 
bioqumicos como neurolgicos, prova que, a partir do primeiro 
momento e vida, ou seja logo aps a fecundao, se fazem tambm 
sentir sobre o novo ser humano em formao as influncias do meio 
ambiente.
Quando dizemos "se fazem tambm sentir" queremos assim afirmar 
que estes novo e pequeno ser no  conformado inteiramente pelo mundo 
circundante, como afirmam certos socilogos que partilham de um ponto 
de vista extremo. O facto verdadeiro  antes que, a partir do momento 
da fecundao, comea a actuar uma estrutura congnita, tecida pela 
multiplicidade dos genes. Esta actividade, que lhe  peculiar e para 
a qual Ludwig von Bergalanffi foi um dos primeiros a chamar a 
ateno, provoca contudo imediatamente uma contra-actuao do meio 
ambiente em que decorre e essa contra-actuao influencia 
imediatamente a estrutura congnita e gentica. quer dizer, logo de 
incio se verifica uma actuao recproca e nesta "interaco" 
constante com o meio ambiente, como passamos a chamar  relao 
recproca entre hereditariedade e meio ambiente, vai crescendo o beb 
em formao, primeiro no interior da me, depois fora da me, no 
mundo.

Ningum duvidar, por um momento que seja, do grande alcance 
destes novos conhecimentos. Eles obrigam cada qual a reflectir sobre 
o seu prprio desenvolvimento e so de grande importncia pra todos 
os pais e para todos os que pretendem vir a ser pais algum dia. Por 
isso parece ser aconselhvel insistir mais neste aspecto para 
chegarmos a uma concluso sobre o significado mais especfico destes 
resultados.

         MAIS FCIL COMPROVAR A HEREDITARIEDADE POSTERIORMENTE DO QUE PREV-
LA

Deve-se frisar primeiramente que no convm interpretar mal os 
recentes resultados e concluir que no existe hereditariedade. Claro 
que a hereditariedade existe, apenas a variabilidade das 
caractersticas hereditrias  muito maior do que antigamente se 
supunha. O nmero de caractersticas hereditrias absolutamente 
comprovveis  muito mais limitado e por esse e outros motivos  
absolutamente mnima a possibilidade de prever aquilo que se espera.
Parece ser possvel com muito maior frequncia comprovar 
posteriormente que esta ou aquela particularidade, dote ou doena, 
foram herdados do que prever que iriam ser herdados, visto que  
verdadeiramente imprevisvel a combinao resultante das disposies 
hereditrias por ocasio da fuso das clulas germinativas, bem como 
a modificao operada pelas influncias do meio ambiente.
Assim, os pais ficam muitas vezes desiludidos por nenhum dos 
seus filhos revelar o mesmo talento musical que eles prprios 
possuem, pois esperavam que tal dote fosse herdado. Se tiverem mais 
do que apenas um ou dois filhos,  de prever que em todo o caso esse 
talento surja pelo menos em um deles. No , porm, possvel prev-
lo. Assim, por exemplo, a cantora Kirsten Flagstad provem de uma 
famlia dotada j h duas geraes de grande ouvido e talento 
musical, enquanto o clebre maestro Arturo Toscanini era o nico que 
na sua famlia revelava tais dotes.
Interessante, por outro lado,  o caso da famlia Fishberg. Isac 
Fishberg, russo da Ucrnia, foi msico profissional em Nova Iorque 
at aos noventa anos e aos cento e dois anos tocava flauta ainda to 
bem que tomava parte em concertos familiares juntamente com os seus 
filhos, msicos como ele. Todos os seus doze filhos, metade dos seus 
trinta e sete netos e muitos dos seus sessenta bisnetos so msicos 
altamente dotados e alguns deles profissionais -- paralelo 
convincente da conhecida ascendncia e descendncia genealgica do 
organista da Igreja de S. Toms, Joo Sebastio Bach.
Pelo contrrio, a conhecida famlia Engel, do Tirol, composta 
por nove membros, constituiu em dez anos uma orquestra familiar 
dirigida pelo pai, Professor de msica, e aprendeu a tocar cinquenta 
instrumentos e a executar um vasto repertrio, que exibiu perante uma 
assistncia internacional, sem que existissem quaisquer dotes 
ancestrais relevantes.
se quisermos estabelecer regras gerais sobre as qualidades mais 
ou menos devidas  hereditariedade, resulta o seguinte quadro:

Certas qualidades corpreas parecem ser mais regularmente 
transmitidas pela hereditariedade. Exemplos disso so a tendncia 
para maior ou menor longevidade, para maior ou menor rapidez no 
crescimento e para um determinado tipo de corpo, um dos factos 
demonstrados pelo clebre psiquiatra Ernst Kretschmer. , alm disso, 
hereditria a predisposio para gerar gmeos ou trigmeos, a 
disposio para certas fraquezas ou defeitos orgnicos e para algumas 
doenas, sobretudo para aquelas doenas do esprito que tm um 
fundamento fsico.
Frequentemente hereditrios so a velocidade de reaces, a 
habilidade ou falta de habilidade corporal e tcnica, 
particularidades de movimentos, grau de actividade, agudeza sensorial 
e sensibilidade, inteligncia e talentos especficos.

        PARA O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE O MUNDO CIRCUNDANTE  DE 
IMPORTNCIA DECISIVA

          essencial comprovar, sobretudo a partir do ponto de vista 
prtico, que o que vai decidir a personalidade  determinado logo de 
incio tanto ou mais pelas influncias do meio ambiente que pela 
carga hereditria.
Quando dizemos "logo de incio" inclumos tambm o perodo da 
gravidez. Com base em muitas experincias brilhantes, sabemos hoje 
que, logo a partir do momento da concepo, o novo e pequeno ser que 
comea a germinar dentro da me  influenciado e conformado 
consideravelmente no seu crescimento, na sua sade e em toda a sua 
estrutura corporal e anmica pelas circunstncias em que a gravidez 
decorre. Um desastre da me, uma doena infecciosa, uma grave 
excitao ou depresso anmica de grande durao podem ter uma 
influncia perniciosa sobre a criana, tanto sob o ponto de vista 
corporal como anmico. Toda a futura me conscienciosa considera 
assim um dever um modo de vida cuidadoso, uma vez que da sua sade 
tanto depende para o destino do pequeno ser em formao. 
Porm, durante o primeiro ano de vida da criana, o 
comportamento geral da me reveste ainda maior importncia.
 verdade que dissemos que o recm-nascido traz consigo para o 
mundo um determinado grau de actividade e passividade, de 
sensibilidade e irritabilidade, bem como outras qualidades. Uma me 
carinhosa e sensvel pode, porm, exercer logo de incio uma 
influncia benfica, contrariando de modo adequado determinadas 
fraquezas. Tomemos como exemplo um beb pouco activo, que se comporte 
passivamente ao beber, que seja portanto "preguioso", como se 
costuma dizer, e faa poucos esforos para receber a sua alimentao. 
A partir da sua primeira hora de vida o facto de o beb receber ou 
no a alimentao suficiente depender da pacincia e compreenso da 
me ou da pessoa que dele cuida; e a habilidade e amor podem mesmo 
lev-lo a mamar com aplicao.
Deste modo, podem-se canalizar para uma vida adequada muitas 
disposies deficientes e atenuar ou mesmo tornar ineficazes certas 
disposies pouco favorveis ao desenvolvimento da criana. Um 
comportamento errado, porm, pode produzir o efeito contrrio, 
reforando as disposies desfavorveis. Referir-nos-emos mais 
pormenorizadamente a este aspecto em diferentes passos desta obra.

Porm, quanto mais o organismo se desenvolve, mais importantes 
se vo revelando as influncias do meio ambiente. Para poder 
compreender bem este aspecto importa conhecer os factos fundamentais 
do crescimento e da maturao.
Ch. Buhler, A Psicologia na Vida do Nosso Tempo, Ed. da F. C. 
Gulbenkian, 1971, pp. 54-60.

        TEXTO XII

        HEREDITARIEDADE E MEIO AMBIENTE

Ao evocar-se a questo do meio ambiente pensa-se geralmente no 
meio que rodeia o indivduo, naquilo que se encontra fora do seu 
corpo. Mas ns vimos que os genes tm tambm um meio ambiente, meio 
que se encontra no interior de uma clula, ou seja, a parte da clula 
que rodeia os cromossomas. Chama-se o meio intracelular.
Alm disto, existe o meio da clula como um todo: as outras 
clulas que a rodeiam estimulam-na e agem sobre ela de diversos 
modos.  o meio intercelular e representa a influncia que uma clula 
exerce sobre a outra. Por vezes esta influncia vem de longe. As 
glndulas segregam e enviam os seus produtos, atravs da corrente 
sangunea, s clulas das outras partes do organismo, influenciando, 
assim, o seu desenvolvimento. Deste modo, as actividades dos 
neurnios podem tambm produzir correntes bioelctricas que, de outro 
modo, estimulam e influenciam o desenvolvimento das clulas vizinhas, 
sem no entanto estarem em contacto com elas.
H, alm disto, um meio exterior do organismo antes do 
nascimento, o seu meio ambiente pr-natal, que compreende o lquido 
amnitico que envolve o feto, a alimentao e as outras substncias 
que provm da corrente sangunea da me, e a presso exercida por 
este meio sobre os tecidos vizinhos. 
Aps o nascimento, o meio ambiente exterior alarga-se e 
apresenta uma grande variedade de contactos fsicos e sociais.  isto 
que ns entendemos geralmente por meio ambiente.
N. L. Munn, Trait de Psychologie, Payot, Paris, 1970, pp. 97-98.

        TEXTO XIII

        HEREDITARIEDADE E MEIO FSICO

Tal como os animais e as plantas submetidos a condies de vida 
anormal apresentam "flutuaes", tambm certas variaes das 
individualidades humanas so causadas pela diversidade das 
influncias a que esto sujeitas. E em primeiro lugar as do meio 
fsico. 
Cabanis deu a designao geral de regime ao conjunto dos hbitos 
fsicos, sendo o clima e os alimentos exemplos de elementos do 
regime. O papel do clima  considervel, pois modifica directamente o 
organismo e o carcter, e indirectamente impe ao homem hbitos que 
agem tambm sobre a sua mentalidade. A alimentao tem tambm 
influncia, conforme a sua abundncia, horrio, variedade;  
necessrio dar uma posio especial aos txicos.

O lcool e o pio funcionam como modificadores profundos da 
individualidade psquica. O lcool pode dar origem no s  
embriaguez, aos delrios agudos e aos delrios crnicos do tipo 
delrio persecutrio, s psicoses alucinatrias, mas tambm origina 
perturbaes do carcter com irascibilidade, cime mrbido, 
perverses sexuais, impulsos criminosos e mesmo demncia, isto , 
enfraquecimento global, progressivo e irremedivel das capacidades 
mentais. No h exemplo melhor que este para demonstrar o papel das 
influncias fsicas sobre a vida psquica. O mesmo acontece com o 
pio que depois de uma fase de beatitude afectiva e exaltao 
intelectual conduz, a pouco e pouco, a uma anestesia moral, preldio 
de uma decadncia muito mais tardia das outras funes psquicas.
Jean Delay, A Psicofisiologia Humana, Ed. Almedina, Coimbra, 1973, p. 
95.

        TEXTO XIV

        PAPEL DA HEREDITARIEDADE E DO MEIO

Pergunta-se muitas vezes se a hereditariedade  mais 
diferenciadora do que o meio, ou inversamente. Posta assim, a questo 
no tem um sentido preciso, porque os papis respectivos dos dois 
factores so variveis segundo os usos e os caracteres considerados. 
Mas, de um modo geral, deve-se dizer que, quanto  diferenciao 
fsica dos humanos, a parte da hereditariedade excede em muito a do 
meio; e a prova est na extraordinrias semelhana que apresentam os 
verdadeiros gmeos. Ns j falmos destes seres que, nascido de um 
mesmo ovo, receberam exactamente o mesmo patrimnio hereditrio, os 
mesmos cromossomas, e notmos a semelhana dos seus traos fsicos. 
Ora, esta semelhana apenas se atenua se so educados em condies 
diferentes. Certamente que a influncia diferenciadora do meio poder-
se- ampliar, na medida em que as diferenas do meio sofridas pelos 
indivduos se revelarem em extremo; mas estas diferenas, nas 
condies habituais da vida humana, no so suficientes para as 
rivalizar com as diferenas introduzidas pela hereditariedade. 
Acrescentemos que a diferena diferenciadora do meio se encontra 
necessariamente reduzida na nossa espcie, como alis na maior parte 
dos mamferos, pelo facto de os indivduos efectuarem a parte 
principal do seu desenvolvimento num habitculo bastante uniforme, o 
tero materno: quando nascem esto j fortemente determinados e as 
circunstncias externas no podero ter sobre eles se no efeitos 
muito restritos.
Que pensar das diferenas intelectuais entre os humanos? 
Dependero tambm elas, pelo menos parcialmente, de diferenas 
hereditrias?
 quase desnecessrio fazer notar a gravidade do problema tanto 
do ponto de vista pessoal como do ponto de vista social.
Ns no temos de perguntar se seria desejvel que os homens 
fossem iguais originalmente, mas, simplesmente, se o so.

O problema da igualdade ou desigualdade nata dos espritos, 
talvez no esteja inteiramente resolvido, porque a verdadeira 
inteligncia s  conhecida na nossa prpria espcie, onde  
interdito realizar aquelas experincias que trariam a demonstrao 
decisiva; mas desde j se pode fundamentar uma opinio quase certa 
sobre um conjunto de factos extrados da psicologia humana e animal. 
E antes de mais est assente que o grau de inteligncia constitui uma 
caracterstica eminentemente varivel na espcie humana. Constatou-se 
que, salvo casos muito raros de desenvolvimento tardio, o quociente 
intelectual permanece mais ou menos constante durante toda a 
existncia. Por outras palavras, se bem que as funes mentais se 
compliquem com a idade, a posio intelectual de um indivduo entre 
os outros da sua idade pouco ou nada se modifica. Por outro lado, o 
quociente intelectual  muito varivel numa populao de crianas 
pertencentes  mesma raa. Estendendo-se a margem dos quocientes 
intelectuais de 60 a 200, sobre 100 crianas de raa branca, 
encontra-se mais ou menos a seguinte distribuio: 3 ou 4 situam-se 
acima de 130 (inteligncia excepcional); 10, entre 130 e 120 
(inteligncia muito superior); 10, entre 120 e 110 (inteligncia 
superior); 40, entre 110 e 90 (inteligncia mdia); 30, entre 90 e 70 
(inteligncia inferior); 6 ou 7, abaixo de 70 (inteligncia dbil). 
Que haja, nesta variedade intelectual, uma base gentica, isso  
eminentemente verosmil, seria surpreendente que os homens que, na 
concepo, diferem em tantas potencialidades fsicas, sejam 
estritamente equivalentes no que diz respeito s potencialidades 
intelectuais, numerosos factos militam a favor de uma diferenciao 
hereditria das aptides intelectuais.
E antes de mais, a este respeito, as diferenas individuais 
manifestam-se muito precocemente, mesmo entre crianas vivendo no 
mesmo meio familiar ou escolar.  certo que se pode objectar que, por 
mais que se faa, esse meio nunca  estritamente uniforme, e que 
ntimas diferenas no comportamento dos adultos relativamente s 
crianas, com relevo no afecto que lhes mostram, poderia exercer uma 
aco diferenciadora sobre a evoluo do seu psiquismo. Mas 
constatou-se alm disso que existe uma correlao bastante estreita 
entre a inteligncia dos pais e a dos filhos. Tambm aqui se 
objectar que os pais de inteligncia superior sabem criar, para os 
seus filhos, um meio mais favorvel ao desenvolvimento da 
inteligncia. Mas o argumento cai diante do exame das estatsticas 
que dizem respeito s crianas adoptivas, cuja inteligncia, apesar 
da influncia do meio familiar estranho, no deixa de permanecer em 
correlao com a dos seus verdadeiros pais. Alm disso, o caso dos 
verdadeiros gmeos testemunha a favor da hereditariedade da 
inteligncia. Com efeito, eles devem  identidade do seu patrimnio 
hereditrio no somente uma extraordinria semelhana fsica, mas uma 
semelhana intelectual muito marcada. E esta no  devida  
semelhana de educao, porque esta semelhana no impede que os 
falsos gmeos -- que receberam patrimnios hereditrios diferentes, 
pois que nasceram de dois ovos distintos -- apresentem diferenas 
Apreciveis no grau de inteligncia.

 oportuno narrar aqui uma experincia instrutiva feita pelo 
psiclogo americano Tryon, e donde resulta, nos animais, a 
transmisso hereditria de certas qualidades psquicas. Os animais 
submetidos  experincia eram ratos vulgares, provenientes de uma 
origem vulgar de laboratrio. Tratava-se, para eles, de atravessarem 
um pequeno labirinto artificial: para "testar" cada animal, fazia-se 
executar a cada um uma vintena de tentativas, aps o que se anotava 
para cada tentativa o nmero dos seus erros.  bem de ver que todos 
os ratos cometeram muitos erros; mas alguns -- cinco por cento, mais 
ou menos -- fizeram nitidamente mais do que a mdia, enquanto outros 
-- mais ou menos a mesma percentagem -- fizeram nitidamente menos. 
Assim, desde logo, um pequeno nmero de ratos distinguia-se do 
conjunto, quer pela sua astcia, quer pela sua incapacidade.
Praticou-se desde ento uma seleco metdica, ou seja, 
cruzaram-se entre si os mais brilhantes (pois que, nesta lite 
natural tanto figuravam fmeas como machos); e, do mesmo modo, 
cruzaram-se entre si os mais incapazes. Os descendentes dos dois 
grupos foram cuidadosamente separados e impedidos de todo o 
cruzamento. depois, a descendncia dos ratos astuciosos e a dos ratos 
sem astcia foi submetida  prova do labirinto. Verificou-se que a 
primeira se mostrava, em mdia, mais astuciosa que a segunda. De 
novo, numa e noutra, se escolheu como reprodutores os mais brilhantes 
e os mais incapazes; e, nas suas descendncias, viu-se ainda acentuar 
a diferena das aptides. Mantendo sempre o isolamento e prosseguindo 
a seleco do melhor e do pior, chegou-se  stima gerao. Neste 
momento, a divergncia entre os dois grupos de ratos acentuou-se ao 
ponto de os ratos de ascendncia inferior cometerem, em mdia, cem 
vezes mais erros que os ratos de melhor ascendncia.
Chegou-se assim, por meio de seleco, a extrair da populao 
inicial duas linhagens de ratos bem diferentes: uma particularmente 
dotada, outra particularmente desprovida. E assim se demonstrou que, 
no rato, a aptido de tirar partido da experincia para encontrar o 
seu caminho no labirinto depende em larga medida de factores 
hereditrios transmitidos pelos pais. 
Sem dvida que esta aptido no  da mesma ordem que as aptides 
intelectuais que interessam para a diferenciao da nossa espcie; 
mas  j muito interessante saber que certas disposies psquicas, 
mesmo muito simples, se transmitem por hereditariedade.
Considerando bem,  impossvel no concluir pela desigualdade 
inicial da inteligncia nos seres humanos. O que certamente no quer 
dizer que pais inteligentes devam necessariamente ter crianas 
inteligentes, nem que pais medocres perpetuem necessariamente a sua 
mediocridade. A correlao que assinalmos entre a inteligncia dos 
pais e a dos filhos  somente estatstica, e os mecanismos da 
hereditariedade, j foi visto, permitem a indivduos transmitirem 
caracteres que no possuem, ou no transmitirem os que possuem.  
extremamente provvel que o grau de inteligncia, tal como a 
estatura, a cor da pele, depende de mltiplos genes diferentes. 
Admite-se alm disso que os genes favorveis dominem mais ou menos os 
genes desfavorveis, de tal modo que, dois pais completamente imbecis 
no podem ter seno filhos imbecis enquanto pais inteligentes ou 
mdios podem ter filhos mais ou menos inteligentes do que eles.

Apesar disto, no devemos subestimar o papel do meio na 
realizao das potencialidades intelectuais. Sem mesmo falar das 
doenas ou traumatismos que podem deter precocemente o 
desenvolvimento da inteligncia, este desenvolvimento pode sr 
favorecido ou entravado pela qualidade do clima familiar, escolar, 
social. A prova est em que os verdadeiros gmeos, quando criados em 
condies diferentes, podem apresentar uma sensvel diferena de 
quociente intelectual. Para a inteligncia, como para muitas outras 
coisas, a hereditariedade fixa um limite superior, de que o indivduo 
se aproximar mais ou menos segundo as circunstncias sejam ou no 
favorveis. Se ele deve primar pelo esprito, a possibilidade est j 
inscrita nos seus cromossomas, mas a realizao pode ser comprometida 
se o meio for demasiado contrrio. Acrescentemos que o 
desenvolvimento da inteligncia no  certamente independente do 
desenvolvimento da afectividade, o qual depende, como o mostrou a 
anlise do inconsciente, das condies psicolgicas da primeira 
infncia. Certos indivduos s parecem mal dotados devido a inibies 
internas, ligadas a uma evoluo desarmoniosa dos instintos. Como 
dizia j Helvetius, a este respeito a educao comea desde o 
nascimento. 
Numa sociedade como a nossa, onde reina uma to flagrante 
disparidade de meio e de educao e de tipos de vida,  impossvel 
comparar equitativamente os indivduos.  verdade que o homem nasce 
diferente do homem; mas enquanto o homem no for sempre tratado como 
"homem", enquanto a concorrncia dos genes no se exercer em 
condies relativamente leais, ns dificilmente conseguiremos 
atribuir as diferenas manifestas a diferenas originais.
Jean Rostand, L'Homme, Ed. Gallimard, col. Ides, Paris, pp. 70-80.

        TEXTO XV

        HEREDITARIEDADE, EDUCAO E ACTIVIDADE CONSCIENTE

         Naturalmente, no negamos o papel da transmisso hereditria nem 
o do ambiente social. Trata-se de refutar uma teoria que atribui o 
desenvolvimento a dois factores externos e que exclui o factor 
principal: a actividade consciente e a educao do homem. Este factor 
determinante deve ser includo no desenvolvimento; s ento se pode 
avaliar exactamente a influncia, quer da transmisso hereditria, 
quer do ambiente; Com ressalva de que no se trata de um ambiente 
invarivel, mas de um ambiente que constantemente  modificado pelo 
homem.

Na realidade, so os prprios homens que modificam o ambiente ou 
que, pelo menos, tm a possibilidade de o fazer. O verdadeiro 
percurso do desenvolvimento, ao qual a hereditariedade deixa aberta, 
quando muito, umas possibilidades relativamente elsticas,  
determinado pela actividade consciente do homem no processo educativo 
e formativo, e pela prtica social. O homem  no s objecto de 
diversas influncias, mas tambm sujeito que, ao modificar a natureza 
externa, modificam tambm a sua prpria personalidade e regula 
conscientemente a sua conduta. O desenvolvimento do homem, com 
efeito, no  ento o desenvolvimento da sua personalidade, isto , o 
desenvolvimento de um sujeito activo e consciente da histria humana. 
O seu desenvolvimento no  produto do efeito recproco de diferentes 
factores externos, mas sim "automovimento" do sujeito, que mantm 
mltiplas relaes recprocas com o mundo que o rodeia. Ao falar do 
papel decisivo que o processo formativo desempenha no desenvolvimento 
psquico, sobretudo intelectual, da criana, supe-se um processo no 
qual a criana no s surge como objecto, mas tambm como sujeito, e 
que se apropria activamente, sob a direco dos adultos, da cultura 
material e intelectual. As "foras impulsoras" do desenvolvimento da 
personalidade consistem, sob este aspecto, nas contradies internas 
entre as formas da actividade infantil que se torna cada vez mais 
consciente do nvel evolutivo alcanado pela criana e o novo 
contedo que aprende a dominar. O desenvolvimento infantil no s se 
manifesta nesta actividade como se produz nela.
Deste modo, o problema fundamental do desenvolvimento e da 
formao da personalidade, bem como de todas as qualidades e 
particularidades psquicas (isto , as suas aptides e traos 
caractersticos) do desenvolvimento individual, toma um aspecto 
completamente diferente. O desenvolvimento psquico e intelectual no 
s se manifesta na actividade do homem, no seu comportamento prtico 
e terico, mas tambm se produz dentro dela.
Assim se supera radicalmente a ideia da predestinao fatalista 
do destino humano por meio da transmisso hereditria e de um 
ambiente quase inaltervel. Na actividade concreta, no trabalho, no 
processo da prtica social dos adultos, tal como no processo 
formativo e educativo, das crianas, no s se manifestam as 
qualidades psquicas dos seres humanos,  mas tambm se formam outras 
novas. Esta  a nossa interpretao das relaes recprocas  entre o 
desenvolvimento da criana e a formao e a educao. Da dependncia 
unilateral, tala como geralmente a imagina quem pensa que o pedagogo 
apenas deve ter em conta a natureza infantil, surge uma dependncia 
recproca, bilateral.  indubitvel que o processo pedaggico deve 
ter em conta a natureza da criana. Mas a natureza infantil no  uma 
coisa invarivel. Desenvolve-se e est condicionada pelas 
circunstncias que o processo pedaggico cria  criana em 
desenvolvimento.
Rubinstein, S. L., Princpios de Psicologia Geral, Vol. II, Ed. 
Estampa, pp. 153-155.

        TEXTO XVI

         HEREDITARIEDADE E MEIO


O organismo humano adulto  o resultado de um processo complexo 
de crescimento que comea no estdio unicelular e que fica submetido 
a duas sries de influncias: umas internas e outras externas. Esse 
princpio geral  vlido tanto para o desenvolvimento somtico como 
para o desenvolvimento psquico, e diz respeito no s ao 
desenvolvimento normal, mas tambm s anomalias. Diante de toda a 
caracterstica do organismo,  necessrio distinguir o papel dos 
factores internos e da hereditariedade e dos factores externos do 
meio. No domnio fsico, por exemplo, a estatura ser ligada 
parcialmente  hereditariedade: existe uma relao entre a estatura 
de um indivduo e a de seus pais. Ela, porm, tambm est ligada, em 
parte,  ao meio, por exemplo ao regime alimentar. No domnio 
psquico, a inteligncia est igualmente sob a dependncia desses 
dois factores. O papel da hereditariedade pode ser demonstrado, mesmo 
quando o do meio parece exclusivo. Sabemos, por exemplo, que as 
doenas infecciosas so devidas  proliferao de microorganismos no 
corpo, um factor externo, portanto. Mas a forma e a gravidade da 
doena dependem tambm, pelo menos em parte, de factores internos: a 
resistncia do organismo, e a capacidade de fabricar anticorpos so 
caractersticas ligadas, at certo ponto,  hereditariedade.
O papel simultneo da hereditariedade e do meio no pode ser 
contestado. Mas as questes que se apresentam so, de u lado, a 
contribuio relativa de cada um deles a um dado fenmeno, fsico ou 
psquico, normal ou patolgico, e, de outro lado, um modo de 
combinao de ambos.

        1 -- O PAPEL RESPECTIVO DA HEREDITARIEDADE E DO MEIO

Existe tanto entre os psiclogos como entre os mdicos 
diferenas de opinio relativamente a esse problema. Alguns, para os 
quais o meio  tudo ou quase tudo, salientam a importncia da 
aprendizagem e a plasticidade do organismo; outros no reconhecem no 
meio seno um papel modesto, capaz, quando muito, de modificar 
ligeiramente o que a hereditariedade determinou.  tendncia chamada 
"ambientalista" unem-se, por exemplo, o behaviorismo de Watson e 
certas tendncias actuais da psicanlise;  tendncia 
"constitucionalista", as doutrinas tipolgicas. Trata-se, 
frequentemente, de uma orientao geral do esprito, uma tomada de 
posio que, tanto num caso como no outro, depende mais da 
personalidade de quem a adopta que dos factos objectivos. Pode-se 
demonstrar que os partidrios das doutrinas chamadas "ambientalistas" 
tinham uma opinio fundamentalmente optimista do homem, os 
constitucionalistas tinham, ao contrrio, uma opinio pessimista, o 
que se reflecte tanto nas opinies gerais dos autores como nas suas 
teorias psicolgicas.
Para encarar o problema de forma concreta,  necessrio recordar 
os principais mtodos que nos permitem determinar o papel respectivo 
da hereditariedade e do meio na origem de certos caracteres 
psicolgicos.
Em psicologia animal  possvel, pela seleco, constituir raas 
puras. Se realizarmos essa seleco a partir de um trao psicolgico, 
poderemos observar se, nessas condies, as raas puras obtidas 
diferem dos animais de origem, isto , se o trao que serviu para 
seleco  transmitido segundo as leis da hereditariedade. Desde 
1933, Rundiquist mostrou que, se em cada gerao de ratos brancos, se 
acasalarem entre si os indivduos mais activos e os menos activos, 
obtm-se, no fim de 12 geraes, duas raas de ratos, uma constituda 
pelos indivduos que realizam, espontaneamente, por dia, uma mdia de 
8200 rotaes de um tambor no qual so colocados, enquanto os 
indivduos da outra raa no produzem seno 400 rotaes. Pde-se 
demonstrar, assim, que no rato, alm da actividade espontnea, a 
aptido de aprender o labirinto e a emotividade geral eram 
determinadas, pelo menos em parte, por factores hereditrios.
No homem, os dois mtodos utilizveis so o dos gmeos e o das 
rvores genealgicas.

Existem duas variedades de gmeos: os denominados univitelinos, 
que provm do desdobramento do mesmo ovo, isto , cuja constituio 
cromossmica  idntica, e os bivitelinos, que provm de dois ovos 
diferentes, cuja constituio gentica no  mais semelhante que a de 
dois outros irmos quaisquer. Nas duas variedades de gmeos, os dois 
indivduos do par so educados em condies ambientais idnticas, 
sendo a diferena produzida apenas pelo papel da hereditariedade.  
possvel, comparando-se srie de gmeos uni e bivitelinos, separar, 
com relao a um aspecto psicolgico determinado, o que pertence  
hereditariedade e o que pertence ao meio. Pde-se demonstrar, desse 
modo, que, se o papel da hereditariedade era geralmente menor para as 
caractersticas psicolgicas do que para os traos fsicos, era, 
contudo, muito importante. Existem diferenas de acordo com o trao 
pesquisado, sendo a inteligncia mais determinada pela 
hereditariedade do que a personalidade, mas nesta os traos afectivos 
fundamentais, como a tonalidade geral do humor, a fora dos impulsos 
ou a tendncia ao nervosismo, eram mais hereditrias do que outras. 
O segundo mtodo utiliza as rvores genealgicas. Baseia-se no 
seguinte princpio: Se um elemento psicolgico , ao menos 
parcialmente, baseado na hereditariedade, os dois indivduos 
assemelhar-se-o tanto mais na expresso desse elemento quanto mais 
prximo for o seu parentesco. O mtodo  um tanto complexo para ser 
utilizado, porque os parentes prximos vivem, habitualmente, em 
conjunto; por exemplo, irmos e irms, pais e filhos, e porque  
proximidade biolgica se junta a proximidade do meio. Existem, 
entretanto, processos que permitem dissociar os dois elementos e 
determinar, assim, em casos particulares, a contribuio respectiva 
dos dois factores.

        2 -- MODO DE COMBINAO DA HEREDITARIEDADE E DO MEIO

Seria simplista acreditar que a aco da hereditariedade e a do 
meio se adicionam. Existem, na realidade, interaces complexas que a 
psicologia procura determinar. Uma das concepes mais interessantes 
nesse domnio  devida a K. Lewin. Esse autor, que foi influenciado 
pela psicologia da forma, salientou que o meio no  uma noo 
objectiva. O meio  o que ns percebemos como sendo o nosso meio. 
Dois indivduos colocados objectivamente no mesmo meio no o 
estruturaro da mesma maneira, pois a sua estruturao ser 
influenciada pela sua personalidade, experincia e necessidades. Esse 
meio idntico ter, pois, significado diferente para os dois 
indivduos e influenciar diferentemente o seu comportamento 
psicolgico. Se tomarmos o exemplo do clima afectivo do meio 
familiar, e, se quisermos saber como ele se combina com os elementos 
hereditrios da personalidade para modelar o desenvolvimento da 
criana, devemo-nos recordar de que a aco final depender da 
maneira como esses elementos hereditrios se comportaro com respeito 
 percepo do meio.  a essas interaces constantes que se deve a 
dificuldade de estabelecer o papel respectivo da hereditariedade e do 
meio, e a possibilidade, no estado actual dos nossos conhecimentos, 
de adoptar atitudes divergentes na interpretao dos factos.
Jean Delay e P. Pichot, Manual de Psicologia, Guanabara, Koogan, 
1973, pp. 21-23.

        TEXTO XVII

        A TRANSMISSIBILIDADE DOS CARACTERES ADQUIRIDOS

Dissemos j vrias vezes que os caracteres do ser humano 
dependem, por um lado, do patrimnio hereditrio que recebeu de seus 
pais por intermdio das clulas germinais e, por outro, das condies 
de meio a que foi submetido durante o seu desenvolvimento. A este 
respeito recordamos frequentemente a plasticidade do organismo humano 
e o facto de numerosos caracteres poderem ser modificados 
profundamente por factores exteriores, tais como a luz, a 
temperatura, a alimentao, etc., sem falar nos factores morais e 
sociais, cuja importncia  to considervel na formao da 
personalidade intelectual.
Mas esta influncia do meio sobre a pessoa humana ser puramente 
individual, isto , estritamente limitada ao indivduo sobre o qual 
se exerceu, ou poder, em certa medida, fazer-se sentir sobre a 
descendncia, por intermdio de uma modificao efectuada nas clulas 
germinais?
Por outras palavras: quando um indivduo  modificado pelo meio, 
o seu patrimnio hereditrio sofrer tambm mudana no mesmo sentido?
Eis a grande questo to frequentemente debatida na biologia: a 
transmisso dos caracteres adquiridos ou, mais resumidamente, a 
hereditariedade do adquirido.
Para fixar ideias e evitar qualquer mal-entendido, sirvamo-nos 
de exemplos concretos.
Eis um europeu que, tendo vivido em meio tropical, apresenta a 
pele com pigmentao mais acentuada do que a teria se houvesse 
permanecido no seu pas. Os seus filhos iro ter, por 
hereditariedade, a pele mais pigmentada ou, pelo menos, a pele com 
predisposio para uma pigmentao mais fcil?
Eis um indivduo que, por meio de treino metdico, desenvolveu 
certos feixes de msculos: iro os seus filhos, por hereditariedade, 
possuir esses mesmos feixes muscular um pouco mais desenvolvidos ou 
com maior predisposio para um bom aproveitamento da ginstica?        
Eis, por fim, um indivduo que, por meio de estudos perseverantes, 
exercitou as suas faculdades cerebrais: os seus filhos iro ter, por 
hereditariedade, um crebro um tanto mais vigoroso ou um pouco mais 
apto para os trabalhos intelectuais?
A estas trs perguntas -- que se consubstanciam apenas numa -- a 
biologia responder pela negativa.
Os filhos oriundos desses trs homens sero exactamente os 
mesmos que teriam sido se um dos pais no houvesse vivido em meio 
tropical, o outro feito ginstica e o terceiro no se tivesse 
dedicado ao trabalho intelectual.
Uma resposta destas surpreende muitas vezes o profano.  
preciso, portanto, justificar, em certa medida, porque  que a 
biologia se permite ser to categrica. Pode, em primeiro lugar, 
fazer-se valer de um poderoso argumento da natureza terica. Com 
efeito, no se concebe como uma modificao da pele, do msculo ou do 
crebro poderia inscrever-se, registar-se na clula germinal, que no 
s no contem pele, nem msculo, nem crebro, como nem sequer possui 
qualquer esboo ou rudimento dessas partes.

Certamente poder-se- admitir que, pelo jogo subtil da 
solidariedade orgnica, uma modificao da pele implicaria uma 
modificao geral do corpo, inclusive a do meio sanguneo; da que, 
por intermdio deste meio, as prprias clulas germinais se 
encontrariam ligeiramente modificadas. Mas porque  que esta 
modificao seria precisamente aquela mesma que, na gerao seguinte, 
reproduziria a modificao do pai?
Em resumo, se no parece impossvel que a modificao, mesmo 
local ou parcial, do corpo, se repercuta, por solidariedade orgnica, 
at  clula germinal, em contrapartida, parece impossvel que esta 
"fotografe" a modificao do corpo, consoante a expresso outrora 
usada por Darwin.
Independentemente deste argumento terico, a biologia pode 
invocar contra a transmisso dos caracteres adquiridos um sem-nmero 
de experincias que, institudas com o fim de demonstrar semelhante 
modalidade de hereditariedade, s conduziram a resultados totalmente 
negativos: experincias feitas com ratos, ratazanas, coelhos, 
borboletas, moscas do vinagre, etc.; experincias respeitantes aos 
efeitos da alimentao, da temperatura, da luz ou sobre a aquisio 
de reflexos condicionados ( ).
Tem-se feito grande barulho, nos ltimos anos, em torno das 
experincias dos biologistas soviticos da escola de Mitchurine, que 
pretendem ter demonstrado a transmissibilidade dos caracteres 
adquiridos. Mas em primeiro lugar, elas no foram verificadas em 
qualquer outro laboratrio, e portanto pode supor-se que uma causa de 
erro foi introduzido na pretensa demonstrao, tal como aconteceu 
tantas vezes no passado ( ). Em segundo lugar --  necessrio afirm-
lo --, os resultados dos "mitchurianos" foram anunciados num tom de 
paixo ideolgica, o que os torna antecipadamente suspeitos a todo o 
esprito que busque a verdade pura.
Certos biologistas, convindo que a transmisso do adquirido no 
se deixa verificar nos limites da nossa experincia, recusam-se a 
negar o fenmeno, que consideram indispensvel para explicao da 
gnese das espcies. Se as nossas experincias -- afirmam -- no 
conduzem seno a fracaos,  porque so de curta durao; para serem 
comprovatrias deveriam durar sculos, se no milnios. A esta 
objeco  de todo impossvel responder; mas o que importa, do ponto 
de vista humano,  o saber-se que, no plano prtico, tudo se passa 
como se a histria individual dos pais fosse perfeitamente desprezada 
em relao  personalidade gentica dos filhos.

A favor da transmisso do adquirido alarga-se, por vezes, a 
existncia de famlias de matemticos ou de msicos. Mas, alm da 
educao, a imitao poderia tambm desempenhar o seu papel na 
aquisio dos talentos familiares. O facto de a criana possuir os 
mesmos dons que o pai indica somente que recebeu, por 
hereditariedade, as condies genticas desses dons. O pai, neste 
caso, transmite ao filho, no todo ou em parte, as suas aptides e 
nada lhe transmite daquilo que o exerccio do seu saber ou a prtica 
da sua arte pudessem ter feito destas aptides.
Quer o homem bem dotado cultive os seus dons naturais, quer os 
deixe incultos, isso no se reflectir na qualidade gentica dos seus 
descendentes: se o pai de Bach nunca tivesse tocado rgo, o gnio do 
seu filho no teria sido menor ( ).
Urge ainda esclarecer um mal-entendido bastante frequente e que 
diz respeito  transmisso do estado de imunidade ou de resistncia 
em relao a certas doenas.
Se se trata de uma imunidade natural, de origem gentica, a 
transmisso no  duvidosa; pelo contrrio, nunca se produzem casos 
de imunidade adquirida, quer pelo efeito de uma vacinao, quer em 
consequncia de um ataque infeccioso.
No respeitante  me,  evidente que esta pode transmitir, por 
meio dos seus anticorpos sanguneos, certo grau de imunidade 
adquirida ao feto de que  portadora, mas isto no  hereditariedade 
propriamente dita, e tal imunidade no tardar a desaparecer na 
criana. Quanto ao pai, este no pode transmitir pelas clulas 
reprodutoras uma imunidade adquirida.
, portanto, inteiramente ilusrio -- diga-se de passagem -- 
esperar que as imunidades criadas artificialmente por mtodos 
clnicos acabaro por se integrar no patrimnio hereditrio da 
espcie. Em relao  imunidade adquirida, como a todos os outros 
caracteres adquiridos, tudo comea sempre de novo em cada gerao.
Se os processos de vacinao se devessem repercutir, de algum 
modo, na raa, isso j poderia dar-se em sentido desfavorvel na 
medida em que, permitindo aos indivduos dbeis resistir s 
infeces, contrariava, alis com felicidade, a obra impiedosa da 
seleco natural.
A hereditariedade do adquirido prende-se com a pretensa 
hereditariedade da prenhez, ou telegonia, sobre que no nos 
dispensamos de dizer algumas palavras.
Sustenta-se por vezes que uma mulher podia ser modificada nas 
suas potencialidades genticas sob a influncia do feto que traz no 
ventre: Por exemplo, uma mulher que houvesse tido um filho de um 
negro poderia, ulteriormente, com um branco, gerar filhos com 
caracteres negrides.
No h aqui se no um preconceito de pura fantasia, defendido 
por muitos criadores que acreditam obstinadamente na hereditariedade 
da prenhez dos animais domsticos.
A biologia, em matria de paternidade, s conhece a paternidade 
directa.

Jean Rostand, A hereditariedade humana, Europa-Amrica, Col. Saber, 
Lisboa, 1966, pp. 110-114.

        TEXTO XVIII

        DIFERENAS DE QI EM CLASSES SOCIAIS

Se o clculo da hereditariedade de diferenas de qi entre 
membros individuais da mesma populao est cheio de ciladas as 
complexidades aumentam grandemente quando so consideradas diferenas 
entre mdias populacionais. Uma vez que as oportunidades 
educacionais, e outras, so com frequncia bastante desiguais 
relativamente a crianas de diferentes classes scio-econmicas, 
deve-se esperar que os seus qi mdios e aproveitamento escolar sejam 
tambm desiguais. Burt (1961), Eckland (1967, 1972, a.b.) e Gottesman 
(1978, a.b) analisaram, sob o ponto de vista crtico, as provas 
pertinentes. Um breve sumrio dos elementos de Burt relativos a cerca 
de 4000 adultos e respectivos filhos em Inglaterra aparece na tabela 
1-3. As profisses liberais de nvel superior (I), as profisses 
liberais de nvel inferior (II), funcionrios (III), trabalhadores 
especializados (IV), trabalhadores semiespecializados (V), e no 
especializados (VI) so ali distinguidos. A mdia dos qi dos pais, 
nestas categorias, varia entre 139.7, nos de profisses liberais de 
nvel superior, e 84.6, relativamente a trabalhadores no 
especializados. Porm, os filhos daqueles que possuem marcas mais 
elevadas esto, em geral, mais abaixo da mdia dos pais, e os filhos 
dos que possuem marcas inferiores esto acima da referida mdia. Este 
 um fenmeno de regresso para a mdia bem conhecido dos 
geneticistas e j mencionado. Se descurarmos o facto de as diferenas 
de qi entre classes profissionais serem principalmente genticas ou 
principalmente ambientais, verifica-se que as crianas no herdam 
integralmente quer as mdias superiores, quer as inferiores dos pais.
        Tabela 1-3
Qi mdios de pais e filhos pertencentes a classes scio-
econmicas entre os grupos I, o mais elevado, e o grupo VI, no mais 
baixo, segundo Burt, 1961:




I

II

III

IV

V

VI

QI DOS 
PAIS

139.7

130.6

115.9

108.2

97.8

84.6

QI DOS 
FILHOS

120.8

114.7

107.8

104.6

98.9

92.6

FREQUN
CIA POR 
1000

3

31

122

258

325

261


A situao  anloga no que se refere s raas humanas. As 
pessoas que pertencem a raas diferentes, quando vivem em pases 
diferentes, bem como quando vivem lado a lado no mesmo territrio, 
nem sempre tm oportunidades iguais, tanto no que diz respeito ao 
desenvolvimento fsico, como ao desenvolvimento mental. Mas, embora 
os membros das classes scio-econmicas no sejam em regra 
reconhecveis por caractersticas fsicas, as raas tm habitualmente 
"estigmas" externos visveis que conduzem  auto-identificao e a 
identificao por outros. Interminveis controvrsias e apaixonadas 
polmicas so originadas pelo facto de se descobrir que as populaes 
brancas e negras dos Estados Unidos tambm diferem em mdias de Qi. 
Seguramente, as marcas individuais esto a imbrincar-se largamente; 
muitos brancos tm mdias abaixo das mdias dos negros e muitos 
negros esto acima da mdia branca. Porm, a mdia negra situa-se 
cerca de 15 pontos abaixo da mdia branca.
As diferenas de classe e de raa em mdias de Qi podem ser 
atribudas a desigualdades em oportunidades educacionais e padro de 
vida. Esta explicao  tradicionalmente oferecida pela maior parte 
dos cientistas sociais e pelos polticos liberais. Por outro lado, as 
diferenas podem ser genticas, o que agrada aos racistas e aos 
reaccionrios, mas no so consideradas vlidas por nenhum cientista 
conceituado. Por fim, tanto os condicionamentos ambientais como 
genticos podem estar relacionados. O principal pomo de discrdia no 
 assim o meio ambiente, mas qual a parte ambiental relativamente ao 
condicionamento gentico.
A controvrsia est a aumentar cada vez mais por se ter 
descoberto que as diferenas individuais de Qi possuem grandes 
componentes genticas. Os racistas procuram salientar isto na sua 
propaganda. Todavia, as diferenas entre mdias de raa e de classe 
no necessitam de ser geneticamente condicionadas no grau em que o 
so as diferenas individuais. Ningum, nem mesmo os racistas, pode 
negar que as condies de vida e as oportunidades educacionais so 
diversas em raas e classes. Jensen (1929), depois de reconhecer 
explicitamente que a hereditabilidade das diferenas individuais 
dentro de uma populao no pode ser validamente usada como medida de 
hereditabilidade das mdias da mesma populao, tenta fazer 
precisamente isso. Porm, devemos prestar-lhe justia, afirmando que 
ele apresenta uma anlise bastante pormenorizada dos factores 
ambientais que podiam ser teis para justificar a divergncia de 
mdias de Qi nas populaes branca e negra dos Estados Unidos. A sua 
concluso  de que nenhum dos factores, ou combinaes e factores, 
fornecem a explicao adequada desta divergncia, que, deste modo, 
deve ser largamente gentica. A sua argumentao no me convence.

Scarr-Salapatek (1971, a.b.) talvez tenha provocado uma viragem 
nos estudos sobre a hereditabilidade. A hiptese apresentada at aqui 
nas anlises de Qi  a seguinte: A aco de factores genticos e 
ambientais  simplesmente aditiva. Por outras palavras, os meios 
genticos e ambientais que ocasionam incrementos e diminuies de 
inteligncia (e de outras caractersticas mentais) agem 
independentemente uns dos outros e sempre da mesma maneira. Mas no  
de modo nenhum necessrio que seja assim. As diferenas genticas 
podem manifestar-se com clareza em pessoas que se desenvolvem em 
ambientes favorveis e estimulantes e permanecer obscuras nas que so 
criadas em ambientes adversos ou repressivos. Os portadores de dons 
naturais e genticos que poderiam apresentar elevados Qi sob 
condies favorveis no alcanam mais xito que pessoas de menos 
dons naturais genticos que vivem em meios ambientes repressivos. 
Sendo isto assim, a hereditabilidade do Qi deve ser mais baixa entre 
os grupos scio-econmicos sem privilgios (tanto classes como raas) 
do que entre os privilegiados. Por outro lado, as hereditabilidades 
devem ser uniformes se a mera hiptese do factor aditivo for vlida. 
As duas hipteses so empiricamente passveis de teste e Scarr-
Salapatek fez um esforo engenhoso e bem fundado para as examinar.
Entre as 250258 crianas das escolas de Filadlfia -- dos 
jardins-escolares  11 classe -- foram encontradas 3042 pares de 
gmeos; 36% dos gmeos eram brandos e 64% pretos. Lamentavelmente, 
no puderam ser feitos testes para identificar os pares monozigticos 
e dizigticos (presume-se que devido s despesas que isso 
acarretava). Para obviar este contratempo, recorreu-se a uma operao 
estatstica bastante complexa. Entre os gmeos, 1028 pares eram do 
mesmo sexo e 493 de sexos opostos. Estes ltimos eram dizigticos. 
Entre os gmeos do mesmo sexo, deveria ter havido aproximadamente 493 
dizigticos, sendo os restantes monozigticos. Este grupo constitua, 
assim, uma mistura de gmeos monozigticos e dizigticos no 
identificveis individualmente. As famlias dos gmeos foram 
classificadas de acordo com o seu status scio-econmico; abaixo da 
mdia, mdia, acima da mdia. Como se esperava, as famlias pretas 
estavam com mais frequncia em desvantagem:




abaixo

media

acima

pretos

634

236

134

brancos

114

106

340

As marcas dos testes de aptido e aproveitamento escolar foram 
analisadas estatisticamente. Nos testes de aptido (onde a mdia 
nacional  de 80) foram encontradas as seguintes mdias scio-
econmicas de classe e de raa:




abaixo

mdia

acima

pretos

27.7

29.7

33

brancos

34.8

43.4

50.9

           As diferenas entre as crianas das classes baixas e superiores 
entre os pretos so muito mais pequenas (5.3) do que entre os brancos 
(16.1). O mais importante  que a variao das marcas de testes  
maior nos grupos privilegiados do que nos de disprivilegiados, tanto 
entre pretos como brancos. Uma proporo de variaes descoberta nas 
classes scio-econmicas relativamente privilegiadas maior do que nas 
no privilegiadas  atribuda a causas genticas. Isto  o que a 
hiptese de interaco entre os factores genticos e ambientais (ver 
acima) previu. A concluso de Scarr-Salapatek merece ser citada: 

Aps estudos relativos a populaes brancas da classe mdia, os 
investigadores chegaram  concluso de que a variabilidade gentica 
explica cerca de 75% da variedade total das marcas de Qi nos brancos. 
Se se considerar com mais ateno as crianas criadas sob condies 
diferentes, verifica-se que a percentagem de variao gentica e as 
marcas mdias dependem das possibilidades educativas da populao. Um 
primeiro olhar  populao preta sugere que a variabilidade gentica 
 importante nos grupos privilegiados, mas muito menos importante nos 
grupos no privilegiados. Uma vez que a maior parte dos pretos se 
encontram, socialmente, destitudos de privilgios, a proporo de 
variao gentica nas marcas de aptido das crianas pretas  
consideravelmente menor do que a das crianas brancas, como se prev 
no modelo 1 (determinao ambiental).
P. Dobzhansky, Diversidade gentica e igualdade Humana, Ed. 70, 1974, 
p. 176.

        TEXTO XIX

        OS PROBLEMAS GERAIS DO DESENVOLVIMENTO

Por desenvolvimento entende-se o conjunto dos fenmenos 
evolutivos de ordem neuro-psquica que se desenrolam numa cronologia 
e numa forma determinada. O desenvolvimento neuro-psquico pode ser 
abordado em numerosas perspectivas. costuma-se distinguir um certo 
nmero de sectores, como: psicomotricidade, linguagem, inteligncia, 
afectividade (...). Seria errneo considerar o desenvolvimento como o 
resultado da justa posio de instrumentos independentes. Uma tal tal 
fragmentao falsearia a compreenso se no fossem avaliados uns em 
funo dos outros na sua dinmica recproca e retomados em cada 
instante na sua globalidade e unidade dinmica do desenvolvimento. 
Assim, as aquisies da psicomotricidade ou da linguagem desenrolam-
se numa qualidade e numa ordem determinadas; mas a inteligncia 
dirige-as e d um sentido  funo que nunca  desprovida de 
inteno. Por outro lado, as aquisies so utilizadas na construo 
e desenvolvimento da inteligncia. Da mesma maneira, a afectividade 
est sempre presente para animar o desenvolvimento, para o investir e 
o carregar de todas as motivaes da vida interior.
O desenvolvimento segue uma linha determinada pela maturao. 
Este termo designa exclusivamente processos orgnicos evolutivos de 
ordem neurolgica e biolgica. Nenhum aspecto do desenvolvimento, 
quer se trate da psicomotricidade, da linguagem, da inteligncia, da 
afectividade, se pode dissociar. Mesmo na relao com outrem, cada 
estdio  estruturado por um nvel maturativo. Mas a base antomo-
fisiolgica, por muito ordenada que seja, no  uma forma  qual o 
meio se ajustasse "como uma luva  mo". No h aquisio nenhuma que 
se no faa no reajustamento constante entre as possibilidades 
internas dadas pela maturao e os limites impostos do exterior. A 
funo faz-se fazendo-se. 
L. Kreisler, in Robert Debr et Marcel Lelong, Pdiatrie, 1917.

        TEXTO XX

         Poder-se- falar de psicologia antenatal?

Estudos muito interessantes de Gochil, Hooker, Gesell, 
Carmichael e Minkowsky mostram que existem montagens 
psicofisiolgicas elementares e actividades prestes a entrar em jogo 
antes do fim da vida uterina. Trata-se, de resto, simplesmente de 
saber se constituem um princpio de vida e de evoluo. Deixando de 
lado a doutrina clssica do intelectualismo, que liga o psiquismo  
conscincia e no reconhece a existncia desta ltima no feto, 
Minkowsky admite que a dita conscincia no constitui seno um dos 
elementos muito caractersticos e coroando o conjunto do psiquismo, 
mas que emana dos processos neurobiolgicos, integrando-os e 
animando-os de modo vital.

        A EVOLUO BIOPSQUICA DO FETO

         Enriquecendo-se, no decurso dos meses, as funes nervosas do 
feto, no h razo para nos admirarmos com as suas actividades; elas 
esto condicionadas por um meio muito especial: o feto, encerrado nas 
membranas do ovo, mergulha num lquido, de incio claro, depois 
leitoso, que o isola da parede uterina e amortece qualquer choque que 
venha do exterior; suspenso no lquido, perde o seu peso.
Os primeiros fenmenos registados so os movimentos e os 
reflexos; esboados no 3 ou 4 ms, constituem-se no 6 ms: 
movimentos das extremidades, do tronco, reflexos cervicais, 
labirnticos, diagonais, reflexos da planta do p e tendinosos, 
pulsaes cardacas mais bem delineadas, movimentos e reflexos 
coordenam-se. Entre o 6 e o 9 ms, a sensibilidade proprioceptiva, 
aparecida antes do 4 ms, evolui e as sensibilidades vizinhas 
(exteroceptivas, em particular) surgem por sua vez. No decurso dos 
dois ltimos meses de gravidez, nota-se j no feto, com a preciso 
crescente dos reflexos, a primeira interveno dos sentidos, ainda 
que incompleta; se as vias olfactivas esto em rpido 
desenvolvimento,  pouco provvel que as excitaes de odor se possam 
produzir, visto a cavidade nasal estar cheia de lquido e no poder 
aspirar o ar. Em relao ao gosto,  interessante acentuar o 
importante desenvolvimento das papilas gustativas fetais, a 
precocidade do reflexo oral, preldio dos movimentos de suco e de 
deglutinao. No que diz respeito ao ouvido, certas afirmaes 
encontrariam a sua justificao no desenvolvimento relativamente 
precoce do nervo auditivo e das vias acsticas subcorticais. Enfim, 
no que diz respeito  viso,  evidente que no existe antes do 
nascimento, pois o feto vive numa obscuridade completa. Facto muito 
interessante a reter: movimentos oculares, de origem vestibular, j 
tm lugar no feto.
Do que acaba de ser dito, segundo Minkowsky, pode-se concluir, 
de uma maneira geral, que o psiquismo fetal  afirmado primeiramente, 
por excitaes de ordem formativa, depois por excitaes de ordem 
hmero-visceral, depois ainda por excitaes de ordem proprioceptivas 
e vestibulares, vindo com movimentos juntar-se precocemente s 
excitaes interoceptivas; pode-se admitir que ao mesmo tempo, do 
lado psquico se realiza um princpio obscuro de pr-sensaes, 
principalmente de ordem sensrio-motora, de pulses afectivas e de 
dinamismo vital que surgem como fracas luzes de um farol na bruma.
Maecem Bergeron, Psychologie du Premier ge, PUF, 1951, pp. 28-29.


        TEXTO XXI

        CALENDRIO GENTICO DO DESENVOLVIMENTO DA CRIANA E DO ADOLESCENTE

Estabelecido por um dos autores do "Guia" com a colaborao dos 
seus alunos do Institut de Biomtrie Humaine de Marselha)


        AS ETAPAS DO DESENVOLVIMENTO

I -- Etapa intra-uterina ou estdio fetal:

Corresponde ao que Freud denomina "a pr-histria individual".
Etapa de parasitismo biolgico e de extrema indiferenciao 
funcional: 

15  16 semana: Primeira actividade motora;
-- 7 ms: esto reunidas as condies de base da vida extra-
uterina (o prematuro de sete meses  vivel).

II -- O nascimento:

Problemas postos pelas mltiplas adaptaes:
-- passagem  respirao area;
-- Incio do funcionamento da pequena circulao;
-- passagem da alimentao placentria  nutrio externa;
-- novas regulaes trmicas;
-- abandona do sono fetal e primeiras adaptaes ao mundo 
exterior;
etc.

Primeira separao da me, criando a possibilidade de 
traumatismos obsttricos, at mesmo de traumatismos afectivos 
("saudade do ventre materno", S. Freud, o. Rank).

III -- O primeiro ano ou perodo infantil (Wallon).

a) fase vegetativa: abrange os dez primeiro dias: 
predominantemente psicomotora e de carcter espasmdico.
b) fase impulsiva: dos dez dias aos trs meses:

-- primeira organizao da vida motora;
-- incio dos condicionamentos estveis;
-- aparecem as primeiras reaces circulares.
c) fase emotiva: dos trs meses aos nove dez meses:

-- progressividade, a criana vai-se libertando da vida em 
estreita simbiose com a "me-fonte de alimento". Primeira elaborao 
da afectividade;
-- para o freudismo: etapa de hedonismo bucal (ou "perodo 
oral") (Freud, baudoin);
-- primeira explorao do mundo: constituio do "espao bucal" 
e incio da constituio do "espao prximo";
-- primeiras trocas mmicas;

6 meses: passagem da hipertonia  hipotonia. Aquisio da 
posio sentada:

-- constituio do mundo dos objectos (a princpio com a sada 
das pessoas);
-- perodo pr-lingustico: "fase da lalao" (Decroly).

9 meses (nos casos mais desenvolvidos): primeiras palavras. 

10 aos 12 meses: aquisio da posio vertical (com apoio).

d) fase sensrio-motora: abrange o fim do primeiro ano (Wallon-
Piaget):

-- intensificao da explorao do mundo exterior, das reaces 
circulares, da actividade pr-lingustica.
-- aparecem os primeiros "esquemas de aco" (ex.: "conduta e 
suporte"); das primeiras "palavras-frases";
-- no plano afectivo: crise do desmame (pelo menos na nossa 
cultura) e fim dos problemas causados pela amamentao;
-- na perspectiva da comparao homem-animal: 1 ano, idade do 
chimpanz (Kollog).

IV -- A primeira Infncia.

Para certos pedagogistas: e 1 a 2 anos e meio: primeira 
infncia; dos 2 anos e meio 3 aos seis: segunda infncia. 

a) estdio de inteligncia prtica (abrange o segundo ano):

-- no plano afectivo: perodo sdico-anal dos psicanalistas. 
Ensino do asseio e regulao da agressividade;
-- no plano motor: trabalho de diferenciao motora: desblocagem 
das sincinesias. Entre os 14 e os 18 meses: aquisio da marcha;
-- construo do espao locomotor e consolidao da terceira 
dimenso do espao (aperfeioamento da preenso);
-- ajustamento dos diferentes espaos (espao bucal + espao 
prximo + espao locomotor);
-- capacidade para organizar alinhamentos de objectos: incio da 
inteligncia das sries.

b) estdio de aquisio lingustica (dos 20 meses aos 3 anos):

"idade da exuberncia verbal" (gesell).
-- do ponto e vista afectivo: descoberta do pai. Perodo flico 
dos psicanalistas;
-- do ponto de vista motor: 

-- constituio do esquema corporal;
-- primeira estruturao do universo e incio do processo de 
lateralizao.

-- no plano da linguagem:

-- 21 meses: associao de duas palavras;
-- incio do grafismo (garatujas) e acesso  "idade gramatical";

-- no plano da percepo e do pensamento: globalismo da 
percepo e do pensamento: incio do perodo de sincretismo (Wallon-
Piaget).

c) estdio pueril (dos 3 aos 6-7 anos):

-- no plano afectivo: 

-- descoberta das diferenas dos sexos. Curiosidade pelas 
origens;
-- complexo de castrao, se assim acontecer;
-- crise dos 3 anos (/  ou crise da "personalidade");
-- impulsos de turbulncia e de oposio;
-- processo de personalizao (aparece o "eu", pronome da 
primeira pessoa);

Fase dos grandes tropismos afectivos:

-- a situao edipiana e sua ultrapassagem: Terceira separao 
da me;
-- a situao de concorrncia fraternal;
-- elaborao do superego (Freud).

-- no plano motor:

-- desaparecimento do sndroma motor infantil (Dupry);
-- construo de uma primeira destreza e "idade da graa" 
(homburger).

No plano intelectual:

-- incio da imitao (Guillaume);
-- organizao rudimentar das noes sincrnicas de espao e de 
tempo;
-- no que diz respeito  compreenso, predomnio da inteligncia 
intuitiva e do processo de assimilao (Piaget);
-- incio do perodo de pensamento pr-operatrio. Carcter 
egocntrico do pensamento, que se exprime atravs do animismo 
(fsico, antropomrfico, finalista, artificialista e pr-causal) 
(Piaget).

V -- A grande infncia )(ou terceira infncia): dos seis aos 
onze anos.

-- estdio reflectido (Pichon) ou estdio de diferenciaes 
(Wallon);
-- No plano psicomotor: dos seis aos sete anos, fase de 
deslocao da destreza motora anterior: alternncia de lentido e de 
superactividade;
-- no plano afectivo: processo de "descarnalizao" (Pichon):


-- entrada no "perodo de latncia" psicossexual (Freud), 
caracterizado pela regresso ou pela remisso da masturbao 
"secundria". Processo geral de "desafectivao"; 
-- elaborao de um primeiro nvel de intimidade afectiva 
(timidez, gosto pelo segredo, duplicidade).

-- no plano social: Processo de socializao, assegurado pela 
obrigatoriedade da entrada na escola: 

-- Transfert do pai para o Professor, da me para a Professora 
primria (dos 6 aos sete anos: psiquismo malevel e ambivalncia das 
atitudes sociais);
-- descoberta da camaradagem. Aparecem atitudes de reciprocidade 
e o sentido das hierarquias. Primeira "idade de grupo" (depois dos 7 
anos, recrudescncia de turbulncia alimentando uma "crise de 
explicao do mundo". Reduo da sugestibilidade e psiquismo rgido);

-- no plano escolar: incio da escolaridade obrigatria;
-- No plano intelectual (Piaget e Inhelder);

-- DOS 6 aos 7 anos: actividades de "interiorizao das aces" 
e incio do processo de "descentrao". Desagregao lenta da 
representao egocntrica do mundo e desenvolvimento progressivo da 
causalidade. Passagem da inteligncia intuitiva ao pensamento 
operatrio. Incio do "processo de acomodao");
-- dos 7 aos 11 anos: etapa consagrada ao pensamento operatrio 
concreto e marcada pela aquisio de "invariantes" (ou 
conservaes");
-- dos 8-10 anos: conservao da substncia;
-- dos 10 aos 11 ou 12 anos: conservao do peso;
-- depois dos 11 aos 12 anos: conservao do volume.

Durante o desenvolvimento: aparece o pensamento da contradio, 
passagem do raciocnio indutivo ao raciocnio lgico, com dificuldade 
em passar da "operao realizada" ao "conceito". Organizao do 
pensamento em torno de "noes elementares": tempo, espao, nmero, 
causa, movimento, velocidade (Debesse). Aparece o pensamento da 
impossibilidade e a ideia de acaso. Acesso  "idade da curiosidade".
A bagagem intelectual permitir: a aquisio das bases do saber 
instrumental constitudo por linguagens. Aprendizagem da leitura, dos 
mecanismos do clculo e seu significado. Ultrapassagem do "realismo" 
nominal e incio do ensino gramatical. Elaborao dos "esquemas 
organizadores" e primeiro inventrio do universo.

-- no plano moral:

-- at aos 8-9 anos: a regra, que tinha um carcter sagrado, 
permanece exterior ao jogo, embora seja posta em absoluto. Etapa do 
"realismo moral" (Piaget);
-- Depois dos 8-9 anos: a regra "seculariza-se", torna-se um 
"contrato" entre os jogadores. Pode ser objecto de contestao ou de 
ajustamentos. Passagem de uma moral de obedincia (heteronomia) a uma 
moral de responsabilidade pessoal (autonomia);

-- dos 10 aos 11 anos: etapa de "maturidade infantil" e de 
"perfeio pueril" (Gesell). Idade "nodal": idade de ouro das 
relaes familiares e e adaptao escolar. Desejo de aprender e 
primeiro limiar da responsabilidade.

VI -- A puberdade e a adolescncia:

-- No plano do crescimento:

-- durante a pr-puberdade: aumento de estatura;
-- durante a puberdade: desenvolvimento em largura e aumento 
ponderal.

-- No plano da motricidade:

-- desorganizao da destreza conquistada durante a infncia;
-- manifestaes de turbulncia (Bewegungluxus), de falta de 
habilidade, de desorganizao do equilbrio tnico, de perturbao 
nas atitudes corporais (motricidade "coreiforme").

-- No plano genital:

-- dos 15-16 aos 18 anos: fase de busca do companheiro 
sentimental com passagem  heterossexualidade. Conciliao das 
necessidades do sexo e das necessidades do corao na mesma pessoa;

-- crise do eu, que se manifesta atravs de diversas 
desadaptaes: 
-- a ateno prestada ao corpo;
-- a ateno prestada aos outros;
-- a ateno prestada ao eu.

-- A crise da originalidade juvenil (Debesse).

-- No plano intelectual: Desvalorizao dos interesses da 
infncia, surgem novos interesses progressivamente estruturados em 
torno de um interesse dominante.

Para Ferrire:

-- 13-16 anos: perodo de interesses abstractos simples com 
predominncia afectiva e individual;
-- 16-20 anos: perodo de interesses especulativos de natureza 
racional ou metafsica com predominncia social.

No que diz respeito  inteligncia: 

-- acesso ao "pensamento operatrio formal" (Piaget Inhelder);
-- constituio de tcnicas operatrias utilizadas no uso do 
pensamento lgico-matemtico;
-- "teorizao" do universo, mas "animismo de conceitos" 
(Dintzer);
-- acesso progressivo  generalizao da ideia de lei e ao 
determinismo;
-- "idade filosfica" (Pichon) e entrada no mundo dos valores;
-- elaborao de uma "teoria social" e de um "plano de vida" 
pessoal.

VII -- A juventude (dos 18-20 anos aos 25-27 anos).

-- "libertao do eu" (Debesse);
-- esforo de estabilizao, desejo de integrao social, 
conciliao do ideal e do possvel, reconciliao do pensamento e da 
aco, segundo um duplo eixo: preparao profissional, preparao 
para constituir famlia;
-- trabalho de construo da pessoa: coeso psicolgica e 
unificao do ser.
Paul Juif, Fernand Dover, Guia do Estudante de Cincias Pedaggicas, 
Editorial estampa, pp. 222-231.

  TEXTO XXI

        O CRESCIMENTO SOMTICO NORMAL

O crescimento somtico engloba o conjunto dos fenmenos que 
conduzem  maturao do organismo. Por crescimento entende-se no s 
o crescimento estatural, mas tambm as modificaes das propores e 
do volume do corpo, a maturao ssea, visceral biolgica do 
organismo.
O perodo de crescimento do organismo estende-se da vida uterina 
 idade adulta; mas a velocidade desse crescimento no  uniforme, 
durante todo esse espao de tempo. Podem distinguir-se perodos de 
crescimento rpido ou lento que vo suceder-se no decurso da vida da 
criana.

        ANTES DO NASCIMENTO

 o perodo em que a velocidade de crescimento  mais elevada. 
Durante os trs primeiros meses da vida uterina, todos os sistemas se 
organizam e se desenvolvem rapidamente. No fim do segundo trimestre 
de gestao, o feto atinge 70% da estatura e s 20% do peso que ter 
ao nascimento; o terceiro trimestre  o perodo de crescimento rpido 
sobretudo ponderal. 
        DO NASCIMENTO AOS DOIS ANOS

Este perodo  caracterizado por uma velocidade de crescimento 
ainda particularmente rpida. Na altura do nascimento, o seu primeiro 
ano e doze centmetros no segundo. No momento do nascimento o seu 
peso oscila entre 3,400 kg e 3,50 kg. Duplica aos cinco meses e 
triplica ao ano. O desenvolvimento do tecido subcotneo d ao 
lactente o aspecto eutrfico. O panculo adiposo vai diminuindo 
progressivamente  medida que a criana comea a andar. Nota-se ainda 
que o permetro craniano aumenta no primeiro ano cerca de doze 
centmetros, enquanto o crescimento cerebral  de cerca de 500 gramas 
(de 335 ao nascimento a 925 gramas ao ano) no mesmo perodo. No 
segundo ano, o permetro craniano aumenta apenas cerca de dois 
centmetros; a partir desta data, este crescimento  muito lento. 
Neste primeiro estdio, as propores do corpo so a inversa do que 
sero mais tarde.

        DOS DOIS ANOS  PUBERDADE

Esta segunda etapa pode ser dividida num perodo de fraco 
crescimento, dos dois aos quatro anos, e num de crescimento lento e 
regular, dos quatro  puberdade. Dos dois aos quatro anos, o aumento 
estatural  de nove centmetros e dos trs aos quatro de sete 
centmetros. A criana, nesta idade, ultrapassa um metro de altura. A 
partir da idade dos quatro anos, a velocidade do crescimento 
estatural  da ordem de cinco centmetros a seis centmetros por ano. 
A evoluo da curva ponderal  anloga: dos dois aos trs anos o 
aumento do peso  de 2,200 kg; a partir dos quatro anos  de 2,500 
kg. 

        ADOLESCNCIA

Este perodo  caracterizado pela acelerao do crescimento em 
altura, a maturao das propores do corpo e da morfologia geral e o 
desenvolvimento dos caracteres sexuais, que em alguns anos 
transformam a criana em adulto. O grande impulso do crescimento d-
se dos dez aos onze anos, entre as raparigas, e dos doze aos treze, 
nos rapazes. O perodo de crescimento rpido dura 2-3 anos. O 
crescimento estatural enfraquece progressivamente para terminar  
volta dos dezoito vinte anos.
Robert Debr, Marcel Lelong, Pdiatrie, Flammarion, Paris, pp 1165-
1166.

        TEXTO XXII
   
        FACTOS FUNDAMENTAIS DO CRESCIMENTO E DO ENVELHECIMENTO

O crescimento e a maturidade biolgica pertencem aos factos 
fundamentais mais importantes de toda a espcie de vida. Quer se 
trate de planta, animal ou homem, todos eles crescem e se 
desenvolvem. Mas por mais diversos que estes processos paream, 
pertencem, no entanto, de certo modo, aos mais difceis de 
compreender cientificamente. Muitas suposies e teorias discordantes 
se desenvolveram para estabelecer as foras e tendncias que actuam 
nestes processos. Tambm ns nos ocuparemos com algumas dessas 
especulaes ao referir-nos ao desenvolvimento anmico e aos motivos 
da aco. De momento contentar-nos-emos com apontar, com base nos 
factos, em que consistem o crescimento e a maturao.
O crescimento, como todos sabem, consiste no constante aumento 
de peso e de altura por parte da criana, diverso de indivduo para 
indivduo e que se processa mais ou menos regularmente, quer mais 
rpido, quer mais lento, e cessando normalmente por volta dos vinte 
anos. A idade de vinte e cinco anos constitui o limite mximo para o 
crescimento, tratando-se sempre de casos de excepo.
Toda a me sabe que o aumento regular de peso o seu beb se 
reveste do maior significado para o seu desenvolvimento normal. Nos 
pases civilizados, muitas mes, s no a maior parte delas, pesam o 
seu beb durante o primeiro ano de vida, sempre que possvel aps 
todas as refeies. As diminuies de peso que ocorrem por vezes como 
consequncias de doenas ou de uma alimentao deficiente so 
consideradas como um problema muito srio pela me conscienciosa e 
pelo mdico que assiste regularmente a criana. Com efeito, no 
primeiro ano de vida, o aumento de peso adequado  um dos fundamentos 
principais para um desenvolvimento sadio.

Aps o primeiro ano de vida da criana, muitos pais pensam ser 
j desnecessrio prestar a mesma ateno ao aumento de peso 
correspondente ao aumento da idade, tal como o fizeram nos primeiros 
doze meses. Por esse motivo  importante frisar que a moderna 
medicina verificou uma estreita ligao entre o peso corporal e a 
sade psquica. Tanto durante a infncia como mais tarde ana vida, o 
grande excesso de peso ou um peso sensivelmente inferior ao normal 
indicam muitas vezes no s doena fsica como tambm uma perturbao 
psquica.
Menos significativo  o crescimento em altura, que varia de 
indivduo para indivduo, muitas vezes consoante o padro da famlia. 
Muitos pais podero desejar que os seu filho apresente maior 
estatura; outros preocupar-se-o por a sua filha crescer demasiado. 
No entanto, a tais particularidades no se pode em geral atribuir 
qualquer significado sintomtico.
 sobejamente conhecida a extraordinria variabilidade do 
crescimento e do desenvolvimento em geral, verificada no perodo da 
puberdade.
Ainda que, como j dissemos, uma pequena estatura e uma 
maturao tardia, no constituam sintoma de doena ou de 
anormalidade, o certo  que um jovem pode sofrer bastante devido ao 
seu aspecto no desenvolvido.
Pouco tempo aps a puberdade termina, como dissemos, o 
crescimento em altura. Contudo, isto no significa o fim do 
crescimento em geral. Pelo contrrio, verificam-se no organismo 
durante toda a vida processos de crescimento, dos quais o mais 
importante  a renovao das clulas, contudo, o crescimento em 
sentido restrito  o perodo em que, usando a expresso de L. von 
Bertalanffy, as foras produtivas prevalecem sobre as formas de 
degenerescncia. O crescimento  chamado estacionrio no perodo 
mdio da vida, em que ambos os processos -- o de produo e o de 
degenerescncia -- atingiram um equilbrio.
Assim, podemos referir-nos a uma curva da vida que, representada 
esquematicamente, ascende at  idade de 25 anos, permanece em 
seguida  mesma altura at cerca dos 50 anos e finalmente decai.
Isto, alis, numa referncia esquemtica, pois, devido ao modo 
de vida actual, beneficiado pelos progressos da higiene e dos 
conhecimento medicinais, no s a vida  sensivelmente prolongada 
como a degenerescncia visivelmente retardada. Ningum sabe por 
enquanto exactamente como se realiza de facto o envelhecimento. Uma 
das teorias hoje em dia mais divulgadas  a de H. Selye, segundo a 
qual cada organismo  esgotado por tenses s quais ele se consegue 
adaptar cada vez menos: Selye refere-se a um esgotamento da "energia 
adaptativa".
Ainda no est igualmente estabelecido em que medida a funo 
das glndulas sexuais est relacionada com o envelhecimento. A 
capacidade de procriao do organismo humano inicia-se, em todo o 
caso, com a maturao sexual, atingida na puberdade entre os 11 e os 
16 anos, e termina, para o sexo feminino na chamada menopausa, que 
ocorre entre entre os 45 e os 55 anos, e para o sexo masculino num 
perodo sensivelmente oscilante, na maioria dos casos, porm, mais 
tardio. 

J dissemos que, no nosso sculo, a durao mdia de vida se 
prolongou extraordinariamente. Enquanto por volta de 1990 comportava 
apenas cerca de 50 anos, prolongou-se hoje em dia at cerca dos 70 
anos. Com o aumento da idade, para alm do esgotamento do organismo 
que j citmos, as doenas passam a desempenhar um maior papel como 
causas de morte. Hoje em dia as doenas cardio-vasculares e o cancro 
encontram-se entre as causas mais frequentes de uma morte prematura.
A morte prematura noutras idades apresenta em grande parte 
outros motivos. Para a morte de bebs existe uma srie considervel 
de causas; nas outras idades, e segundo uma recente estatstica 
americana, os acidentes de diferentes espcies representam um motivo 
principal a par das doenas de pulmes, do cancro e da paralisia 
infantil crebro-espinal. Isto verifica-se em todas as idades, mas 
mais especialmente na juventude at aos 24 anos e numa idade avanada 
passados os 65.
Uma coisa, porm, est estabelecida: a sade e a doena, bem 
como a esperana de viver so de grande importncia para os 
sentimentos que experimentamos em face da vida.

        FACTOS FUNDAMENTAIS DA MATURAO BIOLGICA

Muito mais difceis de abranger do que os factores do 
crescimento so os factores de maturao biolgica. Devido ao seu 
extraordinrio alcance, para o decurso da vida, merecem uma 
observao muito cuidadosa.
Por maturao compreendemos uma determinada srie de 
transformaes que se verifica nas estruturas corporais e funes, 
bem como no comportamento do ser vivo durante toda a sua vida. Essas 
transformaes representam uma srie que se processa num s sentido 
ou, usando o termo tcnico, uma "sequncia", significando "um s 
sentido" que a srie no  susceptvel de regresso, visto que nos 
verdadeiros processos de maturao cada uma das fases que se vai 
sucedendo necessita do pressuposto a fase anterior. O importante 
conceito de "maturao" tornar-se- claro em face de alguns exemplos.
Aos processos de maturao mais importantes pertence a maturao 
dos movimentos corpreos, por exemplo dos movimentos realizados para 
agarrar qualquer coisa. Se, por exemplo, tocarmos com um dedo a palma 
da mo de um recm-nascido, a pequena mo fecha-se imediatamente em 
torno deste objecto. Este  o chamado reflexo de preenso, com o qual 
se iniciam os movimentos para agarrar.  um dos inmeros reflexos 
corpreos inatos ao ser humano. 
Alm dos reflexos, o recm-nascido revela uma grande srie de 
outros movimentos desordenados e sem objectivo, que se denominam 
movimentos em massa; trata-se de reaces no especficas a todos os 
possveis estmulos internos e externos. Entre esses movimentos em 
massa existem tambm movimentos de braos, mas esses no obedecem a 
qualquer objectivo e no so dirigidos.
S a partir de cerca dos trs meses o beb estende o brao para 
um objecto que v a alguma distncia; com cerca de quatro meses 
agarra um objecto que aproximemos dele e com cerca de cinco meses 
pode combinar as seguintes aces: estender o brao em direco do 
objecto (algo distinto) que v a alguma distncia e agarrar e puxar 
para si esse objecto.

A sequncia destes trabalhos  condicionada pela maturao, 
visto que, nas aces cada vez mais complicadas, cada nova actuao 
conjunta dos diferentes rgos pressupe o desenvolvimento de 
trabalhos mais simples: a crescente coordenao e complexidade das 
aces caracterizam os progressos da maturao.
Com dissemos, so de esperar os progressos em agarrar por volta 
dos trs, quatro e cinco meses. Mas poder-se- de facto afirmar isto 
assim de modo geral? No existiro grandes diferenas individuais?
A este respeito deve dizer-se o seguinte: A sequncia como tal  
imutvel, visto que est determinada pelas possibilidades de 
desenvolvimento fortemente inerentes ao organismo, pelo que se fala 
de leis da estruturao.
No entanto, a apario afectiva das novas realizaes faz 
pressupor influncias do meio circundante adequadas no que diz 
respeito tanto ao momento como  peculiaridade individual e  
normalidade. Falamos nesse caso de funes e podemos dizer que, na 
funo, para alm dos dados da estrutura, se exprimem igualmente as 
condies de vida.
Eis um exemplo: Se se mantivesse um beb num quarto 
absolutamente vazio e jamais se lhe apresentasse como "estmulo" um 
nico objecto para ele contemplar, apalpar, agarrar, o seu organismo 
poderia amadurecer (lei da estrutura) mas a sua capacidade de 
coordenao (funo) seria prejudicada.
Charlotte  Buhler, A Psicologia na Vida do Nosso Tempo, Fundao 
Caloust Gulbenkian, Lisboa, 1971, pp. 62-69.

        TEXTO XXIII

        MATURAO: SEUS FACTORES

Maturao  o nome aplicado  sequncia de mudanas 
comportamentais devidas primariamente ao crescimento fisiolgico mais 
que  aprendizagem. Numa demonstrao experimental da importncia do 
processo de maturao, Carmichael (1927) mostrou como o 
desenvolvimento das respostas de natao dos girinos das rs e das 
salamandras era devido ao crescimento e no  prtica. Carmichael 
dividiu os girinos recm sados do ovo em dois grupos: a um grupo, o 
grupo de controlo, permitia-se-lhe desenvolver-se em gua pura, 
enquanto o grupo experimental era criado em gua que continha 
cloreto. Esta soluo, embora sem interferncia nos processos de 
crescimento normal, inibia toda a actividade muscular impedindo, 
assim, os sujeitos de nadar.
Os girinos do grupo de controlo desenvolveram-se normalmente e 
comearam a nadar no tempo previsto. Depois de os sujeitos-controlo 
terem continuado a nadar por um perodo de cinco dias, os sujeitos 
experimentais foram colocados na gua pura. Aps um perodo de trinta 
minutos, as respostas de natao dos sujeitos experimentais no se 
distinguiam das do grupo de controlo.

Uma possvel interpretao desta experincia  que os trinta 
minutos de prtica dos sujeitos experimentais eram equivalentes a 
cinco dias de prtica dos sujeitos-controlo. Outra interpretao  
que os sujeitos experimentais necessitaram de trinta minutos para lhe 
passar o efeito da droga. Esta segunda interpretao significaria que 
estes girinos no precisavam de prtica antes de poderem nadar. O 
nadar  automtico quando o sistema fisiolgico do girino est 
suficientemente maduro. Para avaliar estas duas interpretaes, 
Carmichael colocou outro grupo de girinos que tinham estado a nadar 
normalmente, numa soluo de cloreto. Quando tirados da soluo, eles 
necessitavam tambm de um perodo de trinta minutos antes de poderem 
nadar livremente. Os resultados de Carmichael sugerem, assim, que a 
resposta da natao dos girinos ocorre automaticamente quando o 
animal est fisiologicamente preparado.
As respostas resultantes da maturao no podem ser sempre 
nitidamente distintas das devidas ao exerccio. Isto verifica-se, 
sobretudo, quando se trata de um comportamento complicado como o de 
ler. A maioria das crianas de dois anos no pode aproveitar da 
tentativa para as ensinar a ler. Eles no esto suficientemente 
desenvolvidas para fazer a discriminao visual necessria entre as 
palavras. a criana mdia de seis anos, porm, est suficientemente 
madura. Mas as respostas apropriadas  leitura no emergiro 
espontaneamente quando atinge a idade dos seis anos, como foi o caso 
das respostas de natao dos girinos.  necessrio o exerccio, antes 
que uma criana adquira as habilidades da leitura. Por outras 
palavras,  a maturao que proporciona o fundamento sobre o qual se 
baseia a aprendizagem da leitura.
Foi um captulo de grande interesse para os psiclogos o saber 
como mudar o comportamento  medida que os organismos se desenvolvem. 
As suas numerosas observaes tm grande valor prtico e terico. 
Todos os pais deveriam saber algo acerca da sequncia maturacional do 
comportamento das crianas. Muito frequentemente, eles comeam a 
ensinar a ler, higiene do corpo ou qualquer outra actividade para a 
qual a criana no est suficientemente desenvolvida. O resultado s 
pode ser o malogro e, s vezes, pode ter influncias psicolgicas 
nefastas sobre a criana.
O estudo da maturao  uma consequncia natural que aprendemos 
da fisiologia e da gentica. Os genes determinam como e a que ritmo 
os organismos se desenvolvem; os genes dirigem o processo 
maturacional. Deve sublinhar-se, porm, que, nos estudos da 
maturao, como na gentica, as influncias ambientais nunca podem 
ser completamente ignoradas. Por exemplo, quando os girinos eram 
conservados numa soluo de cloreto por mais de treze dias, o seu 
comportamento natatrio era definitivamente retardado (Matthews e 
Detwiler, 1926). , pois, evidente que a sua resposta natatria no  
alheia a toda a influncia ambiental.
A maturao no deve ser conhecida como ocorrendo em oposio  
aprendizagem, de maneira que as influncias hereditrias sejam 
comummente, mas erradamente, opostas s influncias ambientais.
A nossa experincia sobre a hereditariedade e o ambiente no 
oferece as respostas simples aos problemas complexos, respostas essas 
que foram dadas por aqueles que, erradamente, consideraram a 
hereditariedade e o ambiente como factores isolados e independentes. 
Mas havemos de descobrir que, apesar da sua complexidade um pouco 
maior, a nossa anlise  intelectualmente mais slida, simplesmente 
porque se ajusta aos factos.
H. Kendler, Introduo  Psicologia, Vol. I, Fundao Calust 
Gulbenkian, Lisboa, 1972, pp. 198-200..

        TEXTO XXIV


        CRIANCICE E VELHICE

A criana, fresca em relao a todas as coisas e vivendo num 
mundo em perptua metamorfose, povoa a sua memria de acontecimentos. 
O velho, pelo contrrio, tendo j experincia de quase tudo que pode 
ainda encontrar, j no guarda lembranas, a no ser as que lhe vm 
das idades passadas e particularmente da sua infncia. Entre os 
acontecimentos recentes, uniformizados pelo conhecimento que j tinha 
deles, no sabe distinguir. Na sua prpria actividade, cheia de 
automatismos e de clichs, tambm no. Assim, j no h mais nada que 
o advirta, nem de uma situao que pode parecer nova a outros e no a 
ele nem que ele se repete. Em ltima anlise, ele confundir 
circunstncias semelhantes, mas relativamente a pocas ou a pessoas 
diferentes e dir tolices. Tendo vagamente conscincia disto, far 
por vezes tentativas pueris para procurar enganar. Quando o seu poder 
de discriminao mnsica se reduz a ponto de abolir assim a percepo 
diferenciada do presente e do passado, deve-se concluir por um estado 
de rarefaco psquica que, sem dvida, no passar sem essas leses 
de amolecimento ou de desagregao nervosa que acompanham muitas 
vezes a senilidade. Um exame das funes motoras permite 
habitualmente dar a prova disto. 
 medida que declinam as possibilidades de animao ou de 
criao do velho, ele parece procurar compensaes fora de si. Torna-
se muitas vezes vido de consagraes oficiais, de honras. Agarra-se 
ao dinheiro,  propriedade. O que era simples efeito torna-se 
princpio, o que era para ele um meio torna-se um fim. As foras e a 
vida que sente escaparem-lhe, emprega-as em coisas alheias. Acontece-
lhe privar-se das coisas para amealhar, como se esperasse sobreviver 
naquilo que deixa, no momento de tudo abandonar.
Mas inversamente, quer por sublimao da libido, quer porque ao 
instinto de vida se oporia um instinto contrrio, a velhice pode 
tambm consistir num relaxamento gradual dos laos que unem o 
indivduo s coisas. Em lugar de as querer para si, ficar satisfeito 
por apreciar as suas qualidades, sem procurar satisfazer nelas as 
suas prprias necessidades de actividade ou de prazer. Se sonha 
sobreviver, ser para l das realidades actuais ou ento no esprito 
dos outros. Os seus interesses e pontos de vista pessoais podem 
reabsorver-se numa espcie de contemplao que o une  vida unnime 
do seu tempo ou de todos os tempos ou mesmo  vida da natureza 
fsica. Humanismo ou pantesmo dos que sabem envelhecer bem.  parte 
alguns materialistas,  raro que se considere a velhice como uma 
idade que tenha significao funcional. 
Henri Wallon, in Vie mentale de l'enfance  la vieillesse, 
Incyclopdie Franaise, VIII, pp. 856 1-2-3.

        TEXTO XXV

        A VELHICE


 um fenmeno biolgico: o organismo do homem de idade apresenta 
certas irregularidades. Arrasta consequncias psicolgicas: certas 
condutas so justamente consideradas como caractersticas da idade 
avanada. Como todas as situaes humanas, tem uma dimenso 
existencial: modifica a relao do indivduo com o tempo, portanto a 
sua relao com o mundo e com a sua prpria histria. Por outro lado, 
o homem nunca vive em estado natural; na sua velhice, como noutra 
idade qualquer, o seu estatuto -lhe imposto pela sociedade a que 
pertence. O que torna a questo complexa  a estreita 
interdependncia destes pontos de vista. Sabemos hoje que  abstracto 
considerar separadamente os dados fisiolgicos e os factos 
psicolgicos; eles comandam-se mutuamente; veremos que na velhice 
esta relao  particularmente evidente:  por excelncia o domnio 
da psicossomtica. No entanto, o que se chama a vida psquica de um 
indivduo no pode compreender-se seno  luz da sua situao 
existencial; esta tem, portanto, tambm repercusses no seu 
organismo, e inversamente: a relao com o tempo  experimentada 
diferentemente, conforme o corpo est mais ou menos gasto.
Finalmente, a sociedade assinala ao velho o seu lugar e o seu 
papel, tendo em conta a sua ideossincrasia individual: a sua 
impotncia, a sua experincia; reciprocamente o indivduo  
condicionado pela atitude prtica e ideolgica da sociedade a seu 
respeito.
Toda a situao humana pode ser encarada em exterioridade -- tal 
como se apresenta ao outro -- e em interioridade, enquanto o sujeito 
a assume ultrapassando-a. Para o outro, o velho  objecto de um 
saber; para si  prprio, ele tem do seu estado uma experincia 
vivida. Verificaremos que a velhice apresenta uma multiplicidade de 
aspectos, irredutveis uns aos outros. No decorrer da histria, como 
presentemente, a luta das classes dirige a forma como o homem  preso 
pela sua velhice; um abismo separa o velho escravo e o velho 
euptrida, um antigo trabalhador miseravelmente pago e um Onassis.
A velhice no  um facto estatstico,  o resultado e o 
prolongamento de um processo. Em que  que consiste este processo? O 
que  envelhecer? Esta ideia est ligada  de mudana. Mas a vida do 
embrio, do recm-nascido, da criana,  uma mudana contnua. 
considerar-se-, como alguns, que a nossa existncia  uma morte 
lenta? Seguramente que no. Um tal paradoxo desconhece a verdade 
essencial da vida; ela  um sistema incontvel, em que cada instante 
se perde e se reconquista o equilbrio:  a inrcia que  o sinnimo 
de morte. A lei da vida  a mudana.  um certo tipo de mudana que 
caracteriza o envelhecimento: irreversvel e desfavorvel, um 
declnio.
O gerontlogo americano Lansing prope a definio seguinte: "um 
processo progressivo da mudana desfavorvel, normalmente ligada  
passagem do tempo, tornando-se aparente depois da maturidade e 
resultando invariavelmente na morte."

Depois de ter atingido um apogeu vem o declnio. Onde situar 
este apogeu? Apesar da sua interdependncia, o fsico e o moral no 
seguem uma evoluo rigorosamente paralela. Moralmente o indivduo 
pode ter sofrido perdas considerveis antes que comece a sua 
degradao fsica; pelo contrrio, pode acontecer que no decorrer 
desta perda ele realize trabalhos intelectualmente importantes. A 
qual atribuiremos o maior valor? Cada um dar uma resposta diferente, 
conforme valorizar mais as atitudes corporais ou as faculdades 
mentais ou a um feliz equilbrio entre umas e outras.  depois de 
tais opes que os indivduos e as sociedades estabelecem uma 
hierarquia das idades: no h nenhuma que seja universalmente aceite.
A velhice s poder ser compreendida em totalidade; no  
somente um facto biolgico, mas um facto cultural.
Simone de Beauvoir, La Vieillesse, Gallimard, 1970, pp. 15-19.

*/* (sobre este assunto, ainda me fica a faltar o ltimo texto do 
quarto caderno, a partir da pgina 52, inclusive).


        FUNDAMENTOS SOCIAIS DO COMPORTAMENTO

        Texto 38

O homem vive em muitas dimenses. Move-se no espao, onde o meio 
natural exerce influncia constante sobre ele. Existe no tempo, que 
lhe d um passado histrico e o sentimento do futuro. Realiza as suas 
actividades numa sociedade de que faz parte e identifica-se com os 
outros membros do seu grupo para cooperar com eles no seu sustento e 
na sua continuidade.
Mas a este respeito o homem no  o nico. Todos os animais do 
conta do espao e do tempo. Muitos formam sociedades em que a 
necessidade de se adaptarem aos outros membros constitui um factor 
sempre presente na sua vida. O que distingue dos os outros o homem, 
esse animal social de que nos ocupamos,  a cultura. Essa tendncia a 
desenvolver as culturas cimenta num conjunto unificado de todas as 
foras que agem sobre o homem, integrando em favor do indivduo o seu 
meio natural, o passado histrico do seu grupo e as suas relaes 
sociais. A cultura rene todos estes factores e d ao homem o meio de 
se adaptar s complexidades do mundo. Ela d-lhe o sentimento, e 
tambm por vezes a certeza, de ser o seu criador ao mesmo tempo que a 
sua criatura.
As definies de cultura abundam. Estamos geralmente de acordo 
em dizer que a cultura se aprende, que permite ao homem adaptar-se ao 
seu meio natural e que varia muito, que se manifesta em instituies, 
formas de pensamento e objectos materiais. Uma das melhores 
definies de cultura, embora j antiga,  a de E. B. Tylor, que a 
define como "um todo complexo que inclui os conhecimentos, as 
crenas, a arte, a moral, as leis, os costumes e todas as outras 
disposies e hbitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma 
sociedade". Sinnimos de cultura so tradio, civilizao. A cultura 
 o que no meio  devido ao homem. Reconhecemos implicitamente por 
esta frase que a vida do homem prossegue num quadro duplo: habitat 
natural e meio social. Esta definio indica tambm que a cultura  
mais do que um fenmeno biolgico. Inclui todos os elementos nas 
caractersticas do homem adulto, que conscientemente as apreendeu do 
seu grupo, e sobre um plano ligeiramente diferente, por um processo 
de condicionamento: tcnicas, instituies sociais e outras, crenas, 
modos determinados de conduta. Numa palavra, a cultura contrasta com 
os materiais brutos, internos ou externos, dos quais deriva. Os 
recursos oferecidos pelo mundo material so moldados para satisfazer 
as necessidades. Os caracteres inatos so modelados de tal modo que 
fazem derivar de dons inerentes os reflexos que dominam nas 
manifestaes exteriores do comportamento.

        M. J. Herskovitz, Les Bases de l'Antropologie Culturelle, Paris, Payot, 1967, pp. 5 e 6.

        Texto 39

        ACERCA DA EVOLUO DO HOMEM


Contrariamente ao que de bom grado se cr, desde h muito tempo 
que o homem deixou de evoluir. O homem de hoje, o homem do sculo XX, 
o homem que ns somos no difere essencialmente do homem que vivia h 
alguns cem mil anos nas cavernas do quaternrio e de quem os 
paleontologistas exumaram os vestgios dos ossos e dos utenslios 
rudimentares. Todos os momentos da histria humana que decorreram 
desde essas idades longnquas no alteraram em nada ou quase nada o 
estatuto morfolgico e fisiolgico da nossa espcie; e, por 
consequncia, a diferena enorme que existe entre o velho talhador de 
slex e o seu herdeiro moderno no  seno a obra da civilizao, 
quer dizer, da cultura gradualmente acumulada e transmitida por 
tradio social. Desde a origem da espcie, o homem era igual quilo 
em que se iria tornar. Trazia com ele, em estado virtual, tudo o que, 
pouco a pouco, se iria desenvolver r frutificar em destreza, em 
tcnica, em cincia, em arte, em filosofia, em religio. A prova  
que, se, por um prodgio, se pudesse fazer ressurgir nos nossos dias 
um recm-nascido desta poca vinda para o criar e educar como um dos 
nossos, ele tornar-se-ia um homem totalmente semelhante a ns, um 
homem que, nem no aspecto, nem na conduta, nem no pensamento ntimo, 
em nada denunciaria ser um estranho entre ns, um espectro do 
passado. Seria um homem que no teria nenhuma dificuldade particular 
em iniciar-se nas complexidades e nos requintes dos nossos costumes, 
um homem que, encontrando-se ao mesmo nvel das manifestaes mais 
avanadas do pensamento ou da esttica, poderia, to bem como 
qualquer outro, discutir sobre o existencialismo ou explicar a 
pintura de Picasso...
Sem dvida que h alguma coisa que nos permite medir a 
importncia considervel do factor social na evoluo humana, mas 
ningum se esquecer, por isso, que  o facto biolgico que 
desempenha um papel decisivo no princpio da aventura, que  ele o 
grande responsvel que, por analogia com o milagre grego, se pode bem 
chamar o milagre humano. Se, a partir de um certo momento da sua 
histria e graas ao jogo combinado da inteligncia e dos instintos 
do grupo, o homem se pde tornar naquilo que , ele deve-em primeiro 
lugar a que uma pequena mudana -- uma pequena mudana suficiente -- 
se produziu no seu organismo fsico, no seu ser corporal. Dessa 
mudana, que iria arrancar o homo sapiens de um homem primitivo que 
no era sapiens, ignoramos, para dizer a verdade, a natureza exacta e 
as causas que a motivaram, mas sabemos que mal ela se produziu na 
descendncia humana a grande partida estava implicitamente jogada, 
todo o resto no sendo mais do que explicao e consequncia. De ora 
avante o homem, favorecido por esta pequena alterao da sua 
animalidade, iria para sempre romper com o animal. De mamfero 
superior que era tornava-se bem outra coisa, esse ser nico que iria 
marcar to fortemente a histria da sua vida, a histria da terra, 
talvez a histria do universo e inaugurar a aventura prodigiosa que, 
hoje ainda, no est seno no princpio.
        J. Rostand, Les Grands Textes de la Philosophie, Bordas, 1973, pp. 58-59.

        Texto 40

        O HOMEM NO  UMA NATUREZA, MAS UMA HISTRIA

 uma ideia assente daqui em diante que o homem no tem 
natureza, mas que tem -- ou antes que ele  -- uma histria. O que h 
pouco o existencialismo afirmava e fez escndalo, no se sabe porqu, 
aparece como uma verdade, que se pode ver anunciada em todas as 
grandes correntes do pensamento contemporneo: pelo Behaviorismo, que 
nega, com Naville, a hereditariedade dos traos mentais, dos 
talentos, das capacidades; pelo marxismo, que reconhece, com Wallon, 
que de todos os seres vivos o homem   nascena o ser mais incapaz, 
condio dos seus progressos ulteriores; pela psicanlise, que 
confirma, segundo a expresso de Lagache, que a ideia de instintos 
desenvolvendo-se por eles prprios no corresponde a nenhuma 
realidade humana; pelo culturalismo, enfim, que, apoiando-se ao mesmo 
tempo no marxismo e na psicanlise, liquida as ltimas dvidas e faz 
brilhar em plena luz o que o indivduo deve ao meio na edificao da 
pessoa.

A prpria noo de instinto, na psicologia animal, perdeu a rigidez 
que tinha outrora. Sabe-se hoje que a imitao, a aprendizagem das 
tarefas nos animais superiores, o efeito da sugesto do grupo nos 
animais inferiores, vivendo numa espcie de permanente hipnose, 
mostra a importncia do meio na maturao do instinto. Apesar de 
tudo, este continua a aparecer como um a priori da espcie, que cada 
ser imprime a fora directriz de um modo bastante preciso, mesmo no 
caso de um precoce isolamento.  neste sentido que um comportamento 
animal remete a qualquer coisa como uma natureza. Na criana todo o 
isolamento extremo revela a ausncia nela destes slidos a priori, 
destes esquemas adaptativos especficos. As crianas privadas 
demasiadamente cedo de todo o contacto social -- as crianas que se 
chamam "selvagens" -- ficam desprovidas, na sua solido, a ponto de 
aparecerem como animais estranhos. Em vez de um estado de natureza 
onde o homem sapiens e o homem faber rudimentares se deixariam 
aperceber, -nos dado observar uma simples condio aberrante, ao 
nvel da qual toda a psicologia se torna teratologia.
A verdade  que o comportamento, no homem, no deve  
hereditariedade especfica o mesmo que comportamento animal deve. O 
sistema de necessidades e de funes biolgicas legado pelo genotipo 
aparenta o homem no momento do nascimento a todo o ser animado sem o 
caracterizar, sem o designar como membro da espcie humana. Em 
compensao, esta ausncia de determinaes particulares  
perfeitamente sinnima de uma presena de possveis indefinidos. A 
vida fechada, dominada e regulada por uma natureza dada,  
substituda aqui pela existncia aberta, criadora e ordenadora de uma 
natureza adquirida. Assim, sob a aco das circunstncias culturais, 
uma pluralidade de tipos sociais, e no um s tipo especfico, 
poderia aparecer diversificando a humanidade segundo o tempo e o 
espao. O que a anlise, mesmo das similitudes, retm de comum nos 
homens  uma estrutura de possibilidades, na verdade de 
probabilidades que no pode passar ao ser sem contexto social, 
qualquer que ele seja. Antes do encontro de outrem e do grupo, o 
homem no  seno virtualidades to leves como o vapor transparente. 
Toda a condensao supe um meio, isto , o mundo dos outros.
        L. Malson, Les Enfants Sauvages, Paris, 10-18, 1964, pp. 7-9.

        Texto 41

        FACTOS CULTURAIS E FACTOS NATURAIS


Esta ausncia de regras parece dar o critrio mais seguro que 
permite distinguir um processo natural de um processo social.Nada 
mais sugestivo que a oposio entre a atitude da criana mesmo muito 
jovem, para quem todos os problemas so regulados por ntidas 
distines, mais ntidas e mais imperativas, por vezes, que no 
adulto, e as relaes entre os membros de um grupo semiesco, 
completamente abandonadas ao acaso, em que o comportamento de um 
indivduo nada nos ensina sobre o do seu congnere, em que a conduta 
do mesmo indivduo de hoje em nada garante a sua conduta do dia 
seguinte.  porque, efectivamente, h um crculo vicioso quando se 
procura na natureza a origem de regras institucionais que supem -- 
ou ainda mais, que j so -- a cultura, e cuja instaurao no seio de 
um grupo dificilmente se pode conceber sem a interveno da 
linguagem.  verdade que a constncia e a regularidade existem tanto 
na natureza como na cultura. Mas, no seio da primeira, elas aparecem 
precisamente no domnio em que, na segunda, se manifestam mais 
fracamente, e inversamente. Num caso  o domnio da hereditariedade 
biolgica, no outro, o da tradio externa.
No poderamos exigir a uma continuidade ilusria entre as duas 
ordens que desse contas dos pontos pelos quais elas se opem.
Nenhuma anlise real permite ento captar o ponto de passagem 
entre os factos da natureza e os factos da cultura, e o mecanismo da 
sua articulao. Por toda a parte onde a regra se manifesta, sabemos 
com certeza que se est no nvel da cultura. Simetricamente,  fcil 
reconhecer no universal o critrio da natureza. Porque o que  
constante em todos os homens escapa necessariamente ao domnio dos 
costumes, das tcnicas e das instituies pelas quais os seus grupos 
se diferenciam e se opem. Aceitemos pois que tudo o que  universal 
no homem provm da natureza e caracteriza-se pela espontaneidade; que 
tudo o que est ligado a uma norma pertence  cultura e apresenta os 
atributos do relativo e do particular. Encontramo-nos ento perante 
um facto, ou antes, um conjunto de factos, que no est longe de 
aparecer como um escndalo: queremos dizer este conjunto complexo de 
crenas, de costumes, de estipulaes e de instituies que se 
designam sumariamente sob o nome de proibio do incesto. Pois que a 
proibio do incesto apresenta, sem o menor equvoco, e 
indissoluvelmente reunidos, os dois caracteres em que reconhecemos os 
atributos contraditrios de duas ordens exclusivas: constitui uma 
regra, mas uma regra que, nica entre todas as regras sociais, possui 
simultaneamente um carcter de universalidade. Que a proibio do 
incesto constitui uma regra no precisa de ser demonstrado; bastar 
lembrar que a proibio de casamento entre parentes prximos pode ter 
um campo de aplicao varivel segundo o modo como cada grupo define 
o que entende por parente prximo; mas que esta interdio, 
sancionada por penalidades, sem dvida variveis, e podendo ir da 
execuo imediata dos culpados  reprovao difusa, muitas vezes 
apenas  troa, est sempre presente em qualquer grupo social.
        C. Lvi-Strauss, Les Structures lmentaires de la Parent, Paris, Mouton, 1967, pp. 9-10.

        Texto 42

        AS CARACTERSTICAS DAS CULTURAS

Importa, em primeiro lugar, determinar algumas das caractersticas 
gerais e especficas das culturas. Reconhece-se, de um modo geral, 
que todas as culturas apresentam em comum determinadas 
caractersticas, por esse motivo denominadas universais.

As caractersticas comuns das culturas devem-se ao facto simples 
de a vida e o destino de todos os seres humanos que existem neste 
mundo serem, sob determinado ponto de vista, semelhantes. Todos os 
seres humanos so gerados numa me e todos os seres humanos morrem. O 
crescimento e o desenvolvimento, a capacidade de procriao e de 
comunicao, as necessidades, os sentimentos, a percepo, o 
pensamento e outras experincias ntimas, a linguagem, o movimento e 
aproveitamento de materiais so comuns a todos os seres humanos.
Desde Malinowski, diversos investigadores tm tentado constituir 
em sistemas os aspectos universais da cultura, construdos pelos 
seres humanos com o auxlio do seu equipamento espiritual e fsico. 
Parece, contudo, que nenhum destes sistemas foi universalmente 
reconhecido. 
Alterando a diviso proposta por Melville Herskovitz, parecem-me 
ser os seguintes os aspectos fundamentais:

I -- Cultura material:
Economia;
Tcnica.

II -- Instituies sociais:
Comunicao, organizao social, educao, estruturao 
poltica.

III -- Arte e cincia:
Artes grficas e plsticas, Msica e dana, usos e costumes;
lngua e literatura;
organizaes espirituais e cincia.

IV -- Homem e universo:
Sistema de crenas;
Sistema de valores;
Filosofia.

Todas as culturas se ocupam em medida diversa com os aspectos 
que aqui apontamos. Os meios e os mtodos que utilizam para a sua 
realizao variam fortemente e quando contemplamos imagens de tribos 
primitivas ou ouvimos falar dos seus costumes peculiares somos 
impressionados a maior parte das vezes, pelas grandes diferenas 
existentes entre ns e esses seres humanos. Qual de ns, homens do 
Ocidente, no contempla com estranheza os rostos e corpos de nativos, 
a nosso ver desfigurados pela tatuagem e pela ornamentao, e quem 
no ouve falar com pavor de canibais, de escalpelizaes e 
infanticdios!
Por outro lado, porm, verificam-se coincidncias notveis. 
George P. Murdock, que muito se ocupou com o problema dos aspectos 
comuns, enumerou uma extensa lista de modos de comportamento e usos 
descobertos em toda a parte. Referir-nos-emos a alguns deles apenas 
para dar uma noo do muito que todos os seres humanos tm de comum.
No s existem em todos os povos e tribos vida de famlia, ritos 
de casamento e enterro, agrupamento segundo as idades, educao, jogo 
e trabalho, musica, dana e arte, como existe tambm em toda a parte, 
o que pode parecer mais surpreendente, calendrios, interpretao de 
sonhos, normas estabelecidas para o convvio, visitas e presentes 
mtuos, narrao de anedotas, diviso de trabalho, diferenas segundo 
a classe e posio social, leis, regulamentao de herana e muitas 
outras instituies.

Porm, como tambm Murdock acentua, mais importante do que a 
comparao de formas de comportamento segundo o seu contedo,  a 
comparao subordinada a pontos de vista mais fundamentais. Assim 
consideradas, parece-me haver cinco categorias imbudas de 
significado universal. So elas os factores "ordem, valores, 
integrao, tradio e mutao".
        Ch. Buhler, A Psicologia na Vida do Nosso Tempo, Fundao Gulbenkian, 1971, pp. 436-438.

        Texto 43

        ESCALAS DE VALORES

Alm de variarem quanto aos detalhes de que so compostas, as 
configuraes bioculturais, tomadas como unidades, revelam diferentes 
espcies de valores. Uma sociedade pode recompensar com prestgio e 
honras todas as manifestaes de conduta fortemente agressivas, mas 
outra pode no as ver com bons olhos e punir os agressores. A 
falecida Ruth Fulton Benedict, no seu livro "Padres de Cultura", 
escolheu, para ilustrar este ponto, certas sociedades cujas formas de 
vida reflectiam diferenas nitidamente marcadas quanto a atitudes 
bsicas. Descreveu como Apolneas as formas de cultura que 
evidenciavam grande apreo pela sobriedade e restrio e designou por 
dionisacas as que honravam o comportamento intemperado e preocupado.
 certo que algumas culturas tm um tom dominante que parece 
colorir as actividades de todos os seus participantes. Os Judeus 
ortodoxos que viviam na Europa Oriental durante o sculo XIX era 
apolneos at ao ponto de s poderem atingir as maiores honras das 
suas comunidades se fossem grandes estudiosos e se dedicassem ao 
estudo das Sagradas Escrituras e dos seus comentrios. No mesmo 
perodo da histria, muito longe da, na regio das grandes plancies 
dos Estados Unidos, os ndios Crow favoreciam modos de aco 
dionisacos e reservavam a maior admirao e as maiores recompensas 
para os guerreiros.
Desde a publicao de "Padres de Cultura", outros antroplogos 
culturais salientaram que s um punhado de sociedades cuidadosamente 
escolhidas so plenamente dominadas por um nico motivo cultural. 
Argumenta-se que, muito mais frequentemente, as formas de vida dos 
grupos revelam a influncia de modificaes mltiplas. O Professor 
Moris E. Opler sugeriu que, em vez de terem um princpio orientador, 
a maioria das culturas esto organizadas em volta de um certo nmero 
de temas inter-relacionados. Qualquer que possa ser o ponto de vista 
mais correcto,  agora plenamente reconhecido que os padres de 
cultura variveis evidenciam realmente valores quanto s formas de 
comportamento aprovado que devem ser observadas pelos membros de 
determinadas sociedades, e todo o investigador de campo  sensvel a 
quaisquer valores que paream prevalecer na cultura que est a 
estudar.
        Mischa Titiev, Introduo  Antropologia Cultural, Gulbenkian, Lisboa, 1969, pp. 93-94.

        Texto 44

        A REALIDADE DOS PADRES CULTURAIS


          Quem duvidar da realidade dos conceitos abstractos pode 
perguntar a si mesmo se os padres de cultura realmente existem. 
Pode-se mostrar que na verdade existem, mesmo que as pessoas mais 
directamente afectadas por eles no sejam conscientes da sua 
existncia. Tomemos como exemplos os hbitos alimentares americanos. 
Suponhamos que um indivduo rico, mas excntrico, decidia que 
desejava um pequeno almoo de sopa de beterraba, ostras cruas e ch 
de casca de sassafrs: em que restaurante o poderia obter? No extremo 
oposto, os americanos, que mandam vir sumos de frutas, ovos ou flocos 
de aveia, torradas e caf, podem sentir que esto a exprimir os seus 
desejos pessoais, mas os empregados do restaurante sabem que se est 
a seguir um padro. Provavelmente, os donos de restaurantes melhor 
sucedidos so os que mais completamente prevem os hbitos 
alimentares padres dos seus clientes. Que possibilidades de sucesso 
teria um dono de restaurante nos Estados Unidos que recolhesse 
provises para fazer face a desejos inesperados das pessoas que 
quisessem tomar ao pequeno almoo sopa de beterraba, ostras cruas e 
ch de sassafrs, mas que deixasse de se abastecer com sumos de 
frutos, ovos, flocos de aveia, po torrado e caf?
Os donos de armazns de todas as espcies compreendem que apesar 
de os americanos se orgulharem de serem independentes, na realidade 
seguem prticas repetitivas institucionalizadas quanto aos seus 
hbitos de comprar. Contudo, poucos so os compradores que 
compreendem que no esto a exprimir preferncias estritamente 
individuais quando compram coisas sem coaco bvia. No entanto, a 
compulso cultural  to forte que sempre que os padres de cultura 
mudam, as pessoas normalmente no tm nenhum recurso a no ser 
ajustar os seus gostos a eles. Muitas mulheres que sentem que uma 
moda que prevaleceu durante dois anos lhe ficava bem verificaram que 
 impossvel obter aquilo que sejam em loja aps loja, que s tm os 
ltimos estilos. Para tais pessoas, a realidade de um padro de 
cultura no  um assunto ocioso.
Para quem tenha de lidar com aquilo a que se chama "pblico" a 
existncia de comportamento padronizado  de um grande auxlio. no 
s os comerciantes mas tambm os agentes de polcia se encontrariam 
numa situao difcil se todos os residentes de uma cidade 
abandonassem subitamente os seus padres habituais de conduta para 
seguirem ditames puramente individuais.
A vida em sociedade seria praticamente impossvel se no fossem 
existncia de formas de comportamento regularmente padronizadas e, 
portanto, previsveis. Estas so normalmente aceites pelos indivduos 
e no funcionam sempre sem um grau de variao; mas pensemos como 
seria difcil a vida se uma pessoa nunca soubesse que formas de 
comportamento devesse esperar de um cnjuge, parente, filho ou 
vizinho. Para apreciar at que ponto, basta apenas comparar a 
segurana que um indivduo sente quando diz: "sei lidar com ele. 
Posso prever o que ele ir fazer" com o perturbado esprito da pessoa 
que  forada a dizer: "no posso fazer nada com ele. Nunca sei o que 
ele ir fazer."

Dois dos problemas mais interessantes, mais difceis, das 
cincias sociais consistem em determinar como  que os padres de 
cultura se modificam, e descobrir onde o comportamento das pessoas  
baseado na vontade individual ou motivado pelos padres de conduta 
que prevalecem na sua sociedade. Algumas vezes as formas de cultura 
variam, aparentemente como reaco contra as suas prprias foras, e 
convertem-se em ciclos sistemticos que no parecem serem inaugurados 
por qualquer pessoa identificvel. O Professor Croeber e Jane 
Richardson mostraram que os estilos de vesturio feminino variam de 
forma cclica, presumivelmente apenas em resposta a foras internas 
da cultura e sem referncia digna de nota s vontades da utentes ou 
aos caprichos dos figurinistas. Infelizmente, as implicaes deste 
tpico ainda no foram plenamente exploradas. Apesar dos mltiplos 
problemas da interpretao que esto para ser analisados, os 
investigadores de campo modernos baseiam invariavelmente os seus 
programas no princpio de que os padres de cultura existem.
        Mischa Titiev, Introduo  Antropologia Cultural, Gulbenkian, Lisboa, 1969, pp. 195-196.

        Texto 45

        NATUREZA SOCIAL DO CAMPO DE COMPORTAMENTO CONCRETO

         Importa, antes de mais nada, compreender bem que os aspectos 
sociais e culturais da situao em que se comporta, real e 
concretamente, um sujeito psicolgico no possuem o carcter 
acessrio ou complementar que permitiria, sem grande inconveniente, 
deles despojar a citada situao, a fim de conservar desta unicamente 
os constituintes fsicos ( ).
E  isso que tende a fazer a psicologia geral, devido aos seus 
laos com a cincia e a filosofia fsicas e biolgicas, e  o que 
chegam a fazer certos psiclogos sociais de extremada formao 
psicolgica.
Na realidade, o campo do comportamento concreto  inteiramente 
social e cultural. No somente numerosos comportamentos concernem a 
situaes inter-pessoais, e, a tal ttulo, o que est em jogo e que 
define o campo de comportamento concreto  todo o sistema social 
diferencial da definio das pessoas, de seus estatutos e de seus 
papis; mas tambm  verdade que o indivduo de dada sociedade s 
pode perceber e compreender o prprio universo fsico em que se 
movimenta, atravs das interpretaes desse universo que a sua 
cultura lhe oferece.

A ideia de que o ambiente fsico de um indivduo  inteiramente 
aculturado  sociedade de que participa, e de que descrever o mundo 
fsico tal como  percebido no seio de uma sociedade e como objecto 
das condutas de adaptao nessa sociedade  descrever a prpria 
cultura da sociedade -- tal ideia j Durkheim pressentiu em "Ler 
Formes lmentaires de la Vie Rligieuse (1912)", razo bastante para 
que, de direito, se mantenha seu nome entre os fundadores da 
psicologia social.
Durkheim, todavia, no extraiu de sua intuio as consequncias 
que poderiam comportar no terreno cientfico: em breve espao se 
refugiou na filosofia geral do entendimento. Para ilustrar o carcter 
social do mundo fsico em que vive um povo, voltemo-nos para o caso 
dos Yurok, que habitam o rio Klamath, na Califrnia do Norte. 
Nesse vale estreito e coberto de matas, esses ndios vivem 
essencialmente da pesca do salmo. O seu mundo  um mundo fechado, 
definido por eles mesmos como um crculo de uns duzentos quilmetros 
de dimetro, cortado em dois pelo Klamath. Contudo, esse mundo 
pequeno, circunscrito,  aberto, tem a "boca aberta" para o oceano. 
Todos os anos, se d um acontecimento prodigioso e paroxstico: em 
misteriosas condies, cardumes imensos de salmes, vindos do 
Pacfico, sobem o rio, e vm deixar-se aprisionar, aos milhares, nas 
redes dos Yurok, enquanto os que conseguem escapar continuam o seu 
caminho rumo s cabeceiras, para a desova e para a morte. Alguns 
meses mais tarde, jovens salmmes descem o rio e desaparecem no 
oceano. Os Yurok no deixaram de notar tambm que, antes de subir a 
corrente, o salmo pra de comer e, em consequncia, faz-se prender 
com o estmago vazio. Durante a ascenso pelo Klamath, desenvolvem-
se-lhes os rgos reprodutores, desaparece-lhes a gordura; assim, no 
apogeu de sua forma fsica, o salmo est em jejum e no comeou 
ainda a procriar. , por isso, sem dvida por identificao com a sua 
presa, que o Yurok, ao partir para a pesca, se purifica de todo o 
contacto sexual e se abstm de comer.
Aqui insistiremos apenas nos aspectos espaciais da cultura e da 
filosofia dos Yurok, lembrando tambm, como caractersticas 
essenciais, que a disposio geogrfica e as prprias condies de 
vida dos Yurok lhes incutem a ideia de um universo de estrutura 
tubular: o centro de seu mundo , evidentemente, o rio, onde as 
coisas se escoam e circulam sem obstculo.  indispensvel, pois, 
disporem-se todas as coisas como um canal, um tubo, aberto nas duas 
pontas para permitir as passagens. Por contrariar essa disposio, a 
estrutura do saco  m. Um barco  um saco: no se deve comer no 
barco, que isso desagrada ao rio e ao peixe. H duas espcies de 
casas, as das mulheres, com uma s abertura, como convm; e a estufa, 
casa dos homens, esta, sim, com duas aberturas, a segunda mais 
estreita, porque a obrigao  ser esbelto, no comer de mais e, 
principalmente, no obstruir a circulao dos alimentos no corpo.
A contraprova dessa interpretao temo-las na natureza das 
festas na aldeia Yurok. Sabe-se que uma das funes da festa  
renovar a fora, fazendo regressar o mundo ao caos primitivo. Essa 
festiva cura de rejuvenescimento utiliza o processo dos actos s 
avessas, do mundo ao contrrio.  exactamente o que se passa entre os 
Yurok, aps a captura dos salmes, poca da festa anual. Constroem um 
dique atravessando o Klamath, tapam o tubo, entregam-se a orgias de 
ridculo e de liberdade sexual.

Naturalmente, o mundo fsico no se prende inteiramente  
preocupao da estrutura do tubo. Assim, as direces geogrficas so 
expressas em termos diferentes, mas sempre condicionadas pelo rio: 
usam as direces seguintes: para as cabeceiras, para o foz, para o 
rio, contra o rio, e, no fim do mundo, para trs e em volta. A 
observao da percepo espacial e da geometria dos Yurok no foi 
levada mais adiante pelos etnlogos e, por isso, o que aqui expomos  
muito impressionista. Dir-se-,  ao menos, que se experimenta o 
sentimento de uma real diferena em relao com a nossa prpria 
intuio e conceptualizao de espao. Os nossos rectngulos derivam 
da nossa herana de agricultores, que percebem pensando em 
superfcies planas. Quo diferente ser viver uma geometria tubular! 
Se o campo social do comportamento  dado ao indivduo, no  no 
sentido fsico do termo, mas no sentido cultural. Acontece o mesmo 
com os outros aspectos desse campo. E  nisso que vem dar as 
explanaes da segunda parte deste livro, relativa s funes 
psicolgicas encaradas nas suas relaes sociais. O espao no  
euclidiano para os homens de todas as culturas; com melhor razo, 
aquilo que  triste, ou amedrontador, ou respeitvel, numa sociedade, 
no o ser obrigatoriamente noutra.
        J. Stoetzel, Psicologia Social, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1972, pp. 63-67.

        Texto 46

         A SOCIALIZAO

Por socializao designa-se hoje em dia a totalidade do processo 
de integrao do indivduo na vida de grupo, desenvolvido ao longo 
dos anos. A esse fenmeno da socializao dedicam os psiclogos 
sociais excepcional importncia, visto tornar-se cada vez mais 
patente que os destinos do indivduo bem como da sociedade so 
determinados de forma decisiva pelo decurso favorvel ou desfavorvel 
deste processo.
Ao referirmo-nos a um decurso favorvel ou desfavorvel, temos 
em vista uma conformao da integrao social do indivduo no grupo, 
realizada de tal modo que seja frutfera e construtiva para ambas as 
partes. Para o indivduo isto significaria poder exprimir em relativa 
liberdade a sua peculiaridade caracterstica e poder-se realizar 
segundo as suas possibilidades, em vez de se  ver obrigado a 
sujeitar-se cegamente  autoridade e a reprimir o seu prprio eu. 
Para o grupo, isso significa poder dispor de membros que se encontrem 
voluntariamente nele integrados e que, possudos de entusiasmo, 
actuem conjuntamente na realizao e amplificao dos objectivos que 
o grupo se prope.

Pela prpria natureza do fenmeno, este processo no pode 
decorrer inteiramente sem atrito.  verdade que a criana se encontra 
normalmente disposta a deixar-se dirigir e a apreender e atribuir 
valor ao facto de pertencer ao grupo; no entanto, tem, por outro 
lado, necessidades e caractersticas prprias que surgem em oposio 
aos objectivos que o grupo se prope. A questo de saber como 
solucionar esses conflitos que surgem entre o indivduo e o grupo  
um dos problemas fundamentais para todos os que se empenham num 
processo cuidadoso de socializao. De acordo com isso, concenam 
tanto um comportamento autoritrio e desprovido de compreenso por 
parte dos adultos e superiores como a impulsividade no controlada 
por parte do indivduo;  no meio termo entre estes dois extremos que 
vem a possibilidade de uma chefia e de um desenvolvimento 
psicologicamente adequado. A socializao  ento compreendida como 
um processo no decurso do qual o indivduo isolado aprende o modo de 
vida ou de pensamento da sociedade ou do grupo a que pertence, de 
forma a poder exercer funes no interior deles. Assim define 
Frederick Elkin o processo de socializao no seu pequeno livro "A 
Criana e a sociedade", cuja leitura recomendamos. O que se entende 
aqui por "modo de vida e de pensamento",  normalmente designado hoje 
em dia na literatura americana por "ways of Mankind (caminhos da 
humanidade)"  uma expresso frequentemente usada, que utilizaremos 
tambm no mesmo sentido.
        Ch. Buhler, A Psicologia na Vida do Nosso Tempo, Gulbenkian, 1971, pp. 352-353.

        Texto 47

        A ACULTURAO

por esta palavra, bastante pesada mas muito em uso, designamos 
um aspecto muito particular do contacto entre civilizaes, isto , a 
adaptao global de uma populao a uma cultura que no  
originalmente a sua. este fenmeno produz-se, nomeadamente, quando 
uma colectividade  sujeita a uma invaso, quando  submersa por 
conquistadores, ou quando  transplantada de uma regio para outra. 
um exemplo deste ltimo caso  fornecido pelos negros de frica 
importados como escravos para a Amrica onde formam comunidades que 
mantm os traos da sua cultura passada, mas que tiveram de se 
adaptar a um meio natural, e, sobretudo, a um ambiente social muito 
diferente daquele que conheceram os seus antepassados. Os etnlogos, 
para abordarem os problemas que assim se pem, usaram primeiramente 
um mtodo analtico, procurando na nova cultura resultante da 
aculturao traos emprestados s duas civilizaes em contacto. 
depois, quis-se considerar as duas culturas como totalidades que no 
se reduzem a um conjunto de elementos. Na realidade,  preciso reunir 
os dois pontos de vista e atender simultaneamente  originalidade de 
uma cultura global e ao facto de o contacto entre duas civilizaes 
isolar traos culturais particulares para os eliminar ou integrar. 
Chegou-se assim  noo de "foco cultural" e atribuiu-se importncia 
ao estudo dos processos de destruio (uma sociedade que se acultura 
noutra perde os seus modelos culturais prprios e a sua estrutura, 
para apenas conservar do passado uma poeira de relaes 
interindividuais)  e de reinterpretao (uma sociedade que se 
acultura noutra s vai buscar a esta elementos culturais quando os 
repensa, quando os modifica para que eles se insiram sem prejuzo num 
contexto anterior). R. Bastide, reconhece a utilidade destas 
pesquisas "naturalistas"; mas nota que, em definitivo, no so as 
civilizaes que esto em contacto, mas sim os homens.
        J. Cazeneuve, l'ethnologie, Larousse, 1997, pp. 296-97.


ernest Burgess relata um exemplo divertido de uma assimilao 
realizada sem atrito. por ocasio de uma sua visita a uma comunidade 
de emigrantes russos, fixada em Los Angeles, pertencente  seita do 
Malakuneno, observou que as mulheres da gerao mais velha, 
consideradas bonitas, tinham aspecto corpulento e robusto. muito 
diferente, pelo contrrio, era o grupo constitudo pelas filhas j 
nascidas na Amrica: eram esbeltas, usavam penteados  moda e make-up 
-- procuravam os seus modelos entre as estrelas de Hollywood.
por outro lado, Pauline Young, referiu-me que, por ocasio de 
uma breve visita feita a um dos casais jovens, pode observar 
precisamente os mesmos costumes na maneira de comer, de servir  
mesa, de abenoar as refeies, a mesma ideologia religiosa e as 
mesmas concepes de vida que anteriormente. Os novos grupos de 
referncia foram, portanto, aqui, aceites em parte, mas no sem 
excepo.
        Charlotte Buhler, A Psicologia na Vida do nosso tempo, Gulbenkian, Lisboa, 1971, p. 366.

        Texto 48

        O PROCESSO DE ENCULTURAO

Embora haja muitas definies de cultura, ningum duvida de que 
os conceitos culturais no podem ser transmitidos atravs de herana 
gentica, de modo que, logo desde o nascimento, cada criana tem que 
comear a aprender a cultura do seu grupo. Em qualquer estudo do 
desenvolvimento neo-natal, um antroplogo tem por isso que partir do 
princpio de que uma criana nasce com um conjunto de organismos 
biolgicos complicados, mas sem o mais leve indcio de cultura. No 
entanto, a partir do primeiro momento do nascimento, um beb comea a 
sentir o embate da cultura: na maneira como vem ao mundo; na maneira 
como o cordo umbilical  cortado e amarrado; na forma como  lavado 
e segurado; e na maneira como  enfaixado ou vestido. Um pouco mais 
tarde, uma criana recm-nascida comea a comportar-se 
bioculturalmente, e,  medida que vai crescendo, ir abandonando os 
aspectos puramente biolgicos da sua cultura e aceitando os valores 
culturais.  como se cada criana comeasse a vida ps-natal como um 
mecanismo cem por cento biolgico e depois tentasse reduzir a sua 
conduta biolgica a um hipottico ponto zero. Na realidade, portanto, 
as actividades biolgicas no podem nunca ser totalmente eliminadas 
do comportamento humano. 
Para designar o processo pelo qual as reaces individuais se 
vo ajustando cada vez mais aos padres de cultura de uma sociedade, 
o Professor Herskovitz escolheu o termo "enculturao". esta pode ser 
encarada pela forma pela qual cada sociedade adapta a organizao 
biolgica dos seus neo-natos a um conjunto de dogmas culturais 
preexistentes.

Se se admitir que as primeiras actividades de uma criana, na 
vida ps-natal, apenas podem ser biolgicas, tem de se admitir tambm 
que muitas das suas primeiras experincias no decurso do processo de 
enculturao sero restritivas ou frustrantes. Por muito que as 
sociedades e as culturas procurem satisfazer as exigncias infantis, 
no h nenhum grupo de seres humanos que abandone estantaneamente as 
suas ocupaes para alimentar uma criana ao primeiro sinal de fome, 
ou lhe permita uma liberdade muscular absolutamente ilimitada, ou lhe 
deixe, sempre, fazer as suas necessidades quando e onde quiser. Mais 
cedo ou mais tarde a criana tem de aprender a comer, a mover-se e a 
fazer as suas necessidades de acordo com um conjunto predeterminado 
de coisas consideradas prprias e imprprias, que prevalece na 
sociedade.  medida que ele aprende a conformar-se, cada beb tem 
forosamente que experimentar restries no seu comportamento 
biolgico. No h dvida de que os neo-natos diferem quanto ao grau 
em que podem tolerar as restries, mas nenhuma criana pode evitar 
completamente o desenvolvimento de alguns sentimentos de desagrado ou 
hostilidade  medida que reage  enculturao. Admite-se que uma 
criana, criada de uma maneira pouco limitada, que restrinja muito 
poucas das suas actividades, que supra s suas necessidades e permita 
que o treino relativo  higiene pessoal se processe sem vestgios de 
impacincia ou desagrado dos adultos, vir a ser um adulto bem 
adaptado. Infelizmente, H poucas provas da veracidade desta 
afirmao. Pelo contrrio, sabe-se, agora, que os homens e mulheres 
navalhos, criados numa atmosfera que a ns nos parece muito pouco 
restritiva, apresentam tantos desajustamentos de personalidade como 
os indivduos adultos noutros tipos de sociedade. Na verdade, a 
influncia do treino da infncia no carcter adulto  um ponto que 
ainda no est inteiramente esclarecido.
        Mischa Titiev, Introduo  Antropologia Cultural, Gulbenkian, 1971, pp. 272-274.

        Texto 49

        NATUREZA E ASPECTOS PSICOLGICOS DA ACULTURAO

         Da se conclui que, se se deseja estudar os indivduos 
conduzindo-se nas condies concretas que apresenta naturalmente a 
experincia, cumpre antes reconhecer que tais indivduos so 
adaptados  sua sociedade e  sua cultura: so socializados ou, 
dizendo melhor, aculturados. E se, tornando s discusses anteriores, 
se descobrir que os xitos de dado teste psicolgico diferem conforme 
as culturas de onde provm os indivduos que os conseguem, isto pode 
significar no apenas diferenas nas aptides individuais, mas tambm 
diferenas no sentido que cada cultura atribui a essas provas.
Tais consideraes levam-nos a indagar a respeito desse fenmeno 
de aculturao. Qual a sua natureza? Ser, antes de mais nada, um 
constrangimento imposto aos indivduos pela sociedade, como pensava 
Durkheim, constrangimento destinado a transformar-se mais tarde em 
interiorizao dos conceitos e dos valores? Ser um resultado de uma 
actividade espontnea do indivduo, de uma vontade de imitao, como 
sustentou Tarde? Discusses que, sem terem perdido completamente o 
interesse, cedem hoje o passo  anlise psicolgica dos processos da 
aculturao.
Um mundo que, como vimos,  antes de tudo social, no comeo 
apresenta-se ao indivduo (que  dotado de tendncias e de impulses 
para agir), como conjunto de proibies e coeres, no seu duplo 
aspecto fisiolgico e psicossocial.
Trs processos fisiolgicos interessam  aprendizagem da 
criana:


-- O metabolismo, processo de reduo do acar contido no 
sangue; A acumulao, no corpo, das matrias fecais e da urina; a 
capacidade de reagir organicamente s estimulaes ditas emocionais.

 de modo muito concreto que a criana abandonar a sua 
autonomia e aceitar a dominao cultural:

-- submetendo-se a uma periodicidade da alimentao, a 
intervalos mais longos entre as refeies (sem falar da questo do 
desmame, que pede considerao  parte);
-- Readaptando a sua eliminao para chegar a ret-la ou deix-
la funcionar voluntariamente;
-- Aprendendo quais as situaes que admitem uma reaco 
emocional e de que ordem.

Assim, o abandono da autonomia fisiolgica  j uma 
transformao do comportamento em conduta.
Existe, porm, outro aspecto das proibies, de pelo menos igual 
importncia para a futura aco do indivduo:  o que L. K. Frank 
chama de "as inviolabilidades". A inviolabilidade  uma generalizao 
da noo de tabu: em toda a sociedade ensina-se a respeitar a 
santidade da pessoa do outro, a propriedade privada, certos animais e 
certos lugares, que so o objecto de um tabu geral. Ora, ao passo que 
trs privilgios, que vo aumentando para o indivduo, pois, na sua 
primeira infncia, no se lhe respeitam nem corpo nem bens), a 
inviolabilidade comporta, principalmente, um aspecto negativo: como 
precisamente as coisas e as pessoas interditas eram estmulo para 
agir, mister se faz que o indivduo se adapte a essas proibies. L. 
K. Frank nota que a aprendizagem social indica as prticas sociais 
que permitem contorn-las: as maneiras, a polidez, os papis, os 
rituais, ou ainda, o dinheiro, o crdito, o voto. 
A aculturao, portanto, no consiste unicamente em sofrer esses 
constrangimentos paralisantes, nos quais pensava, a princpio, 
Durkheim, nem a imitar sem finalidade, como julgava Tarde: consiste 
numa adaptao social mui fortemente motivada, uma vez que o 
indivduo tem necessidades que so, no comeo, bloqueadas. Mais 
tarde, qualquer que seja o aspecto do comportamento em pauta -- 
percepo e conhecimento, afectividade, actividade --, o indivduo 
vai percebendo que os seus malogros resultam de inadaptaes sociais, 
os seus xitos de adaptaes.
A observao do desenvolvimento de uma criana mostra que, longe 
de receber as normas sempre com repugnncia, ela espera avidamente, 
muitas vezes, que lhas dem a conhecer. Logo, a educao no  sempre 
imposta de fora, pela violncia: o indivduo procura-a, solicita-a, 
existe uma adaptao social deliberada.

Mas existe tambm o que se poderia denominar uma adaptao 
social silenciosa. O sujeito no se limita a pedir expressamente aos 
que o rodeiam que o faam conhecer as normas. Num sentido, cabe dizer 
que ele imita: mas isto significa que ele observa, interpreta, para 
assimilar e reproduzir, mediante instrumentos culturais j possudos, 
a linguagem, os conceitos para pensar as percepes, as normas a que 
convm reportar-se e que so pontos de referncia. E a temos uma das 
funes dos adjectivos, a de exprimir qualidades e valores: o que  
grande para objecto de certa natureza, o que dura muito (aculturao 
s condutas de pacincia), o que  razoavelmente quente, o que  bom, 
o que  desprezvel.
Uma parte assaz pondervel da aculturao realiza-se, assim, na 
experincia da vida quotidiana, sem que o sujeito ao menos se d 
conta do facto, e, com mais forte razo, sem que nenhuma presso 
explcita seja exercida sobre ele. A questo da socializao deve, 
pois, ser considerada numa perspectiva geral biossocial, como funo 
que possui uma finalidade de adaptao.
Entretanto, no se acredite que os processos individuais de 
aculturao se desenvolvem inteiramente sem crise. O bloqueio de uma 
tendncia, num ser vivo, acarreta um estado de tenso, e, a 
princpio, redunda numa reaco normal, natural, seria lcito dizer, 
a qual  uma conduta de agresso. Bloqueada que seja a prpria 
agresso, a tenso intensifica-se; os psiquiatras chamam "ansiedade" 
a tais estados de tenso.
As proibies e coeres de ordem fisiolgica produzem 
certamente graves frustraes, embora nos importe, desde j, notar 
que a maneira de tratar as crianas a esse respeito varia muito 
conforme as sociedades. O mesmo se d na esfera do inviolvel: no 
ter acesso directo s pessoas e s coisas origina tambm estados de 
ansiedade, no apenas fortemente sentidos no momento, mas deixando 
traos durveis. E h muito mais: esses efeitos no so isolados, 
antes se integram; a aprendizagem das inviolabilidades combina-se com 
a aquisio dos modos primitivos de comportamento. A criana que, 
nessas ocasies, tenha sido violentamente frustrada, e, por isso, se 
sinta defraudada, temerosa, desconfiada, receber a aprendizagem das 
inviolabilidades, e de todas as frustraes que estas implicam, com 
atitude e esprito absolutamente diverso do de outra que, no comeo, 
tenha visto um mundo como bom e generoso.
Assim,  de esperar-se que, como efeito da aculturao, 
predomine em certas sociedades uma atitude para com a vida, feita de 
ansiedade e medo, ressentimento e hostilidade com forte tendncia 
para a vingana. 
Os traumatismos devidos  aculturao so mesmo capazes de 
provocar certos efeitos bem especficos, dos quais esboaremos aqui 
alguns exemplos a ttulo de ilustrao.

Um desses efeitos  a ulterior reaco  autoridade. Esta no  
uma entidade, mas consiste no modo pelo qual as situaes e as 
pessoas despertam respostas afectivas aprendidas. A criana no 
sentir ressentimento para com a autoridade, quando a sua experincia 
tenha sido a do contacto com adultos que amenizavam a severidade das 
privaes que impunham, que infligiam as frustraes sem violncia. 
Nesse caso, ela repelir o interdito, executar o exigido, sem 
complicar a reaco aprendida como reaco emocional. J a criana 
criada com brutalidade guardar, com respeito a toda a autoridade, o 
ressentimento agudo que teve em relao aos pais e aos adultos em 
geral. Desincumbir-se- dos mandados com hostilidade e repugnncia e 
cada aco lhe custar um conflito interior. Conforme o seu 
temperamento, aproveitar todas as ocasies para exprimir a sua 
hostilidade; ou, se muito fraca ou medrosa para lutar, ficar 
ruminando os seus agravos e tratar de livrar-se deles em actividades 
dolosas e obstrutivas, que sero fteis e incompreensveis aos olhos 
dos no psiclogos. Mas que lhe proporcionaro satisfaes 
indirectas.
No domnio do sexo, as frustraes da aprendizagem na infncia 
podem deixar profundas marcas. As tendncias so a to fortes que se 
exprimem indirectamente numa poro de rumos. Essa actividade faz-se 
acompanhar, porm, de muitas ansiedades e sentimentos de culpa. A 
procura da riqueza e do poder so, muitas vezes, simples substitutivo 
das satisfaes sexuais que no encontram realizao.  por isso que, 
particularmente na rea da actividade econmica, a conduta se afasta 
tanta vez do clculo racional e hedonista postulado pelos tericos. A 
aquisio da propriedade, a conquista de remunerao elevada, que 
certos psiclogos das escolas antigas compreendiam como satisfao de 
instintos especficos, no so mais que um smbolo para o indivduo 
frustrado, que busca na competio agressiva um prestgio que lhe 
permitir fazer-se reconhecer como poderoso.
A aculturao produz no indivduo, como vemos, efeitos complexos 
no contidos expressamente no contexto cultural.
        J. Stoetzel, Psicologia Social, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1972, pp. 67-71.

        Texto 50

        O CARCTER NACIONAL E A "PERSONALIDADE DE BASE"

         A aculturao manifesta-se, aos olhos do observador estrangeiro, 
pelo facto de que o pertencer a determinada nao imprime traos 
originais no comportamento do indivduo. Existem "caracteres 
nacionais". A nossa literatura tradicional est cheia dessa ideia, j 
encontrada em Hipcrates, abundantemente reiterada por Herdoto 
(nascido pelos 490 a.C.), lida em Vegcio (sculo IV a.C.). Lvida 
que seja, a ideia do carcter nacional no  clara. Nem todos os 
homens de uma nao mostram comportamentos idnticos: to limitada 
como  a nossa experincia dos homens, ser que no tomamos por 
diferenas nacionais aquilo que no constitui, na realidade, seno 
diferenas individuais?  o que j notava Malebranche em 1674.
Os autores modernos trataram de precisar a noo. Tentativa 
sobremaneira interessante foi a de Ruth Benedict, em 1934. 
Os traos culturais de uma sociedade, pensa a autora, referindo-
se s pequenas sociedades iletradas dos etnlogos, no so 
simplesmente justapostos: ligam-se, formam um sistema, uma 
configurao cultural, possuem um sentido que, uma vez isolado, 
definir o esprito da cultura da sociedade em que esto. Benedict 
colhe alguns exemplos: a pequena sociedade dos ndios Zui, a 
sudoeste dos Estados Unidos, cooperadora, suave, amvel, ritualista e 
cerimonial, dentro da qual o sobressair algum em alguma coisa seria 
conduta inconveniente, prova de mau gosto, impregna-se toda do 
esprito apolneo: os seus participantes, benvolos, pacficos, 
corteses, modestos, so guiados por um sentimento de medida: os 
Kwakiutl da costa ocidental do Canad, inventores do Potlatch, 
embriagados do desejo de prestgio e domnio pessoal, perdidos em 
empresas competitivas, os Dobuanos da melansia, ferozes feiticeiros, 
so impelidos por um furor dionisaco.

Ora, em que consiste esse Pattern of a Culture, esse esprito de 
uma civilizao, seno na prpria noo de carcter nacional, apoiada 
na experincia etnolgica? Com esse livro persuasivo e brilhante, 
Benedict renovou o interesse pelas pesquisas sobre o "carcter 
nacional", sugeriu um mtodo, reformulou o problema platnico das 
relaes entre as disposies da pessoa e as instituies da 
sociedade. Durante a guerra dos Estados Unidos com o Japo, devotou-
se ao problema, muito mais difcil ainda, do carcter nacional 
japons.
Mas, desde 1937, a sua colega Margaret Mead, retomando a ideia 
de que o nvel de cooperao ou de concorrncia  bom critrio do 
esprito das culturas, empreendia uma vasta investigao a respeito 
de uma dzia de sociedades desprovidas de tecnologia industrial. 
Levando a anlise scio-etnolgica at aos seus prolongamentos 
psicolgicos, chegou a demonstrar quanto se pretende a inspirao 
cooperativa ou competitiva de uma sociedade aos valores do eu e da 
segurana pessoal.
Pretendendo a teoria de Kardiner, conhecida em francs sob o 
nome de Personnalit de base, renovar a noo de "carcter nacional", 
 oportuno enquadr-la no contexto histrico agora evocado.
Os elementos principais que constituem a personalidade de base 
so quatro:
1) as tcnicas de pensamento, isto , a maneira pela qual o 
indivduo pensa a realidade e pode agir sobre ela;
2) os sistemas de segurana, que consistem nas defesas 
institucionalizadas s quais recorre o indivduo para resistir s 
ansiedades trazidas pelas frustraes da realidade fsica e social;
3) o super ego, cujo sentido no se deve cingir ao da 
psicanlise clssica, mas que repousa no desejo de gozar da estima e 
amizade de outrem;
4) as atitudes religiosas, noo que no demanda aqui nenhum 
comentrio particular.
Esses quatro elementos da personalidade de base guardam relao 
com as instituies: produzidos por certas instituies denominadas 
"instituies primrias", por sua vez produzem outras, as 
"instituies secundrias".
Infelizmente, Kardiner nunca se mostra bastante ntido nem 
definitivo quanto ao exacto contedo da distino entre instituies 
primrias e secundrias; nem mesmo, foroso  dizer, entre elementos 
da personalidade de base e instituies.
Contudo, na procura da definio da personalidade de base em 
cada caso particular, tenta-se, inicialmente ao menos, abrangendo a 
cultura em que esto na sua totalidade -- isto , em discernir casos 
individuais nem possveis estatutos --, descobrir o tipo de 
personalidade julgado apto a sentir-se  vontade nessa cultura, a 
encontrar nela o mnimo de frustraes e o mximo de satisfaes.

Um exemplo vir ilustrar a teoria de Kardiner: o das Ilhas 
Marquesas, possesses francesas do pacfico sul, visitadas em 1920-
1922 por Linton, que as descreve retrospectivamente no seu livro. As 
condies de vida nessas ilhas so dominadas por dois grandes factos: 
o risco de carestias, causadas por terrveis secas, que chegam a 
destruir at um tero da populao, e o predomnio excepcional e 
considervel do nmero de homens sobre o de mulheres (a sex ratio  
de 2,5).
Assim, dois grandes dados sociais merecem imediato registo: os 
marquesanos praticam a antropofagia e a famlia  polindrica.
A respeito da antropofagia no h razo para que nos alonguemos, 
seno para dizer que as expedies antropofgicas so misso dos 
homens, que as crianas sabem a que se arriscam quando se afastam, e 
que a religio comporta sacrifcios humanos.
Na famlia polindrica h um marido principal, auxiliado, nas 
suas tarefas econmicas, pelos maridos secundrios. O pai verdadeiro 
de uma criana , em geral, conhecido, mas a qualidade no lhe 
outorga prestgio nem autoridade especial. Os homens a quem cabe a 
responsabilidade econmica  que gozam, porm, de influncia e de 
honras.
As mulheres que tm a iniciativa nas matrias sexuais, so 
completamente desprovidas de poder social, desdenhosamente postas de 
lado pelo homem, detestadas. Nos mitos, atribuem-lhes os papis maus.
A vida comea mal: ao nascer, a criana  banhada num regato 
gelado,  desmamada muito cedo, e, depois, alimentada a caldos, que a 
me lhe despeja pela goela sem pingo de ateno: a criana que engula 
o que puder. Criada pelos maridos da me, praticamente faz o que 
quer: O controlo da eliminao  tardio e jamais severo. A liberdade 
sexual, completa.  parte o temor de ser devorada, a infncia, de 
rduo incio, at que prossegue agradavelmente.
A religio oferece duas espcies de deuses: os grandes deuses, 
desprovidos de importncia, e os deuses, de origem humana, espritos 
dos chefes mortos, que so muito activos e poderosos. Quando um homem 
 atingido por uma enfermidade, por se ter a sua alma afastado do 
corpo, fazem-na voltar, oferecendo-lhe alimento.
Essas condies materiais e sociais, cuja descrio, 
naturalmente, aqui simplificamos, causam efeitos psicolgicos muito 
visveis. Assim, os assuntos do sexo despertam escassa emoo e o 
amor reduz-se ao exerccio de uma funo natural.  tida como anormal 
a ideia romntica do amor. Coisa rara o ciume, que torna ridculo o 
ciumento; quando surge, no deriva seno de desejos sexuais 
contrariados, jamais do orgulho ferido. As noes de virilidade e de 
impotncia so desconhecidas. E a ningum lembraria exaltar a 
paternidade. Dentro da famlia, nenhum complexo de dipo, a 
manifestar-se no filho: nem este deseja unir-se  me, nem esta tem 
pelo filho afeio especial, sendo simplesmente a mulher com que ele 
manter mais tarde relaes hostis. O filho tambm no almeja matar o 
pai, ou melhor: o grupo de pais, que no lhe impem disciplina alguma 
e perante os quais a sua dependncia  racional, no neurtica, 
acrescendo ainda que ficar precocemente independente. 

Tais condies familiares -- ausncia de ternura maternal, 
multiplicidade paterna,  inexistncia de presses disciplinares -- 
redundam, no domnio religioso, na absoluta falta de ideia de um 
deus, a quem  preciso agradar e a quem se pode agradar pelo 
arrependimento, pelo sofrimento. Neste ponto ainda, o conceito deles 
 sobre modo racionalista: se um deus no lhes atende ao pedido,  
simplesmente porque no pode; e, assim como na famlia o filho se 
dirigia a outro pai, o postulante se dirigir a outro deus. A nica 
verdadeira ansiedade gira em torno da alimentao, teremos que comer? 
Evitaremos ser comidos?
Visto isso,  possvel traar o retrato da personalidade de base 
do marquesano: 
-- As "tcnicas do pensamento" caracterizam-se pelas 
preocupaes alimentares, pela "dominao oral":  levando-a  boca 
que uma criancinha se assenhoreia de um objecto;  pela boca que se 
reaprisiona a alma fugitiva de um doente; um sacerdote prova os seus 
poderes jejuando longo tempo;
-- Os "sistemas de segurana" divergem muito dos do ocidente: 
no h ansiedade sexual, nem temor da impotncia, nem exaltao da 
paternidade;
-- A propriedade tambm no causa ansiedades:  simplesmente 
fonte de prestgio para um doador (pois o rico pode e deve fazer 
doaes);
-- A ansiedade reside essencialmente na esfera alimentar;
-- A solidariedade dos homens e sua hostilidade em relao s 
mulheres resolvem os precalos oriundos da escassez destas, e 
susceptveis de ameaar a paz e o bem-estar econmico; 
-- o super ego no , como no ocidente, a disciplina 
interiorizada, a conscincia moral; as restries fisiolgicas, 
sobretudo sexuais, inexistem: o super ego consiste mormente na 
procura da estima e amizade dos outros, na necessidade de no ficar 
desmoralizado; exprime-se particularmente pela ausncia de cime 
entre os homens;
-- Quanto s "atitudes religiosas", concentram-se nos deuses 
humanos, cuja funo  assegurar o alimento; para auxili-los a 
exerc-la, deve dar-se-lhes de comer.
Tal , de modo conciso, a ideia que se pode fazer da 
personalidade de base. Nada tem que ver com as caractersticas da 
personalidade individual, muito menos com o conceito de pesoa. Em 
compensao,  importante o seu papel na interpretao da aculturao 
do indivduo.
        J. Stoetzel, Psicologia Social, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1972, PP 71-77.

        Texto 51

        SOCIEDADE E PERSONALIDADE

Por muito pouca experincia que se tenha de sociedades 
diferentes daquela a que se pertence, no se pode duvidar de que as 
normas de personalidade variam com as sociedades. De resto, o 
indivduo at tem mais tendncia para exagerar do que para minimizar 
estas variaes. A nica questo que se pode pr sobre isto  se 
convm pensar que uma determinada sociedade admita uma s norma de 
personalidade ou, pelo contrrio, uma srie de normas diferentes, de 
que cada uma estaria associada a um grupo que possuiria um estatuto 
particular na sociedade.

Verificar-se- sempre que os membros de uma sociedade tm de 
comum grande nmero de elementos de personalidade. O grau de 
especificidade destes elementos pode ser muito varivel, indo de 
simples respostas explcitas, como a maneira de estar  mesa, a 
atitudes mais generalizadas. As respostas deste ltimo gnero podem 
servir de fundamento no indivduo a um grande nmero de respostas 
mais especficas. Da mesma maneira, os sistemas valor-atitude, que 
so partilhados pelos membros da sociedade considerada, podem 
traduzir-se em vrias formas de comportamento explcito associado a 
um estatuto. Assim, os homens e as mulheres de uma sociedade podem 
ter a mesma atitude relativamente ao pudor feminino ou  coragem 
masculina, mas o comportamento ligado a estas atitudes  diferente 
entre os dois sexos. As atitudes comuns relativamente ao pudor 
exprimem-se, entre as mulheres, pela maneira de se vestir, de se 
conduzir, ligada a modelos particulares; entre os homens, por 
respostas generalizadas de aprovao ou reprovao relativamente ao 
vesturio ou s condutas das mulheres. Estes elementos de 
personalidade formam, em conjunto, uma configurao bem integrada, 
que se pode chamar a "personalidade de base" da sociedade global. A 
existncia desta configurao dota os membros da sociedade de 
maneiras de compreender e de valores comuns e permite-lhes responder 
afectivamente de modo idntico s situaes que esto de acordo com 
os seus valores comuns.
Pode-se tambm verificar que existem em todas as sociedades 
configuraes de respostas que esto ligadas a certos grupos 
especialmente delimitados no seio da sociedade:  assim que 
configuraes diferentes caracterizam quase sempre os homens e as 
mulheres, os adolescentes e o adulto, etc. Numa sociedade 
hierarquizada podem verificar-se diferenas semelhantes nas respostas 
caractersticas dos indivduos pertencentes a nveis sociais 
diferentes. Estas configuraes de respostas ligadas ao estatuto 
podem chamar-se "personalidades estatutrias". Representam um papel 
extremamente importante no bom funcionamento da sociedade, permitindo 
aos seus membros agir com sucesso uns em relao aos outros, 
baseando-se apenas no papel indicado pelo seu estatuto. Assim, mesmo 
quando se trata de relaes entre duas pessoas totalmente estranhas 
uma  outra, basta que cada uma conhea a posio social da outra 
para poder prever como ela reagir  maior parte das situaes.
        R. Linton, Le Fondment Culturel de la Personnalit, Dunod, 1959, pp. 114-116.

        Texto 52

        PERSONALIDADE E HBITOS INFANTIS

         Abraham considera que os hbitos relativos ao aleitamento do 
beb levam a dois tipos de personalidades distintas, o optimista oral 
e o pessimista oral. Quando a amamentao da criana  agradvel e 
calma, da resulta um optimismo imperturbvel que pode levar  
indiferena sem quaisquer preocupaes e  inaco. Tais indivduos 
esperam que se preocuparo com eles, que o leite materno "correr 
incessantemente". Aqueles que tiveram um perodo de aleitamento pouco 
satisfatrio so pessimistas, visto que lhes foi recusada qualquer 
satisfao desde os primeiros tempos da sua existncia. Isto pode 
levar a uma atitude que exija constantemente qualquer coisa dos 
outros, a uma tendncia para ser dependente.

Uma observao de Mead permite a aplicao deste conceito a 
diferentes colectividades. No seu estudo das diferenas de 
temperamento entre trs comunidades melansias constatou que o 
temperamento dos Arapesh lembrava o tipo do optimismo oral enquanto o 
dos Mundugunor se assemelhava ao do pessimismo oral. Nos primeiros, 
as crianas eram alimentadas frequente e abundantemente e as suas 
mes acariciavam-nas os amamentavam. Os Arapesh adultos eram 
indivduos amigveis e cooperativos. As mes Mundugunor, pelo 
contrrio, alimentam os seus filhos de m vontade, dando-lhes o peito 
pouco tempo; em adultos, os Mundugunor so pessoas to hostis e pouco 
amigveis quanto possvel.
        Otto Klineberg, Psychologie Social, Vol II, pp 408, P.U.F., Paris, 1957.

        Texto 53

        A ACULTURAO E Os Desvios

Evidentemente, a aculturao no torna todos os indivduos 
idnticos.
Evocando uma distino j estabelecida por Linton em 1936, 
diremos que, ao lado dos traos universais de comportamentos, 
presentes em princpio em todos os indivduos membros de determinada 
sociedade, existem traos especiais, correspondentes a diversas 
situaes e estatutos (comportamentos femininos, comportamentos 
juvenis, comportamentos de guerreiros), e traos optativos pelos 
quais se exprimiro as individualidades. Esse conjunto determina o 
vasto campo de condutas, dentro do qual, mantidas as variaes 
individuais aqum de certa margem, a maioria se comporta de modo 
compatvel com as exigncias da cultura da sociedade.
No deixam, porm, de surgir em toda a parte variaes 
individuais que passam alm da linha admitida pela cultura como 
fronteira do "normal". Aqueles que transpem tal barreira so 
"desviados sociais". Restringir-nos-emos a breves notas sobre o 
assunto.
As condutas desviadas que, por um lado, podemos encarar como 
anti-sociais ou a-sociais, conformam-se, todavia, ao modelo cultural, 
pelo contedo, por exemplo.
 o que leva um esquizofrnico a julgar-se Napoleo.
As formas dos desvios variam com as sociedades, alinhando-se, em 
cada uma, dentro de um quadro determinado, caracterstico da mesma 
sociedade. No dizer de Linton, quem conhea bem uma cultura, predir 
quase matematicamente a forma que assumiro as histerias. Eis a lista 
das psicoses apresentadas por esse autor, que parecem absolutamente 
naturais nas culturas onde se manifestam:

-- o witigo, canibalismo dos Chippewa, do Canad;
-- O Koro, ansiedade de castrao, entre malaios e outros; 
e diversas neuroses no menos originais:
-- A histeria rctica e o Latah do Sueste da sia, imitao 
involuntria de outrem;
-- o amok, loucura criminosa da Malsia;
-- O tromba, possesso violenta entre os Tanala de Madagscar.


As sociedades conhecem oficialmente a existncia desses desvios, 
do-lhes nomes, reservam-lhes status  parte. Lembre-se o "doido da 
aldeia" da nossa sociedade; e o exemplo tpico do Berdach dos 
Comanches, homem-mulher, bem longe de receber completo desprezo. 
Repare-se na importncia da ltima observao para uma teoria 
sociolgica da aculturao: as sociedades esforam-se para fazer 
entrar no sistema social mesmo os indivduos a elas estranhos.
        J. Stoetzel, Psicologia Social, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1972, pp 77-78.

        Texto 54

         I -- O Estatuto e o Papel

As anlises precedentes no puderam evitar a meno s noes de 
estatuto e papel. Convm apresent-las directamente.
Quando se comparam os comportamentos de indivduos pertencentes 
a culturas diversas, v-se que diferem; introduz-se, ento, segundo o 
ngulo escolhido, a noo de costumes ou a de estrutura pessoal 
fundamental. Na terminologia de Linton, esses traos de comportamento 
so universais.
Mas, desde que se penetre numa sociedade, observa-se uma 
diferenciao nos comportamentos, correspondentes a funes sociais 
diferentes e a lugares sociais determinados. Tomando-se como centro 
de observao o indivduo, vemos que o lugar que ele ocupa determina-
lhe o estatuto e o papel: o seu estatuto vem a ser o conjunto dos 
comportamentos com que, legitimamente, pode contar, da parte dos 
outros; o seu papel, o conjunto dos comportamentos com que, 
legitimamente, os outros contam, da parte dele.
Na prtica, a distino fica muitas vezes esquecida: do-se  
palavra estatuto empregos que abrangem, simultaneamente, o sentido 
estrito da palavra estatuto e da palavra papel.
Muitos estatutos so complementares: assim marido-mulher, 
doente-mdico, comprador-vendedor, chefe-subordinado. O sistema 
social , no fundo, um sistema de estatutos: o facto de funcionarem e 
substiturem as sociedades, obriga a supor que, no conjunto, os 
diversos estatutos so compatveis.
Prosseguindo na anlise, nota-se que se impe certas 
discriminaes na noo de estatuto. Cada qual possui grande nmero 
de estatutos que coexistem: so os estatutos particulares. Mas h 
tambm, na sociedade, uma posio de conjunto; e, quando se fala do 
estatuto de algum,  desse estatuto total ou global que se fala. 
Distinga-se, alm disso, entre o estatuto prescrito, dado ao 
indivduo, que dele no sair, por mais que faa (sexo ou idade, por 
exemplo), e os estatutos adquiridos, aos quais, em maior ou menor 
proporo, conforme a sociedade, poder o indivduo ter acesso, por 
engenho ou por sorte. Por ltimo, recordar-se-o os leitores que, 
para os marginais, existem nas sociedades estatutos "anormais".
A noo de estatuto tem origem na Etnologia e na Sociologia. No 
 menos importante para a psicologia social, porque o indivduo, sob 
as reservas a serem assinaladas, se identifica com o seu estatuto, 
que se torna, assim, elemento da autoconscincia. E, a considerar 
objectivamente as coisas, o estatuto associa-se, de mais de um modo, 
s caractersticas individuais.

 o que Cattell, em obra precedentemente citada, se esforou por 
mostrar, reunindo um conjunto de dados. Tanto nas suas prprias 
pesquisas como na literatura psicolgica, esse autor descobriu 
diversas associaes entre as aptides e o estatuto:  o caso da 
inteligncia, da estabilidade emocional, da "honestidade", como a 
estudam Hartshorne e May.
A esta ltima questo, outros autores tm trazido confirmao e 
generalizao: o desenvolvimento moral  superior nas classes 
superiores. O estudo aprofundado de Francis mostra que o que importa 
aqui no so as condies objectivadas do meio (lar superpovoado, 
anti-higinico, fealdade do ambiente na infncia), mas as atitudes 
dos pais, relativas  sade, aos problemas sexuais,  escolha dos 
companheiros de brinquedos, s actividades da comunidade.
Outra associao  a das atitudes e interesses com o estatuto. 
Desde os primeiros estudos sobre atitudes, nos laboratrios 
universitrios, e, muito mais ainda, nas sondagens de opinio 
pblica, verificou-se que, no conjunto, as opinies variam 
consideravelmente conforme o estatuto. No nos apressemos em ver a 
uma relao causal simples. J em 1936, Stagner salientava que as 
atitudes "fascistas" se associam tanto a um nvel econmico baixo 
como a um nvel econmico elevado, ao passo que as atitudes liberais 
so mais comuns num nvel mdio.
Outro autor, Kornhauser, depois de um exame dos resultados dos 
inquritos de opinio, declara pura fico o determinismo simples e 
automtico das opinies sociais segundo factos econmicos;  
principalmente a desadaptao social, muito pessoal, muito mais que o 
nvel econmico, que provoca as atitudes de oposio.
Entretanto, continua verdadeira a assero de que o estatuto 
inferior se associa de preferncia aos interesses mais combativos e 
agressivos. H mais: no nvel superior, encontram-se menos 
preconceitos presentes de um modo qualquer, isto , no integrados na 
personalidade do sujeito.
Por ltimo, Cattell, encarece as relaes entre o estatuto e as 
doenas mentais, assunto que se acha mais minuciosamente exarado no 
trabalho extremamente cuidadoso de Hollingshead e Redlich: parece 
existir uma relao inversa entre o nvel scio-econmico e a 
frequncia de doenas mentais: as psicoses, em especial, manifestar-
se-iam mais comummente na camada inferior do nveo mdio do que no 
nvel superior.
        J. Stoetzel, Psicologia Social, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 
1972, pp. 205-208.

        Texto 55

        I -- O Estatuto e o Papel  

         Se bem que a noo da funo, e em menor grau a de estatuto 
tenha uma longa histria no campo das cincia s sociais, a sua 
utilizao sistemtica para descrio e anlise das relaes 
interpessoais data dos trabalhos de Linton.

O comportamento recproco de dois indivduos pode ser previsto, 
em parte, se conhecermos, por um lado, os processos interpsicolgicos 
que se desenvolvem durante esse encontro e, por outro lado, a 
personalidade de cada interlocutor. O contedo e a forma da 
comunicao dependero, porm, e em maior grau, das funes e dos 
estatutos desses indivduos, se sabemos, por exemplo, que se trata de 
uma troca entre um comprador e um vendedor ou entre um mdico e um 
doente. As noes de estatuto e de papel constituem o aspecto 
institucional das relaes interpessoais. De certo modo, eles 
constituem a ligao que une cultura e personalidade.

1 O estatuto. -- O estatuto de uma pessoa "define-se pelo 
conjunto dos comportamentos acerca dela mesma que ela pode, 
legitimamente, esperar por parte dos outros" (Stoetzel), ou, de outro 
ponto de vista, "o local que o indivduo ocupa num sistema 
particular, num dado momento, ser chamado seu estatuto em relao a 
esse sistema" (Linton). Na medida em que o lugar do indivduo e os 
comportamentos a seu respeito podem ser hierarquizados em termos de 
valores, o estatuto refere-se ao valor do prestgio da sua posio.
2 O Papel. -- Consiste "no conjunto de comportamentos que so, 
legitimamente, esperados de uma pessoa pelos outros" (Stoetzel); ele 
designa "um conjunto de modelos culturais associados a um estatuto 
particular. Compreende, pois, as atitudes, os valores e os 
comportamentos consignados pela sociedade a todo aquele que ocupa 
esse estatuto. Naquilo que representa o comportamento evidente, o 
papel  o aspecto dinmico do estatuto, o que o o indivduo deve 
fazer para confirmar o seu direito a esse estatuto" (Linton). Um 
sentido, intimamente ligado ao anterior, o papel  o mtodo para se 
identificar a um modelo ou para a pessoa encobrir a sua 
personalidade. Diz-se, ento, que o indivduo "representa um papel".
3 Relaes entre o estatuto e o papel. -- O papel e o estatuto 
de duas pessoas da mesma sociedade sero complementares e recprocos. 
Cada uma delas adoptar em relao ao outro um comportamento (isto , 
assumir a atribuio que o seu interlocutor espera, isto , que 
corresponde ao seu estatuto). Uma sociedade  feita de um sistema 
complexo de papis e estatutos o que constitui um sistema social.  
na medida em que os indivduos se conformam ao papel que deles se 
espera que a sociedade mantm a sua estrutura. Esse conjunto, porm, 
em perptua renovao, nunca  um sistema perfeito e, alm disso, 
certos indivduos no respeitam os estatutos de outros membros do 
grupo e no se comportam segundo o seu papel. So b esse ponto de 
vista, eles so considerados inadaptados sociais.

        Classificao e Determinao dos Estatutos e dos Estatutos

1 O papel e a interaco social. -- O exerccio de um papel 
praticamente nunca  isolado. A cada funo corresponde um contra 
papel de um parceiro. Assim, os papis se definem num quadro de 
interaces sociais. Praticamente, podemos distinguir o caso das  
relaes interpessoais de duas pessoas face a face e o de grupos que 
compreendem mais de duas pessoas.


a) ao nvel das relaes interpessoais de dois indivduos. --  
possvel encarar, esquematicamente, os pares com interaces e 
participao afectiva directa (como o par marido-mulher, me-filho, 
mdico-doente), os que tm uma funo que exclui toda a participao 
afectiva, onde no h, pois, interaco verdadeira (papel "impessoal" 
ou de "marionnete social") enfim, os que correspondem a indivduos 
que tm interaces com mais de uma pessoa, mas em momentos 
diferentes, no influenciando essas interaces umas s outras (papel 
de "mensageiro" dos indivduos que servem de intermedirios entre 
vrias pessoas).
a_) ao nvel das relaes interpessoais nos grupos de mais de 
duas pessoas, os papis diversificam-se segundo:

a) o nvel de complexidade do mesmo papel. -- o nvel mais baixo 
corresponde ao papel de membro do grupo.  necessrio sublinhar que o 
papel do indivduo como membro do grupo  relativo s relaes que 
tm entre si os interlocutores, o papel , pois, diferente do que ele 
assume quando  elemento de um par. Uma criana ter certo 
comportamento em face de sua me, outro comportamento em face do seu 
Professor (papel nas relaes interpessoais), mas igualmente um 
comportamento diferente se se encontra em presena de sua me e de eu 
professor reunidos, (papel em um grupo). Um nvel de complexidade 
diferente  representado pelo papel de observador, no qual o 
indivduo participa no grupo, mas se esfora para limitar as suas 
interaces com os outros membros. Em um nvel superior situam-se os 
papis cujo elemento essencial  o de favorecer as interaces entre 
os membros do grupo, o que se chama, frequentemente, "relaes 
humanas". O nvel mais elevado de complexidade corresponde ao papel 
do chefe do grupo (Leadership). Existem transies entre o papel de 
observador e o que consiste em favorecer as relaes entre membros do 
grupo, bem como entre este ltimo e o chefe. 
b) o papel dos atributos. -- Os papeis diferem pela funo que 
exercem no mundo social e correspondem  diviso do trabalho entre os 
membros da sociedade. Podem ser classificados em certo nmero de 
grandes categorias. Os papeis familiares, que tm a finalidade de 
assegurar a tranquilidade do grupo familiar, a sua continuao por 
intermdio dos filhos. O papel de audincia tem como fim principal de 
manter a organizao da sociedade e as comunicaes no interior 
desta. Corresponde s actividades educativas, religiosas, polticas, 
artsticas e literrias. Os papis de trabalho relacionados com as 
actividades econmicas de fabricao e distribuio. Enquanto que nas 
culturas primitivas os papis familiares e os de trabalho so 
idnticos, nas sociedades complexas eles so completamente distintos. 
Pode considerar-se, ainda, os papis "fraternais" organizados em 
termos de motivaes particulares dos membros dos grupos: muitas 
actividades de tempo livre so organizadas dessa maneira (associaes 
desportivas, culturais, etc.) e os papis de servio  comunidade, 
diferentes dos papeis familiares e de trabalho. As actividades 
filantrpicas e polticas so realizadas, em parte, neste ltimo 
quadro.

c) O valor cultural do papel. -- O significado de um papel 
social social est ligado  sua complexidade,  sua funo na 
sociedade, mas igualmente aos valores culturais que lhe so ligados e 
que dependem da natureza da cultura. As sociedades atribuem a certos 
papis um valor cultural e um poder social superior ao que  inerente 
ao prprio papel. De um modo geral, os papis sociais que 
correspondem  manuteno das regras do grupo so respeitados. Esse 
respeito , habitualmente, reforado por rituais (cerimnias, 
costumes) que visam a sublinhar a significao desses papis para a 
manuteno da estrutura tradicional do grupo.
2 O papel e a personalidade. -- O papel  o elo que une cultura 
e personalidade. Liga-se  cultura na medida em que se conforma aos 
modelos de papis estabelecidos por esta. Chama-se modelos aos tipos 
de comportamentos, de pensamentos e de sentimentos comuns numa 
sociedade ou num dado grupo, transmitidos pela educao e 
influenciando inconscientemente as condutas sociais. Os modelos dizem 
respeito s aces (por exemplo, a composio e o ritmo das 
refeies), ao campo intelectual (os modos de explicao prprios de 
cada cultura) e  afectividade (assim, o amor corts, o amor 
romntico correspondem a culturas diferentes). Existe, porm, em cada 
caso individual certa deslocao entre o modelo do papel e a conduta 
concreta. Cada indivduo deve assumir vrios papis correspondentes 
aos seus diferentes estatutos. A personalidade exprime-se, assim, 
atravs de uma pluralidade de papis que constituem para cada 
indivduo um sistema mais ou menos integrado e harmnico. Existem, em 
certos casos, conflitos de papis ("conflitos de deveres" da 
psicologia clssica). A personalidade representar um papel essencial 
na escolha dos papis e na integrao dos papis mltiplos que o 
indivduo assume, mas, inversamente, cada um desses papis deixar a 
sua marca sobre a personalidade.
3 Percepo dos papis. -- O papel assumido actualiza-se nas 
condutas concretas do indivduo. O papel depender do modo pelo qual 
o indivduo percebe o papel dos seus parceiros sociais e pelo qual 
ele se situa a seu respeito. Um aspecto particular desse fenmeno  a 
expectativa do papel. Quando vamos encontrar outra pessoa de quem 
conhecemos o estatuto esperamos que ela se comporte de certa maneira. 
Quando existe alguma discordncia entre o papel esperado e o 
percebido, isto , quando o parceiro no se conduz como se previa, 
isso produz uma dificuldade na adaptao nas relaes interpessoais.
Sob outra perspectiva, a percepo correcta dos papis dos 
outros e da sua evoluo contribui para o desenvolvimento 
satisfatrio das relaes interpessoais. A rigidez na conservao do 
prprio papel e a percepo dos papis dos outros andam, geralmente, 
juntos.
4 Os factores de escolha da funo.

a) Os factores individuais. -- A escolha do ou dos papis 
assumidos por um indivduo depende de suas caractersticas pessoais. 
1. A idade. -- Em toda a sociedade, as funes e os estatutos 
so, em parte, decorrncia da idade, porque se espera um 
comportamento diferente de um indivduo nas diversas fases do seu 
desenvolvimento. Existem, nesse campo, diferentes consideraes entre 
culturas, sublinhadas pelos antroplogos culturalistas. Problemas 
particulares so apresentados pela infncia e a adolescncia, de um 
lado, e a velhice de outro.

Na infncia e na adolescncia existe, na nossa cultura, uma 
incerteza quanto ao estatuto e ao papel. Pois so fixados pelos 
adultos, dos quais dependem as crianas, mas o indivduo tambm deve 
tomar em considerao as normas sociais fixadas pelos seus prprios 
contemporneos, "a cultura dos seus parentes". Existem, 
frequentemente, contradies entre os dois sistemas, visto que na 
nossa sociedade no h obteno automtica de certos privilgios em 
idades fixas. O adolescente  incerto no seu estatuto, ele deve lutar 
para obter o estatuto de adulto. Em numerosas culturas primitivas, ao 
contrrio, existem ritos de passagem e a finalidade  marcar 
nitidamente a data da passagem e eliminar as ambiguidades na 
conscincia que o indivduo pode ter do seu papel e do seu estatuto. 
O papel e o estatuto do velho, na nossa sociedade, apresentam 
igualmente problemas difceis e so fontes de conflitos. A velhice 
acompanha-se, em geral, de uma baixa do estatuto que corresponde  
diminuio da qualidade do papel social representado (e que encontra 
a sua expresso, por exemplo, na diferena entre o montante da 
reforma e o montante para os assalariados). Essa baixa do estatuto e 
essa interdio de assumir certos papis so, frequentemente, 
sentidas com dificuldades e representam, com frequncia, na 
inadaptao social do indivduo idoso, um papel mais importante que a 
diminuio das aptides biolgicas;
2) O sexo. -- O papel e o estatuto destinados aos homens e s 
mulheres variam de sociedade para sociedade. Na nossa cultura existe 
uma tendncia para diminuir a rigidez desse factor e autorizar a 
mulher a assumir papis considerados outrora como unicamente 
masculinos. Essa evoluo apresenta problemas difceis de adaptao, 
na medida que a mulher  levada a conciliar os papis e os estatutos 
de uma antiga estrutura cultural e os outros papis que correspondem 
 nova estrutura (por exemplo, o conflito entre o papel tradicional 
de "dona de casa" e o papel moderno de "trabalho" fora de casa, ou 
entre o estatuto tradicional que se expressava nas condutas de 
"galanteio" e o estatuto moderno que implica a competio);
3) as caractersticas psicolgicas: intelectuais e afectivas 
contribuem para a seleco dos papis na medida em que elas limitam 
as possibilidades de escolha;

b) Os factores sociais. -- Um dos factores que determina a 
escolha dos papis e dos estatutos numa sociedade  constitudo pela 
dependncia ao grupo social no qual o indivduo nasceu e no qual ele 
foi educado. Entre as variveis que exercem uma influncia, a 
localizao geogrfica, o estatuto econmico e educacional da 
famlia, h o carcter tnico, as atitudes religiosas do meio 
contribuem para modelar os papis e os estatutos do indivduo. A 
importncia desses factores varia segundo a cultura. Nas sociedades 
que comportam uma mobilidade social relativamente grande, eles so 
menos determinantes do que nas sociedades estveis. Contudo, o 
indivduo tem a tendncia a identificar-se ao grupo no qual nasceu e 
no qual foi educado, persistindo essa influncia, pelo menos 
parcialmente, durante a sua existncia.
        J. Delay-P. Pichot, Manual de Psicologia, Masson, Guanabara, Koogan, pp. 317-321.

        Texto 56

        ESTATUTOS E PAPIS

O funcionamento das sociedades depende da presena de modelos de 
comportamento recproco entre os indivduos ou entre os grupos de 
indivduos. Nestes modelos os plos opostos chamam-se estatutos. Este 
termo, como o termo cultura, tem sido utilizado em dupla acepo. Um 
estatuto em abstracto  uma posio particular num modelo particular. 
 correcto dizer que cada indivduo possui vrios estatutos, pois que 
cada indivduo depende de muitos modelos. Contudo, se no for dada 
nenhuma indicao, o estatuto de um indivduo representa a totalidade 
dos seus estatutos e representa a sua posio em relao  sociedade 
global. Ele no  seno uma coleco de direito e de deveres, no 
podendo estes exprimir-se seno por intermdio do indivduo,  
difcil manter uma distino entre os estatutos e os indivduos que 
os detm e que assumem os direitos e deveres constitutivos deste 
estatuto.
O papel representa o aspecto dinmico do estatuto. Um indivduo 
 socialmente fixado a um estatuto, ele prprio ligado a outros 
estatutos. Quando pe em aco os direitos e os deveres que 
constituem o estatuto, realiza um papel. O papel e o estatuto so 
perfeitamente inseparveis e distingui-los no tem mais que um 
interesse terico. No h papel sem estatuto, nem estatuto sem papel. 
Como o termo "estatuto", o de "papel"  utilizado numa dupla acepo. 
Cada indivduo possui uma srie de papis decorrentes dos modelos 
diferentes dos quais depende; tem ao mesmo tempo, um papel geral, que 
representa a totalidade dos seus papis e que determina o que ele faz 
em favor da sua sociedade e o que ele pode esperar da parte dessa 
sociedade. O estatuto e o papel traduzem os modelos ideais que regem 
a vida social em termos individuais. Tornam-se, assim, guias prprios 
para organizar as atitudes e os comportamentos do indivduo de 
maneira que possam ser compatveis com aqueles dos outros indivduos 
que participam da aplicao do mesmo modelo. Os seres humanos so to 
maleveis que praticamente todo o indivduo normal pode cumprir 
adequadamente qualquer papel.
        Ralph Linton, De l'Homme, d. Minuit, 1968.

        Texto 57

        O conceito de papel

O conceito de papel social  considerado por muitos peritos como 
um dos mais importantes conceitos fundamentais existentes no campo da 
psicologia social. Introduzido primeiramente na cincia por G. H. 
Mead, foi entretanto aplicado em muitas direces: Hoje em dia  
sobretudo utilizado por Talkott Parson, que sistematicamente o toma 
por base da investigao da aco social e da estruturao de grupos. 
Em que consiste, porm, esse papel? Os muitos socilogos e psiclogos 
sociais que empregam o conceito definem-no de muito algo diverso.
Sargent e Williamson apresentaram na sua psicologia social uma 
boa viso geral dos mltiplos aspectos que este importante conceito 
pode investir. Provm, como  evidente, do teatro. O actor representa 
um papel. Por um lado -lhe atribuda determinada tarefa -- ele tem 
de representar algo --, por outro, ele toma incumbncia desse papel 
provido de uma determinada aptido.

Alguns socilogos, como Parsons e outros, definem primeiramente 
o papel social do indivduo a partir do grupo. No concurso social 
cabe a cada indivduo um papel -- um sector de comportamento 
organizado dentro do fenmeno social. A partir da sociedade este 
sector encontra-se mais ou menos fixo na direco de determinados 
deveres, bem como de determinados direitos. Por outras palavras: para 
os papis de filho, pais, de marido, de mulher, existem, por exemplo, 
dentro das famlias, determinadas regras que na verdade variam nas 
diferentes culturas e nos diversos grupos sociais, mas que, 
normalmente, so conhecidas dos participantes ou lhes so dadas a 
conhecer.
Ao contrrio dos socilogos, os psiclogos sociais afirmam que o 
papel tem tambm que ser considerado a partir do indivduo. O 
indivduo vai mais ou menos ao encontro do seu papel social imbudo 
de determinadas qualidades sociais. O papel de filho obediente pode 
convir mais a um e menos a outro. Pode haver algum nascido para o 
papel de chefe dentro de um crculo de amigos antes de ter sido 
nomeado como tal. 
Tomemos como exemplo o caso de Alfred, a quem j por diversas 
vezes nos referimos.
Alfred tinha uma me severa, que atribua grande valor  
obedincia e ao bom comportamento. Alfred que j aos 4 anos de idade 
no gostava de dar satisfaes, representava em casa o papel de 
menino modelo. Esforava-se por ser perfeito no seu comportamento e 
era extremamente dcil.
Sociologicamente falando, Alfred representava perante a me o 
papel de filho. Representava-o, para usarmos a expresso de Goffman, 
no "estilo" de um menino modelo. Em relao aos seus amigos, o papel 
sociolgico de Alfred era o de camarada de jogos. Representava-o 
nesses primeiros tempos de infncia no "estilo" de chefe. Encontrava-
se apto a assumir esse papel declarado de chefe, visto lhe ocorrerem 
muito boas ideias e as outras crianas gostarem que ele lhes fizesse 
sugestes de jogos. Tanto bastou que assumisse o papel de chefe, de 
espcie ainda no formal, como  caracterstica do grupo nessa idade. 
Se os seus atributos continuaro a afirmar-se do mesmo modo numa 
idade mais tardia, quando os chefes passam a ser escolhidos pelos 
grupos,  problema que pertence ao futuro. 
De certo modo, os dois papis representados por Alfred opem-se, 
visto ele ser submisso nas suas relaes com a me e superior nas 
suas relaes com os amigos (mais precisamente, foi-o pelo menos em 
certo aspecto e em determinado perodo do seu desenvolvimento).  
digno de nota como j uma criana de 4 anos consegue representar 
deste modo dois papis e distingui-los um do outro.
Em cada um destes papis a criana , por assim dizer, uma 
pessoa diferente. Ela realiza uma escolha entre os modos de 
comportamento que se encontram  sua disposio e organiza-os com 
vista a determinados objectivos que procura alcanar nas diversas 
relaes sociais. Num caso, tendo em vista o elogio da me, no outro, 
o reconhecimento por parte dos amigos. Em cada um destes papis a 
criana opera j num sistema de referncia diferente. Os dois papis 
no se encontram em conflito, como  primeira vista poderia parecer. 
Porque, de facto, encontram-se ambos estabelecidos de modo a ser 
possvel alcanar uma distino social ou um estatuto elevado.

Noutros casos, porm, d-se um desequilbrio interior, a saber, 
quando os papis que o indivduo representa o colocam em conflito 
consigo prprio. 
Stephan  um rapaz de 16 anos que nas suas relaes com a me 
pretende que ela o amime e lhe tire muitas das sobrecargas que a vida 
comporta.
Fora de casa, porm, Stephan leva uma vida de grande 
independncia; com efeito, to dotado de jeito para os negcios como 
para a vida, ele tem uma ocupao de "empresrio": tem a sua 
responsabilidade a venda de algumas revistas por conta de uma firma 
que lhe permitiu trabalhar secundado por uma srie de rapazes mais 
novos, que ele prprio contratou e mantm sob a sua chefia. Assim, 
ele representa, por um lado o papel de beb, por outro, o de patro, 
e essa situao provoca-lhe um grande conflito interior.
Esse conflito  em parte consequncia de um facto existente na 
nossa cultura e que Ruth Benedict, num artigo muitas vezes citado, 
denominou "descontinuidade". Quer ela dizer que habituamos frequentes 
vezes os nossos filhos a papis que eles mais tarde tero de 
remodelar na totalidade.
Assim, tratamo-los durante anos como demasiado novos, demasiado 
inexperientes, como incapazes de proceder de modo independente em 
determinada situao; e depois, esperamos um dia, de repente, que o 
adulto assuma grandes responsabilidades. Ruth Benedict mostrou como, 
ao contrrio das relaes existentes entre ns, se verifica uma 
continuidade noutras culturas, por exemplo, entre os ndios da 
Amrica do norte: a partir de muito cedo as crianas so acostumadas 
a assumir responsabilidades crescentes. 
No caso de Willi a descontinuidade  ainda aumentada pelo facto 
de a me -- que se sente orgulhosa por o seu filho fazer de adulto e 
manifestar uma habilidade precoce para os negcios -- admitir que ele 
em casa represente o papel de beb amimado, desprovido de qualquer 
responsabilidade.
Com acentua Irwin Child, no nos encontramos ainda na posse de 
um padro, aferido cientificamente, que permita saber o que se deve 
esperar normalmente de um indivduo nas diferentes idades e nas 
diversas situaes. 
Mas, segundo parece, uma criana em crescimento dentro da 
sociedade deve aprender duas tarefas sociais: primeiro, que na vida 
social existem diferentes papis que em parte se podem escolher, mas 
em parte so atribudos a cada qual; e segundo, que, nos diversos 
grupos, existem muitas vezes exigncias completamente diferentes no 
que respeita ao papel a escolher ou a desempenhar. Com isto passamos 
a referir-nos ao significado fundamental dos valores sociais.
        Charlotte Buhler, A Psicologia na Vida do Nosso Tempo, Fundao Calouste Gulbenkian, 1971, pp. 359-361.

        Texto 58

        PERSONALIDADE E SEXO


Vimos que os arapesh -- homens e mulheres -- exibiam uma 
personalidade que, fora de nossas preocupaes histricas limitadas, 
chamaramos de paternal em seus aspectos parentais e feminino em seus 
aspectos sexuais. Encontramos homens, assim como mulheres, treinados 
a ser cooperativos, no agressivos, susceptveis s necessidades e 
exigncias alheias. No achamos ideia de que o sexo fosse uma 
poderosa fora motriz, quer para os homens, quer para as mulheres. Em 
acentuado contraste com tais atitudes, verificamos, no meio dos 
Mundugumor, que homens e mulheres se desenvolviam como indivduos 
implacveis, agressivos e positivamente sexuados, com um mnimo de 
aspectos carinhosos e maternais em sua personalidade. Homens e 
mulheres aproximavam-se bastante de um tipo de personalidade que, na 
nossa cultura, s iramos encontrar num homem indisciplinado e 
extremamente violento. Nem os Arapesh nem os Mundugumor tiram 
proveito de um contraste entre os sexos; O ideal Arapesh  o do homem 
dcil e susceptvel, casado com uma mulher dcil e susceptvel; o 
ideal Mundugumor  um homem violento e agressivo, casado com uma 
mulher tambm violenta e agressiva. Na terceira tribo, os Tchambuli, 
deparamos verdadeira inverso das atitudes sexuais da nossa prpria 
cultura, sendo a mulher o parceiro dirigente, dominador e impessoal, 
e o homem a pessoa menos responsvel e emocionalmente dependente. 
Estas trs situaes sugerem, portanto, uma concluso muito definida. 
Se aquelas atitudes temperamentais que tradicionalmente reputamos 
femininas --- tais como a passividade, susceptibilidade e disposio 
de acalentar crianas -- podem to facilmente ser erigidas como 
padro masculino de uma tribo, e na outra serem prescritas para a 
maioria das mulheres, assim como para a maioria dos homens, no nos 
resta mais a menor base para considerar tais aspectos de 
comportamento como ligados ao sexo. E esta concluso torna-se ainda 
mais forte quando observamos a verdadeira inverso, entre os 
Tchambuli, da posio de dominncia dos dois sexos, a despeito da 
existncia de instituies patrilineares formais.

O material sugere a possibilidade de afirmar que muitos, seno 
todos, traos de personalidade que chamamos de masculinos ou 
femininos apresentam-se ligeiramente vinculados ao sexo quanto s 
vestimentas, s maneiras e  forma do penteado que uma sociedade, em 
determinados perodos, atribui a um ou a outro sexo. Quando 
ponderamos o comportamento do tpico homem ou mulher Arapesh em 
contraste com o do tpico homem ou mulher Mundugumor, a evidncia  
esmagadoramente a favor da fora do condicionamento social. De nenhum 
outro modo podemos dar conta da uniformidade quase completa com que 
as crianas Arapesh se transformam em pessoas satisfeitas, passivas, 
seguras, enquanto as crianas Mundugumor se convertem 
caracteristicamente em pessoas violentas, agressivas e inseguras. S 
ao impacto do todo da cultura integrada sobre a criana em 
crescimento podemos atribuir a formao dos tipos contrastantes. No 
h outra explicao de raa, dieta ou seleco que possamos aduzir 
para esclarec-la. Somos forados a concluir que a natureza humana  
quase incrivelmente malevel, respondendo acurada e diferentemente a 
condies culturais contrastantes, as diferenas entre indivduos que 
so membros de diferentes culturas, a exemplo das diferenas entre 
indivduos dentro da mesma cultura, devem ser atribudas quase 
inteiramente s diferenas de condicionamento, em particular durante 
a primeira infncia, e a forma deste condicionamento  culturalmente 
determinada. As padronizadas diferenas de personalidade entre os 
sexos so desta ordem, criaes culturais s quais cada gerao, 
masculina e feminina,  treinada a conformar-se. Persiste entretanto 
o problema da origem dessas diferenas socialmente padronizadas.
        M. Mead, Sexo e Temperamento, Perspectiva, S. Paulo, pp. 267-269.

        Texto 59

        PERSONALIDADE, SOCIEDADE E SEXO

         Sentimo-nos autorizados a afirmar que os traos de carcter que 
classificamos de masculinos ou de femininos so em grande nmero, 
seno na sua totalidade, determinados pelo sexo de maneira to 
superficial, como so as vestes, as maneiras ou os penteados que uma 
poca fixa a um ou a outro sexo. Quando opomos um ao outro o 
comportamento tpico do homem e da mulher Arapesh ao no menos tpico 
do homem e da mulher Mundugumor, um e outro parecem com toda a 
evidncia ser o resultado de um condicionamento social. Como explicar 
de outro modo que as crianas Arapesh se tornem quase uniformemente 
adultos sossegados, passivos e confiantes, enquanto os jovens 
Mundugumor de maneira to ntida se transformam em seres violentos, 
agressivos e inquietos? S a sociedade, carregando com todo o seu 
peso sobre a criana, pode ser o artfice de tais contrastes. No 
pode haver outra explicao, ainda mesmo que se invoque a raa, a 
alimentao ou a seleco natural. Somos obrigados a admitir que a 
natureza humana  eminentemente malevel, obedece fielmente aos 
impulsos que o corpo social lhe comunica. Se dois indivduos, 
pertencendo cada um a uma civilizao diferente, no so semelhantes 
(e o raciocnio aplica-se tambm a membros de uma mesma sociedade),  
sobretudo porque foram condicionados de maneira diferente, 
particularmente no decurso dos primeiros anos: ora  a sociedade que 
decide da natureza deste condicionamento. A formao da personalidade 
dos sexos no escapa a esta regra:  o resultado de uma sociedade que 
vela por que cada gerao masculina ou feminina se sujeite ao tipo 
que ela lhe impe.

O que faz de uma criana nascida entre os Arapesh um Arapesh 
tpico  a natureza social, e, se h excepes, tm de ser examinadas 
sob este ngulo. Certas sociedades tm tido o tempo e o vigor 
necessrios para refundir o conjunto as suas instituies a fim de as 
adaptar a um tipo de temperamento extremo e instaurar os mtodos de 
educao susceptveis de assegurar a sua perpetuao. Outros seguem 
uma via menos vincada, tomando como modelo no os indivduos mais 
diferenciados, mas, pelo contrrio, os menos marcados. Meditando 
sobre a documentao cada vez mais rica recolhida sobre os costumes 
dos povos primitivos, o antroplogo compenetrou-se do papel 
fundamental que sobre o indivduo exerce o meio social em que nasceu 
e foi educado. Um a um, os aspectos do comportamento que 
habitualmente considervamos como fazendo invariavelmente parte da 
natureza humana revelaram-se como simplesmente resultantes do meio. 
Verificava-se a sua existncia num pas e a sua ausncia noutro, 
embora os habitantes fossem da mesma raa. Nem a raa nem a 
constituio do homem bastam para explicar a multiplicidade das 
formas que assumem em condies sociais diferentes emoes 
fundamentais, como o amor, o temor, a clera. O antroplogo chegou s 
mesmas concluses que chegou o behaviorista que estuda a criana no 
modelada pelo seu meio. Debruando-se igualmente sobre o problema da 
adolescncia, pareceu-lhe que certos comportamentos do adolescente 
dependem do meio social (revolta contra a autoridade, dvidas 
religiosas, idealismo, luta e conflito), embora houvesse quem 
quisesse consider-los uma caracterstica de uma certa fase do seu 
desenvolvimento fsico. Ele conhecia o determinismo da civilizao, a 
plasticidade do ser humano.   adolescncia como adolescncia ou  
adolescncia na Amrica que se devem atribuir essas dificuldades=? 
Pergunta ele.
        M. Mead, Meurs et Sexualit em Ocanie, Plon, 1963.

        Texto 60

        Comportamento Pessoal e Estatuto

Todos esses estudos vo revelando a presena de correlaes, sem 
lhes procurar o significado. Traos, atitudes, desadaptaes, no so 
apenas caractersticas individuais: so tambm expresses pessoais. O 
estatuto no se anexa simplesmente  pessoa:  pensado por ela, faz 
parte da autoconscincia dela.
Sublinhemos, a princpio, que o estatuto exerce, para o 
indivduo a quem se liga, funes bem definidas, oferecendo-lhe um 
ponto de ancoragem, um quadro de referncia, uma norma. E isso, 
primeiro nas suas condies formais: o estatuto tem linhas claras, 
exprime-se de maneira convergente nas incontveis circunstncias em 
que nos achamos perante os outros; possui, mormente, duas 
propriedades que nenhuma outra fonte de normas apresenta no mesmo 
grau: d-se como legtimo, autntico; e pertence-nos como coisa 
prpria,  nosso.
Ao mesmo tempo, o estatuto comporta um contedo, o que tambm  
digno de ponderao: determina com preciso o comportamento de cada 
um na vida social, os comportamentos alheios a seu respeito, o que se 
espera dele e o que ele deve esperar dos outros. A moral, a educao, 
o direito, que tm como as instituies normativas essenciais, na 
verdade s prescrevem em linhas gerais, sempre subentendendo 
ajustamentos particulares; j o estatuto exprime com exactido, 
individualmente, os direitos e os deveres; outorga ao indivduo a 
definio social dele mesmo.
Por conseguinte, o estatuto contribui para fornecer a um 
indivduo um sentimento de segurana pessoal. E convm reparar que 
essa noo de segurana no est na dependncia exclusiva da 
qualidade agradvel ou desagradvel das impresses que o ambiente por 
acaso nos oferea; mas, sim, funda-se primordialmente no carcter 
estvel e previsvel das experincias que faremos no mundo. O 
estatuto  um sistema protector exactamente dessa natureza: define os 
comportamentos que sero acolhidos com aprovao pelos circunstantes, 
bem como as reaces destes a esperar e aceitar com satisfao. O 
estatuto  que permite a cada um caminhar confiantemente pela vida 
fora.

Aprofundando a anlise daquilo que o estatuto representa para a 
pessoa, lembremos que se incorpora  autoconscincia, que  a auto-
estima. A noo de estatuto contm, sem dvida, a ideia de uma 
hierarquia. Isso  evidente no campo econmico, ao qual alguns 
autores, como vimos, tendem a reduzir o estatuto; mas tambm  
verdadeiro nos outros campos, como o familiar, o religioso, o 
poltico, o intelectual. H, pois, estatutos inferiores, 
subordinados, e estatutos superiores, dominantes. Seria o caso de 
pensar que os superiores exaltam a auto-estima, enquanto os 
inferiores a diminuem ou oprimem. Coisa possvel de acontecer, 
conforme as circunstncias e as atitudes assumidas pelo indivduo em 
relao ao seu estatuto.
Contudo, cumpriria mostrar que essa depreciao do valor da 
pessoa nada tem com a natureza do estatuto, o qual, em si mesmo, 
abrange valores positivos. A personalidade possui, como j 
observmos, um valor positivo para indivduo, porque este est preso 
a valores, porque estes valores so dele: portador de valores e 
agente de valores, o indivduo adquire valor a seus prprios olhos.
Torna-se possvel precisar sobre o lugar desses valores: residem 
no estatuto. O estatuto, centro das atitudes, produz os valores para 
o indivduo; o meio que o cerca reconhece neste os mencionados 
valores, respeita-os, tratando-os em conformidade. Anlise assaz 
abstracta,  verdade. Mas poderemos ilustr-la imediatamente. No 
existe ofcio tolo, dizem, com efeito, toda a posio social abrange 
valores positivos. As posies sociais que o direito, a moral, a 
opinio dos outros grupos, talvez considerem inferiores, possuem a 
sua honra, o seu valor. Um criminoso pode guardar, a seu modo, o 
respeito por si mesmo, ser um verdadeiro criminoso, e nisso se 
cifrar o seu orgulho. 
Os experimentadores puseram em evidncia a influncia do 
estatuto sobre esse aspecto da autoconscincia, que  o nvel de 
aspirao. Cada indivduo, nas experincias realizadas com grupos, 
tende a identificar-se com o seu grupo, adoptando como norma sua o 
resultado mdio do grupo, e, destarte, definindo o seu estatuto. 
Acontece, ento, que os sujeitos que (por superior habilidade ou por 
se desincumbirem de tarefas mais fceis) conseguem desempenhos 
superiores, passam a assinalar, para si prprios, nveis de 
realizao inferiores s suas reais possibilidades, ando-se o 
contrrio com os menos bons. 
Nas experincias, em que os sujeitos podem comparar, real ou 
ilusoriamente, os resultados de seu grupo com os de outros grupos, o 
nvel e a aspirao no sofre menor influncia: eleva-se se o sujeito 
v um maior sucesso no grupo externo de estatuto inferior (assim os 
estudantes de universidade que se comparam a alunos do curso 
secundrio); baixa, se o outro grupo  tido por ele como de estatuto 
superior (como os estudantes de cor que se comparar a estudantes 
brancos).
Para diz-lo em termos simples, o nvel das tarefas que uma 
pessoa se atribui, ou, se quiserem, a altura de sua ambio depende 
da ideia que ela faz de si mesma, ideia inspirada em grande parte no 
seu estatuto, tal como o v. A medida desse estatuto  fornecida pela 
que se revela normal no seu grupo ou pela comparao, estimulante ou 
desmoralizante, com as realizaes dos grupos reconhecidos pelo 
sujeito como inferiores ou superiores ao seu.
As coisas so assim pelo menos para aqueles que aceitam a sua 
posio na sociedade, para aqueles que esto em paz com o seu 
estatuto. Formam a maioria dos submetidos a pesquisas, segundo 
sugerem as concluses obtidas.

Mas a situao no  universal. Um exame das relaes entre 
comportamento pessoal e estatuto deveria incluir uma referncia aos 
casos em que o estatuto do indivduo lhe apresenta problemas.  o que 
acontece na adolescncia, momento da "entrada na vida", quando o 
estatuto da infncia no mais basta para definir a pessoa e o 
estatuto do adulto ainda no  aceitvel, nem pela roda nem, amide, 
pelo prprio sujeito.  o caso do "homem marginal", preso entre 
compromisso contraditrios, sucessivamente aceite e rejeitado pelos 
grupos a que se liga, e cujo tipo  o imigrante, e a adolescncia, um 
episdio particular. , por fim, o caso dos indivduos que repelem 
seu estatuto e pretendem pr em discusso no s a sua posio 
pessoal como a organizao social em geral, produtora e reguladora 
dos estatutos. Torna-se claro, como demonstrou Hyman, empiricamente, 
que o os comportamentos de revolta social, as atitudes 
revolucionantes no se associam, como se imaginaria, especialmente a 
um particular estatuto econmico, mas a uma determinada posio do 
indivduo perante seu estatuto pessoal.
        J. Stoetzel, psicologia social, companhia editora nacional, S. Paulo, 1972, pp. 208-211.

        Texto 61

        Atitudes e Crenas

         Se o leitor se detiver a analisar o seu comportamento social, 
descobrir que as suas atitudes desempenham um papel muitssimo 
importante pela influncia que tm sobre ele. A sua atitude para com 
a religio determinar provavelmente o que faz ao domingo pela manh. 
A sua atitude para com os membros do sexo oposto afectar, at certo 
ponto, a escolha da pessoa e da altura em que vai casar, se o fizer. 
A sua atitude para com a funo do Governo influenciar o seu 
comportamento poltico. A sua atitude relativamente  psicologia, que 
provavelmente se tem cristalizado at agora, determinar se far 
cursos complementares sobre o tema e se vir a consider-lo como 
possvel carreira.
No  preciso juntar mais exemplos a estes, embora pudssemos 
prosseguir indefinidamente. A nossa tarefa agora  compreender a 
psicologia das atitudes. Isto requer primeiro uma definio do termo 
"atitude" e em segundo lugar uma descrio do mtodo bsico usado 
pelos psiclogos e socilogos para medir as atitudes.
O termo "atitude" aplica-se a uma predisposio no indivduo 
para responder de um modo caracterstico a determinado estmulo do 
seu meio social. Fundamentalmente, uma atitude  uma tendncia para 
se comportar positiva ou negativamente em relao a um indcio social 
qualquer: uma instituio, uma pessoa, uma situao, uma ideia ou um 
conceito. Por exemplo, o conceito de medicina socializada desperta 
tendncia de resposta diferentes, que vo da do ultraconservador, que 
quase espuma pela boca quando  mencionado porque o v como outro 
sinal do crescente controle do Governo sobre a iniciativa privada, 
at  do socialista fogoso, que abraa energicamente o conceito 
porque cr que ele deve ser um elemento da futura utopia que est a 
antecipar e na qual o Governo olha por todos ns.

Esta definio de atitude como predisposio a responder 
esclarece vrios problemas. Se a atitude  uma tendncia para 
responder, como pode ela diferir de outras tendncias de resposta 
tais como as criadas durante o condicionamento? A resposta  que elas 
so semelhantes. Consideremos um exemplo de condicionamento de medo. 
Uma criana mordida por um co passar a ter medo de ces. Os 
psiclogos dizem que ela mostra uma tendncia de resposta a temer os 
ces. Ou, por outras palavras, ela formou uma atitude negativa para 
com os ces.  claro que os conceitos de tendncia de resposta e de 
atitude so semelhantes. Eles diferem na medida em que uma "tendncia 
de resposta"  um termo mais geral que se refere a uma predisposio 
para reagir de determinada maneira. A atitude  uma predisposio 
especial para executar um acto social caracterizada por proposies 
como estas:
"sou contra a pena de morte" ou "sou a favor da eliminao dos 
destacamentos limitares".
Uma maneira de conceptualizar uma atitude  consider-la uma 
concluso tirada de combinao de uma crena com um valor (Jones e 
Gerard, 1967). Consideremos as sries seguintes de proposies 
expressas em forma silogstica:

        Crena:
Todos os Hippies so socialmente irresponsveis.
Todos os ndios americanos so preguiosos.

        Valor:
A irresponsabilidade social  m.
A preguia  m.

        Atitude:
Logo, todos os Hipies so maus.
Logo, todos os ndios americanos so maus.

A crena  uma proposio que informa a respeito da relao 
entre dois conceitos independentes. "Hippies" e "irresponsabilidade 
social" so conceitos distintos, sendo Hippies definidos como um modo 
de vida e responsabilidade social como um juzo acerca das 
consequncias para a sociedade do comportamento individual. Que os 
dois conceitos so independentes  testemunhado pelo facto de os 
Hippies serem considerados por alguns como socialmente responsveis, 
porque recusam intrometer-se na sociedade cuja tica e convenes 
rejeitam. Valor  a reaco emotiva da pessoa a um conceito 
particular, tal como a "irresponsabilidade social" e a "preguia". A 
atitude  a concluso tirada da crena e do juzo de valor postos em 
relao. Segundo esta anlise, so duas as componentes principais de 
uma atitude: cognitiva, proveniente da crena da pessoa de que os 
dois conceitos esto relacionados; e afectiva, proveniente do juzo 
de valor, que representa as reaces positivas ou negativas da pessoa 
a um conceito.

Se ns conhecermos a atitude de uma pessoa numa situao 
particular estaremos em posio de fazer conjecturas informais a 
respeito de como ela se comportar. Mas no podemos estar seguros de 
que a nossa posio seja correcta porque uma predisposio singular 
nem sempre , de forma nenhuma, a nica varivel que determina o 
comportamento manifesto. Uma pessoa que cr que os negros devem gozar 
de iguais direitos pode, no obstante, negar-lhes esses direitos para 
evitar atritos com as convenes do seu grupo social. E como ns 
sabemos, as atitudes e as outras disposies podem entrar em conflito 
umas com as outras. Nas eleies podemos preferir um partido e no 
gostar do candidato inscrito na respectiva lista. Ora, como aconteceu 
na eleio presidencial de 1960, muitas pessoas que acreditavam que 
Kennedy viesse a ser melhor presidente votaram em Nixon, porque 
tinham atitudes negativas para com a Igreja Catlica.
A disperso das atitudes ser disposta em termos de quatro reas 
de problemas relacionados: Medida das atitudes, formao das 
atitudes, organizao das atitudes e crenas e mudanas das atitudes. 
A literatura relativa a estas reas  to vasta que s podemos tocar 
nalguns dos factos e idias principais.

        A formao das Atitudes

As atitudes possuem caractersticas semelhantes s das respostas 
condicionadas clssicas e instrumentais. Quando Pavlov ensinou o co 
a salivar ao som modificou a "atitude" do co para com o som de 
neutra para positiva. O condicionamento clssico pode ser 
representado como um silogismo que combina uma crena e um valor para 
formar uma atitude:

O alimento segue-se ao som.
O alimento  bom.
Logo, o som  bom.

Associando uma srie de palavras agradveis ou desagradveis a 
um indcio neutro, tal como uma slaba sem sentido,  possvel 
ensinar um estudante universitrio a criar uma atitude positiva ou 
negativa para com a slaba sem sentido. Foi usado um processo de 
condicionamento clssico parecido para modificar as atitudes para com 
as nacionalidades transferindo para a nacionalidade o valor de uma 
srie de palavras agradveis ou desagradveis. Uma nacionalidade (por 
exemplo, sueca), foi sempre apresentada com palavras com conotaes 
agradveis, tais como "alegre" e "bom". Outra nacionalidade (por 
exemplo, francesa) foi associada a palavras desagradveis tais como 
"feio" e "amargo". No termo da experincia pedia-se aos sujeitos que 
avaliassem os seus sentimentos positivos ou negativos para com as 
nacionalidades numa escala de sete pontos. Os resultados indicaram 
que as atitudes para com as nacionalidades eram influenciadas no 
sentido negativo ou positivo, segundo as palavras associadas  
nacionalidade.
         As expresses verbais das atitudes possuem algumas das 
propriedades fundamentais das respostas instrumentais. O rapazinho 
que papagueia as atitudes polticas expressas em casa ter mais 
probabilidades de ser reforado pelos pais do que a criana que 
exprime opinies contrrias s deles. No surpreender, portanto, 
ningum que os estudos destinados a investigar as atitudes mostrem 
invariavelmente alguma semelhana entre as atitudes polticas dos 
pais e de seus filhos. De acordo com as as leis da aprendizagem, ns 
esperamos que as respostas reforadas sejam aprendidas, quer elas 
sejam actos de presso da barra, quer em expresses de atitudes.

 certo que as atitudes no so adquiridas exactamente como a 
resposta condicionada o  nos laboratrios, onde se observam mudanas 
numa resposta simples isolada experimentalmente como sendo funo da 
prtica.  mais frequente que uma atitude seja adquirida em 
consequncia de um grande nmero de experincias numa grande 
variedade de situaes que implicam o contacto directo com o objecto 
da atitude (por exemplo, os negros, os brancos) e/ou interaco 
social com as outras pessoas que exprimem as atitudes, crenas ou 
valores relevantes relativamente a esse objecto.
Uma atitude pode formar-se gradualmente ao longo dos anos por 
acumulao de respostas individuais que se integram. Por exemplo, uma 
rapariga podia formar pouco a pouco uma atitude tolerante para com os 
membros dos grupos minoritrios em consequncia de experincias 
numerosas. Quando muito pequena podia ter tido uma companheira de 
jogo judia, ainda que ento ela tenha tido s uma vaga conscincia do 
que  um Judeu. Mais tarde podia ter ouvido sermes numa Igreja, os 
quais expunham a tolerncia religiosa e racial. Ela podia tambm ter 
aprendido durante uma conversao familiar ao jantar que os pais, que 
ela admira, se opem ao fanatismo. Todas estas experincias e muitas 
mais coalescem, finalmente, em atitudes claramente definidas contra a 
intolerncia religiosa e racial.
Embora muitas atitudes possam ser adquiridas gradualmente no 
deve passar despercebida a enorme importncia de uma experincia 
singular. O facto de um rapaz branco ser sovado por um bando negro, 
ou vice-versa, pode dar-lhe origem a um forte preconceito racial 
difcil de desenraizar. Ou ento uma criana desejosa de imitar o pai 
ou qualquer outra pessoa pode aceitar uma atitude absolutamente falha 
de originalidade para com o partido poltico ou um problema racial.
Nenhuma compreensiva foi apresentada para descrever as 
principais classes de variveis relevantes na formao das atitudes. 
Discutiremos brevemente trs grupos de factores que foram objecto de 
maior ateno por parte dos psiclogos sociais. Tais so: motivao e 
reforamento, personalidade e meio social. Estas variveis no podem 
ser investigadas isoladamente porque so bastante interdependentes. 
Os motivos das pessoas, as suas necessidades e incentivos, so uma 
parte integrante da sua personalidade. Esta, por sua vez, determina 
quais os meios sociais que ela procura, quais os grupos a que 
pertence. A pertinncia ao grupo modificar, por sua vez, os seus 
motivos. Na discusso destas sries de variveis limitar-nos-emos, 
portanto, a reportar experincias que lanam luz sobre a sua 
influncia de preferncia a mostrar como eles sozinhos determinam a 
formao das atitudes.

        Motivao e reforamento


Embora algumas pessoas gostem de acreditar que as suas atitudes 
so formadas puramente por juzos intelectuais, o facto  que os 
motivos pessoais desempenham um papel importante na sua formao. 
Quando foram analisadas as atitudes dos estudantes universitrios 
relativas  permisso de os membros do partido comunista falarem em 
pblico, verificou-se que elas estavam relacionadas com as crenas 
dos estudantes acerca do valor que a liberdade de expresso tinha 
para eles na consecuo dos seus prprios fins. As pessoas adoptam 
atitudes que lhes possam ser teis na prossecuo das suas 
finalidades pessoais e rejeitam as que possam frustrar a consecuo 
dos seus incentivos. O reforamento e a antecipao do reforamento 
so, como se pode ver, variveis importantes na formao das 
atitudes.
As atitudes podem ser um meio de deslocar a agresso resultante 
da frustrao. Entre sujeitos cujas atitudes para com os Judeus 
estavam relacionadas com o grau de satisfao que eles experimentavam 
no respeitante  sua situao econmica e  situao nacional, foi 
descoberto que quanto maior  o grau de insatisfao pessoal maior  
a dose de hostilidade. Vemos, pois, como uma atitude pode funcionar 
como acto instrumental que refora a agresso.

        Personalidade

         As atitudes tendem a ajuntar-se s personalidades dos indivduos 
que as adoptam. ~Um estudo (Smith, Bruner e White, 1956) mostrou que 
as pessoas que tendiam a culpar os outros quando as coisas iam mal, 
com mais probabilidades culpariam a Unio Sovitica de deteriorar as 
relaes sovitico-americanas. O autor lembra-se de um paciente 
paranico que cultivava fortes atitudes negativas para com a 
democracia unidas a enorme admirao por ditadores como Hitler e 
Mussolini. Esta atitude autoritria era a expresso das dificuldades 
da sua personalidade. Depois que a sua situao psiquitrica 
melhorou, as atitudes polticas sofreram uma mudana completa. Ele 
passou a ter mais simpatia para com os processos e chefes 
democrticos como Roosevelt.
Alguns estudos (titus e Hollander, 1957) tentaram mostrar um 
ligame entre a estrutura da personalidade e aquilo que  designado 
"etnocentrismo", uma atitude de extrema lealdade ao prprio grupo 
social com rejeio de outros grupos sociais. As pessoas 
etnocntricas, como se pode imaginar, mostram normalmente 
intolerncia racial e religiosa. Embora os resultados de todos os 
estudos no sejam inteiramente concordes, existe certa indicao de 
que as pessoas com fortes preconceitos tm caractersticas de 
personalidade um tanto diferentes das pessoas sem preconceitos. A 
pessoa etnocntrica  caracterizada por uma tendncia a ser mais 
autoritria (ditatorial, rgida, inibida, excessivamente conformista) 
e hostil que a mdia (Adorno, Frenkel-brunswik, Levinson e Sanford, 
1950). Seria erro, contudo, crer que toda a intolerncia  
simplesmente expresso de profundas dificuldades de personalidade. O 
meio social de uma pessoa desempenha um papel importante nela.

        O Meio Social


Quando foram estudados os preconceitos raciais na frica do Sul 
(Pettigrew, 1958) descobriu-se que a pertinncia do indivduo a um 
grupo era factor extremamente importante na determinao da sua 
atitude. Os estudantes sul-africanos que mostraram acentuado 
preconceito contra a populao nativa negra no eram mais 
autoritrios do que os estudantes universitrios dos Estados Unidos 
com menos preconceitos. E os brancos naturais da frica do Sul, que 
no eram mais autoritrios do que os branco que tinham emigrado para 
a frica do Sul, cultivavam mais preconceitos para com os africanos 
negros. A influncia sobre o preconceito racial do particular grupo 
social de que se  membro  ainda evidenciada pela descoberta de que 
os estudantes brancos de lngua africana tinham muito mais 
preconceitos contra os negros que os estudantes de lngua inglesa, 
mas os estudantes de lngua inglesa tinham muito mais preconceitos 
contra os indianos sul-africanos.  evidente que as diferenas de 
personalidade no podem dar conta destes preconceitos particulares. O 
preconceito, como os outros hbitos, parece ser aprendido no 
particular ambiente social em que se  criado.
No obstante, os ambientes sociais mudam, embora gradualmente, 
sucedendo o mesmo com as atitudes daqueles que neles vivem. Em 1932 
(Katz e Braly, 1933), deu-se a um grupo de estudantes de Princeton um 
questionrio que lhes exigia a descrio dos traos predominantes de 
vrios grupos tnicos. Quando em 1950 foram de novo examinados 
(Gilbert, 1951), as suas atitudes para com os negros e os Judeus 
tinham sofrido considervel mudana em sentido favorvel. As 
sondagens da opinio pblica, bem como algumas eleies recentes, 
mostraram que o votante americano est muito mais disposto nesta 
dcada que algumas dcadas atrs a eleger membros de grupos 
minoritrios para posies governamentais de importncia.
A exposio acerca do efeito que o meio social tem sobre a 
formao das atitudes seria incompleta se no fizssemos referencia a 
que muito frequentemente os grupos a que uma pessoa pertence exercem 
influncia conflituosa sobre ela. Num estudo (Newcomb, 1943) levado a 
efeito em 1930 sobre as atitudes dos estudantes de uma universidade 
feminina da Nova Inglaterra, conhecida pelos seus pontos de vista 
liberais e pelas suas estudantes relativamente abastadas, descobriu-
se que as estudantes preferentemente conservadoras no primeiro ano de 
universidade se tornaram cada vez mais liberais  medida que 
aumentava o tempo de estada na universidade.  claro que as presses 
sociais da famlia e da universidade estavam a operar em direces 
opostas. Para a maioria das estudantes, pelo menos durante os seus 
dias de universidade, a influncia desta tinha efeito superior. Entre 
as estudantes, contudo, havia algumas que por um certo nmero de 
razes no participavam muito na vida da universidade. Consideradas 
como grupo sucumbiram menos  influncia liberalizante da 
universidade. Hoje, muitos estudantes universitrios encontram-se a 
braos com idnticos conflitos, mas a competio de atitudes tem 
origem, por um lado, nos pais e na faculdade e, por outro, em grupos 
de estudantes rebeldes e afastados.

        A Organizao das Atitudes e Das Crenas


          As pessoas no adquirem novas atitudes e crenas da mesma 
maneira que se acrescentam novas inscries a uma lista telefnica. 
Os nomes acrescentam-se de modo mais ou menos arbitrrio: no  
preciso que eles principiem por uma letra especfica, que rimem com 
outro nome e que sejam de uma certa extenso. Em suma, cada nome  
independente de qualquer outro. Tal no acontece com as atitudes e as 
crenas. O homem tem tendncia a formar e a manter uma srie 
permanente de atitudes e de crenas e o seu comportamento orienta-se 
muitas vezes para a reduo e eliminao dos conflitos entre elas.
Nos anos passados, algumas teorias psicolgicas sociais tentaram 
isolar e definir os factores pessoais e do meio social do indivduo 
que encorajam a constncia cognitiva -- srie organizada de atitudes 
e crenas compatveis. Entre essas formulaes situam-se as que 
sublinham o equilbrio (Heider, 1946) a congruncia (Osgood e 
Tannenbaum, 1955) a coerncia lgica-afectiva (Manguire, 1960), a 
coerncia afectivo-cognitiva (Rosenberg e Abelson, 1960) e a 
congruncia de crena (Rokeach e Rothman, 1965). A nossa ateno 
limitar-se-, porm,  teoria da dissonncia cognitiva (Festinger, 
1957), em grande parte porque foi a que mais influncia teve na 
estimulao da investigao. Descrevamos esta formulao num contexto 
de um facto histrico e alguns dados experimentais.
Em 1818, um lavrador da Nova Inglaterra, chamado William Miller, 
depois de ter estudado a Bblia, chegou  concluso de que o mundo 
iria acabar em 1943. Pelo ano de 1831, muita gente se tinha 
interessado pela sua predio e um bom nmero estava convencido de 
que seria verdade. Formaram uma organizao e comearam a publicar um 
jornal com a finalidade de fazer outros proslitos. Em 1842, uma 
conferncia de milleristas aprovou a resoluo que afirmava "ter Deus 
revelado a data do fim do mundo, sendo essa data 1843).  medida que 
o tempo do juzo final se aproximava, os milleristas tornavam-se cada 
vez mais convictos de que tinham razo. Era tal a convico que 
alguns lavradores no se importavam com lavrar as suas terras. No 
tendo confirmao a sua predio, os milleristas mostraram-se 
desapontados. Mas imediatamente depois era fixada uma nova data e 
recomearam o proselitismo com energia e entusiasmo.

O motivo porque a no confirmao do fim do mundo no destruiu a 
f dos milleristas constitui uma interessante questo psicolgica. 
Segundo a teoria da dissonncia cognitiva, sempre que um indivduo 
mantm simultaneamente dois conhecimentos (crenas e atitudes) 
psicologicamente inconciliveis tem lugar um estado pulsional 
negativo, dissonncia, que o indivduo tenta reduzir ou eliminar. 
Assim como os organismos adquirem respostas instrumentais para 
reduzir ou eliminar o medo, assim os seres humanos executam respostas 
redutoras ou eliminadoras da dissonncia cognitiva. Por outras 
palavras, a teoria da dissonncia cognitiva baseia-se em trs 
postulados: 1) dois conhecimentos so dissonantes quando o oposto de 
um deles se segue do outro; 2) a dissonncia gera insatisfao, e 3) 
os indivduos tentam eliminar ou reduzir a dissonncia. No caso dos 
milleristas, depois de no se ter realizado a sua predio do fim do 
mundo existiam dois conhecimentos dissonantes: a crena de que o 
mundo iria acabar e o facto de que o mundo existia. Tinham uma 
escolha a fazer entre dois mtodos alternativos para reduzir a 
dissonncia cognitiva com que estavam a braos: podiam negar a sua 
crena predilecta ou fazer uma racionalizao: tinham cometido um 
erro de cmputo da data, mas o acontecimento predito iria ainda 
suceder. Ora, pelo facto de eles terem encontrado um erro ficaram a 
saber a data real do fim do mundo. Muitos acharam a segunda 
alternativa mais atraente e antes do colapso definitivo do movimento 
millerista foi repetida vrias vezes a sequncia de predio, 
desmentido e racionalizao. Um exemplo contemporneo de como pode 
ser reduzida a dissonncia provm de uma anlise da crena dos 
fumadores respeitante s provas mdicas de que h uma conexo entre o 
fumar e o cancro pulmonar. Um fumador que l estas provas fica a 
braos com a dissonncia cognitiva. Para a reduzir tem que fazer uma 
das duas coisas seguintes: pode deixar de fumar (ou talvez reduzir 
consideravelmente a dose de tabaco fumado) ou pode negar que as 
provas sejam vlidas. Desta anlise poder-se-ia esperar que quanto 
mais uma pessoa fuma menos provvel  que creia nas provas de que o 
cancro do pulmo pode ser causado pelo fumo. 
Outras descobertas, muitas delas provenientes de investigaes 
experimentais, confirmaram a teoria da dissonncia cognitiva. Num 
estudo (Festinger e Carlsmith, 1959) exigia-se a trs grupos de 
estudantes que executassem um trabalho montono e enfadonho. Depois 
de o completar, instruia-se cada estudante a dizer a um colega que 
estava  espera que se tratava de uma tarefa agradvel e divertida. 
Cada membro de um grupo recebia um dlar por este embuste. Os membros 
do outro grupo recebiam vinte dlares por fazer a mesma coisa. Ao 
terceiro grupo, que serviu de grupo contrle, no se exigia que 
enganassem os colegas. A seguir fez-se uma entrevista com cada 
estudante para saber a sua atitude a respeito da tarefa montona.
Segundo a teoria da dissonncia cognitiva, forar uma pessoa a 
fazer uma coisa em que no cr d origem a dissonncia. Tal 
dissonncia  maior entre os sujeitos que recebiam um dlar que entre 
os que recebiam vinte dlares. O sujeito que recebe uma grande 
recompensa pode racionalizar o seu embuste alegando que ele e os 
outros, se tivessem possibilidade, no seriam capazes de resistir a 
aceitar tal importncia em dinheiro a troco de uma mentira to 
pequena. Mas o sujeito que recebesse um dlar acharia difcil 
racionalizar a mentira a troco de uma miservel soma. Podia, contudo, 
reduzir a dissonncia cognitiva modificando a sua atitude para com a 
enfadonha tarefa. Poderia fazer crer a si prprio que ela era 
realmente interessante. Os resultados da entrevista indicaram que 
esta anlise  correcta. Os sujeitos que recebia um dlar tinham-se 
persuadido de que a tarefa era relativamente agradvel, ao passo que 
aqueles que recebiam vinte dlares tinham a mesma atitude negativa 
que os do grupo contrle para com a tarefa.

Duas outras experincias ilustram o modo como pode ser criada a 
dissonncia em situaes muito diferentes. Num estudo (Aronson e 
Mills, 1959), raparigas universitrias foram submetidas a uma 
iniciao para conseguirem ser admitidas num grupo que ia discutir a 
psicologia do sexo. Certas raparigas eram sujeitas a uma iniciao 
embaraante, exigia-se-lhes a recitao de uma lista de palavras 
obscenas e a leitura de certos passos realistas de uma novela 
contempornea em presena de um experimentador masculino. A iniciao 
do outro grupo era s ligeiramente embaraante: a leitura de seis 
palavras sexuais, mas no obscenas. No havia iniciao para o grupo 
contrle. Permitia-se depois a todos os sujeitos escutar, por meio de 
auscultadores, a discusso do grupo a que acabavam de ser admitidas. 
A discusso, respeitante s respostas sexuais secundrias dos 
animais, tinha sido de propsito tornada montona sem os sujeitos 
saberem. Aps a gravao, os sujeitos completavam um questionrio 
para fazerem a apreciao da discusso. Segundo predio da teoria da 
dissonncia cognitiva, as raparigas pertencentes ao grupo que 
experimentou grande embarao classificaram mais positivamente a 
discusso que os outros dois grupos. Tendo sido submetidas a grande 
embarao pra conseguirem a admisso no grupo experimentavam, 
presumivelmente, dissonncia quando observavam a enfadonha discusso. 
Para reduzir tal dissonncia, deformavam a percepo da discusso em 
sentido positivo. De modo semelhante, as crianas ameaadas com uma 
ligeira punio se jogassem com um brinquedo proibido, diminuiam mais 
o amor pelo brinquedo que as crianas severamente ameaadas. O desejo 
da criana de jogar com um brinquedo , presumivelmente, dissonante 
com o no brincar com ele. Uma forte ameaa para no jogar com o 
brinquedo justifica a ignorncia dele, mas no uma suave puno. A 
criana ameaada com uma ligeira punio racionaliza, portanto, o 
evitar o brinquedo apreciando-o (Aronson e Carlsmith, 1963).
A teoria da dissonncia cognitiva foi criticada pela sua falta 
de preciso (por exemplo, Chapanis e Chapanis, 1964). Tende tambm a 
ignorar as diferenas individuais. Que se passou com alguns 
milleristas que os levou a rejeitar as suas crenas aps o primeiro 
desmentido? Ou porque  que alguns fumadores inveterados aceitam as 
provas que estabelecem uma relao entre o cancro pulmonar e o fumar 
cigarros? Um mentiroso patolgico experimentaria, porventura, 
dissonncia se persuadisse algum a executar uma tarefa montona e 
repetitiva dizendo-lhe que  agradvel? Talvez a resposta a estas 
perguntas venha de estudos acerca de como as pessoas aprendem a ser 
coerentes.  muito possvel que no processo de aprendizagem a ser 
coerente algumas pessoas aprendam concentrar-se primariamente sobre 
factos, enquanto outras se firmem nas prprias crenas, considerando-
as de suprema importncia.
Mas sejam quais forem as suas insuficincias, a teoria da 
dissonncia cognitiva esteve na origem de muitas investigaes e 
ordenou um grande nmero de fenmenos no s respeitantes  
psicologia social, mas ainda  percepo. Recordemos que situaes 
ambguas so frequentemente interpretadas de modo uniforme. Segue-se 
a apreciao de um proponente da teoria da dissonncia cognitiva:

A teoria da dissonncia cognitiva  muito mais complicada do que 
ns a pensmos h dez anos. Tem-se feito muita investigao, a partir 
de 1957. Muitos problemas anteriormente especificados foram 
resolvidos; muitos novos foram descobertos, alguns dos quais 
permanecem insolveis.  de esperar que a investigao futura leve  
emergncia de mais problemas novos, os quais conduziro a novas 
investigaes que continuaro a produzir uma nova compreenso do 
comportamento humano. Penso que  o que queremos dizer com "cincia" 
(Aronson).
        H. Kendler, Introduo  Psicologia, Fundao Calouste Gulbenkian, 1972, pp. 1078-1093.

        Texto 62

        Os Hbitos e as atitudes

Em oposio s teorias substancialistas, que fazem da pessoa uma 
realidade dotada de uma estrutura permanente, que de bom grado se 
procura ligar a elementos corporais, outras teorias, no intuito de 
explicar a conduta individual, do nfase s influncias da situao.
Tal a apresentao da teoria behaviorista. A existncia de uma 
estrutura durvel, um conjunto, at mesmo um sistema de traos 
gerais, a determinar formas coerentes e estveis de conduta e a 
constituir uma entidade que seria a personalidade, uma ideia assim, 
dizem os behavioristas, mostra bem que a psicologia continua sob a 
influncia de velhas noes teolgicas relativas  alma. Na 
realidade, afirmam, os actos dos indivduos so aprendidos. As 
circunstncias em que estes so colocados levam-nos a reagir. E a 
recorrncia de certas situaes produz neles os hbitos. Muitas 
circunstncias so sociais, e a aprendizagem da conduta , em grande 
parte, social. Donde ser possvel definir-se a personalidade como "os 
hbitos e sistemas de hbitos de importncia social que so estveis 
e resistem  mudana."
Essa teoria  apresentada, por Exemplo, por E. R. Guthrie.
"Mais facilmente se d a conhecer um homem", explica o mesmo 
Gutherie "quando se declina sua situao social do que quando se 
enfileiram essas vagas que constituem a extraverso, a dominao ou a 
indeciso. Ao saber que algum  militar profissional, ficamos 
sabendo muito de seus talentos e capacidades, de sua maneira de 
pensar, de se portar, de suas opinies, de suas ambies. Sabemo-lo 
por conhecer as condies de vida a que teve de adaptar-se, as coisas 
que deve ter aprendido."
Os traos gerais da personalidade de um indivduo, em 
consequncia, nada mais sero que o resultado das influncias 
exercidas pelas caractersticas gerais das situaes recorrentes em 
que tenha sido colocado.
A teoria behaviorista da personalidade  interessante pela razo 
mesma de seu carcter doutrinrio. No pe absolutamente em dvida 
que a personalidade humana seja una, integrada, estvel, coerente, 
como pretende o esquema cultural ocidental. Porm, esfora-se por 
provar que essas caractersticas que admite como factos no so as 
propriedades de uma entidade substancial, mas o efeito, por assim 
dizer mecnico, da situao. Todavia, concretamente, a teoria nada 
informa sobre o modo pelo qual esses hbitos se constituem em sistema 
para formar uma pessoa; concentra o seu esforo -- e nesse rumo vai 
muito longe -- no processo da aprendizagem, na formao dos hbitos.
A anlise concreta da formao e da natureza  das relaes entre 
a situao e a pessoa (e no mais simplesmente um indivduo 
qualquer), deve ser procurada em teorias mais limitadas e mais 
precisas. Entre estas, cumpre nomear o estudo das atitudes. 
Segundo o sentido mais amplo da palavra, "atitude" designa, em 
psicologia social, o modo pelo qual uma pessoa se situa em relao a 
objectos de valor. O estudo das atitudes ocupa, em consequncia, o 
ncleo de uma teoria da personalidade: os comportamentos de um 
indivduo podero ser descritos, compreendidos e mesmo preditos pelas 
suas atitudes.

Mas, a partir do momento em que se prope a ideia de 
personalidade, passa-se a subentender a existncia de correlaes 
entre os diversos comportamentos da pessoa, em especial entre as suas 
atitudes e as suas outras caractersticas. Foi o que levou certo 
nmero de autores a reencontrar a teoria substancialista, quando de 
seu estudo das opinies, principalmente ao procurarem estabelecer 
correlaes entre as atitudes e os traos.
As pesquisas de Adorno e seus colaboradores sobre a 
"personalidade autoritria" inspiram-se, at certo ponto, nessa 
teoria. Mas o exemplo mais notvel, na literatura recente,  o de H. 
J. Eysenck. Mediante uma anlise factorial aplicada a medidas de 
opinies, Eysenck descobre dois factores: r (radicalismo-
conservadorismo) e t (dureza-brandura). O factor r  "dimenso 
essencial" das atitudes polticas; t , porm, verdadeiramente, um 
factor de personalidade, em relao estreita com a introverso-
extraverso, dicotomia que resume, por si mesma, diferentes traos, 
como a agressividade e a dominao, mesmo a rigidez, a intolerncia, 
a ambiguidade, a estreiteza de esprito e o carcter concreto do 
pensamento. Eis-nos, pois, de volta a uma teoria substancialista: as 
opinies so determinadas por algo de real, existente na pessoa.
H, todavia, outras maneiras de estudar as opinies dos 
indivduos. Uma delas, particularmente,  a de relacionar as opinies 
com as caractersticas sociolgicas pelas quais se classificam os 
indivduos. Tal mtodo faz perceber diferenas, amide bastante 
sensveis, da distribuio das opinies consoante o sexo, a idade, a 
profisso, o habitat, o nvel econmico-social, a filiao religiosa, 
o nvel de estudos.
Um behaviorista no hesitar em considerar tais ligaes como 
causais: desta vez, estamos bem dentro do campo das interpretaes 
"situacionais". Fora  reconhecer, entretanto, que a explicao 
fica, no caso, bastante obscura. Como dizem Smith, Bruner e White, 
pairamos aqui "numa zona crepuscular, nem claramente psicolgica, nem 
claramente sociolgica". O autor que mais se afanou para 
"psicologizar" as caractersticas sociolgicas associadas s 
diferenas de opinio foi, provavelmente, Paul F. Lazarsfeld, 
especialmente pelo seu "ndice de Predisposio Poltica" (isto , 
predisposio a votar nos democratas). Este ndice combina o efeito 
do nvel scio-econmico com o da filiao religiosa e do habitat, r 
baseia-se numa dupla ideia: a da participao em certas experincias 
e certas necessidades comuns nos grupos e a da influncia pessoal que 
se exerce no seio do grupo. Como notam Smith, Bruner e White, tratam-
se de hipteses que aguardam demonstrao: o ndice de predisposio 
poltica localiza os problemas, no os resolve.

Na realidade, corre-se o risco de mal-entendido quando se tenta 
explicar e descrever as pessoas pelas suas opinies.  certo que as 
opinies fazem conhecer as pessoas porque as revelam; mas no pelo 
contedo prprio, objectivo, por serem, por exemplo, opinies de 
"direita" ou de "esquerda", "leigas" ou "clericais". O que importa, e 
 significativo,  a funo de tais opinies para pessoas que as tm. 
Logo,  em relao s pessoas e do ponto de vista das pessoas, que 
cumpre analisar as opinies, caso se pretenda faz-las servir para 
compreenso dessas mesmas pessoas. Foi a esta tarefa que se 
consagraram Smith, Bruner e White, num trabalho que no lhes custou 
menos de dez anos de lida.
Segundo esses autores, compete a uma psicologia da opinio 
considerar trs aspectos da opinio: O seu objecto, a orientao do 
opinante e a posio deste.
O objecto da opinio vem a ser o problema sobre o qual a pessoa 
opina; mas o problema como encara a pessoa, distinto, por 
conseguinte, de seu correlato objectivo, que se chamar, se se 
quiser, o tema. No objecto da opinio sero especialmente estudados o 
contedo, a diferenciao em perspectiva temporal.
O segundo aspecto a estudar  a orientao. O objecto da opinio 
pe em jogo tendncias para a aco: movimento para o objecto 
(aproximao); movimento de separao do objecto (afastamento); 
movimento contra o objecto (hostilidade).
 preciso distinguir entre orientao e posio. Esta  traduo 
em linguagem concreta da orientao pessoal: se se trata de opinies 
polticas, ser traduo para linguagem da poltica. Em outros 
termos, posio  preferncia por determinada linha de aco 
colectiva. A posio, seja poltica ou de outra espcie, pode 
coincidir com a orientao do sujeito, mas tambm pode afastar-se 
muito desta. Por exemplo, pode a posio ser menos extrema que a 
orientao.
 possvel pr em evidncia o acordo geral entre as opinies e 
os traos da pessoa: as opinies revelam as relaes entre a reflexo 
intelectual e o sentimento; por elas se descobre o tom do humor 
(optimismo ou pessimismo, confiana ou incapacidade, energia moral ou 
resignao); enfim, as opinies trazem  tona o nvel de actividade: 
o indivduo ser muito activo, reclamar aces, ficar passivo, e 
assim por diante.
Entretanto,  principalmente pelas funes das opinies que se 
compreende o facto de uma pessoa ter determinada opinio:  pelas 
funes que o estudo das opinies serve  psicologia da 
personalidade. Distinguem-se trs funes das opinies, 
correspondentes a trs aspectos da pessoa.
Uma Pessoa , em primeiro lugar, um indivduo que est situado 
no mundo, isto , cujo comportamento se desenrola num ambiente que 
constitui para ele a realidade. A primeira funo das opinies ser, 
pois, a adaptao  realidade, ou "avaliao do objecto". As nossas 
atitudes e opinies ajudam-nos a classificar os objectos do nosso 
ambiente e, atravs disso, pem a nosso servio predisposies para 
agir e para enfrentar esses objectos.

Uma pessoa , em segundo lugar, um personagem num grupo. Ora, as 
opinies servem para adaptar o indivduo ao seu grupo, servem para 
faz-lo aceite pelo grupo. Se essa aceitao constitui necessidade 
profunda para a pessoa, esta tender a exprimir opinies aceitveis, 
freando ou mitigando a expresso de opinies menos aprovadas. Essa  
uma relao frequente entre as opinies expressas e o grupo a que se 
pertence. Mas existem tambm opinies experimentadas: Em geral, 
tendem a ter a mesma funo em relao ao grupo de referncia. 
Concretamente,  verdade, as coisas so mais complicadas. Smith, 
Bruner e White sublinham, alm disso, que, no domnio social, as 
opinies exercem ainda outras funes: pode-se formar uma opinio 
simplesmente para provar aos outros e a si mesmo a sua independncia, 
a sua autonomia; ou para manifestar a sua hostilidade para com os 
outros, por opinies pouco ortodoxas; pode-se satisfazer uma 
necessidade de identificao com o grupo: assim  que o indivduo 
pensar que lhe cabe a obrigao de possuir opinies sobre certos 
assuntos.
Enfim, uma pessoa  um indivduo que tem necessidades, pulses: 
defesa do eu, necessidade e dependncia, necessidade de autonomia, de 
hostilidade, de estatuto. A respeito, as opinies exercem uma funo 
de exteriorizao, resultante da percepo, por parte do indivduo, 
de uma analogia entre um acontecimento do meio exterior e um problema 
interior no resolvido. Isso ser, se se quiser projeco e 
transferncia, consequente, na realidade, os mecanismos sejam mais 
numerosos e ricos. Em todo o caso, a relao entre as opinies e as 
necessidades subjacentes da pessoa no  rgida nem biunvoca, Dois 
indivduos, ambos com funes agressivas, podero formar, em poltica 
estrangeira, opinies antitticas, um, canalizando a sua agresso em 
hostilidade contra o inimigo, outro, esquivando-se ao problema pela 
proposta de uma poltica isolacionista.
Ao descrever e explicar uma pessoa pelas suas opinies, no h 
lugar para a concesso de privilgio a uma funo em detrimento das 
outras; insistindo-se no processo de exteriorizao das exigncias 
internas, cai-se numa doutrina de irracionalismo. Insistindo-se na 
avaliao do objecto, cai-se no racionalismo. Acentuando-se 
demasiadamente as exigncias sociais, d-se da pessoa uma imagem 
passiva. O interesse de uma psicologia da personalidade, baseada nos 
fenmenos da opinio, est na possibilidade de se entrever, assim, 
toda a complexidade dos comportamentos.
        J. Stoetzel, Psicologia Social, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1972, pp. 192-197.

        Texto 63

        O Homem e o Sobrenatural

        a) a religio primitiva como fora scio-cultural

A prpria existncia de valores culturais simblicos cria 
dificuldades, desconhecidas dos sub-humanos, que todo e qualquer 
padro de vida em grupo, criado pelo homem, dever contornar para no 
ser despedaado. Estas dificuldades podem ser de vrias espcies, mas 
algumas das mais importantes dizem respeito s carncias humanas e 
suas consequncias.
Se examinarmos os dois primeiros lados de um tringulo 
biocultural, verificamos que, pelo que respeita  interaco homem-
ambiente, com frequncia os valores culturais, tidos como dominantes, 
diminuem a livre utilizao do que a natureza oferece. De igual modo, 
no domnio das relaes interpessoais, os valores culturais, sob a 
forma de princpios de moral ou de tica, contribuem para diminuir, 
pelo menos, o nmero de meios potenciais de expresso sexual. Quando 
a situao  encarada deste modo, o homo sapiens enfrenta a ameaa de 
duas espcies de carncias, as que tm origem em deficincias 
ambientais ou biolgicas e as que derivam de restries culturais. Os 
povos primitivos sabem muito pouco sobre a forma de superar umas e 
mudar as outras.

Seja qual for a sua origem, as carncias causam, 
invariavelmente, infelicidade alguns membros de uma sociedade. Deste 
modo, em termos de dinmica biocultural, pode dizer-se que as 
carncias fazem surgir foras de ruptura que pem em perigo a 
existncia de todo e qualquer padro cultural. Por consequncia, para 
evitar a dissoluo, cada configurao biocultural tem de conter um 
ou mais elementos de coeso (lados) suficientemente fortes para 
superarem as foras da desintegrao. Talvez por isso a existncia de 
uma forma qualquer de religio  uma das caractersticas constantes 
de todas as sociedades cuja cultura estudmos. Em certos casos, o 
patriotismo, isto , a lealdade de cada indivduo  sua unidade 
social, basta para proporcionar a coeso necessria, mas na maioria 
das comunidades primitivas os laos de patriotismo so to reforados 
por sanes sobrenaturais que muitas vezes no se sabe onde acaba o 
patriotismo e onde comea a religio.
Mesmos nos Estados Unidos, onde a separao da Igreja e do 
Estado tem sido um princpio bsico desde h muito em vigor, ainda 
ouvimos frases tais como: "a bandeira  sagrada"; e as crianas 
diariamente prometem lealdade a "uma nao, abaixo de Deus". Contudo, 
os americanos esto proibidos pela sua constituio de terem uma 
religio nacional. Consequentemente, no podem utilizar os laos 
duplamente coesivos de fidelidade religiosa e patritica, to comuns 
nas sociedades primitivas. Assim  possvel existirem nos Estados 
Unidos duas formas diferentes de fidelidade. Os americanos podem 
pertencer a uma religio internacional que impe obrigaes restritas 
e cujos ensinamentos se sobrepem, em alguns aspectos,  fidelidade 
nacional ou podem manter a sua fidelidade nacional, apesar de terem 
laos religiosos diferentes. Nenhuma destas solues d lugar a uma 
coeso to grande como a originada pelos duplos laos de unidade 
religiosa e patritica, caractersticos dos grupos tribais.
 interessante salientar que as modernas naes totalitrias, 
adeptas do nazismo, do fascismo ou do comunismo, tentaram ligar 
estreitamente os seus cidados atravs da imitao das estruturas 
scio-culturais das sociedades primitivas. Tentaram faz-lo no s 
atravs da identificao da fidelidade poltica com a adorao do 
Estado, mas tambm procurando deificar o chefe do Estado. Os Estados 
Unidos tentaram alcanar mais ou menos o mesmo efeito atravs da 
duplicao dos laos de lealdade.  esta a razo porque em tempo de 
crise, quando as ameaas de separatismo interno ou desintegrao 
social so grandes, os americanos duplicam os seus esforos no 
sentido de suscitar o patriotismo efectivo, exigindo mais e mais 
provas de lealdade, crescentes expresses de sentimentos de dedicao 
 unidade social em termos de imposio de juramentos e garantias de 
lealdade, insistindo num policiamento mais rigoroso dos 
potencialmente desleais e na intensificao das exigncias de 
excluso dos estrangeiros. 

A religio primitiva tambm actua no sentido de preservar a 
coeso de um grupo, na media em que d vazo a perigosas foras 
desintegradoras, sem que da resulte qualquer perigo para a estrutura 
social. Este facto verifica-se de modo flagrante quando surgem 
insatisfaes cujas causas se podem atribuir a indivduos, 
especialmente a chefes. Os perigos de rebelio contra os Governos, ou 
de abandono de uma sociedade, diminuem muito se as pessoas 
insatisfeitas foram levadas a acreditar e a dizer: "seja feita a tua 
vontade, mesmo que ela signifique a minha perda". Todas as sociedades 
estaro internamente fortalecidas se os seus membros se convencerem 
que o que quer que acontea  a vontade de Deus. Uma vez que nenhuma 
unidade social pode existir sem pessoas, o abandono da mesma por 
qualquer indivduo constitui uma ameaa para a sociedade no seu 
conjunto. Dentro de esta ordem de ideias, a morte representa a maior 
de todas as foras de desintegrao. Nenhuma sociedade permanece 
indiferente s consequncias da morte, mas, quando ho haja nenhum 
meio fsico capaz de impedir a sua aco, a nica forma de a rebater 
ou neutralizar  o recurso a algo sobrenatural. Assim se explica 
porque  que a noo de um outro mundo, onde as almas dos mortos 
vivam de maneira semelhante  da terra,  to comum:  que desse modo 
uma pessoa falecida, mesmo quando o seu corpo j no est presente,  
ainda um membro espiritual da sua antiga sociedade. H mesmo tribos 
que vo mais alm, desenvolvendo crenas segundo as quais em qualquer 
ocasio futura os vivos se reuniro com os mortos. Tais crenas 
actuam no sentido de garantir que uma sociedade, tal como uma cadeia 
contnua, nunca chegue a um fim. Estendendo a continuidade de um 
grupo social at um futuro indefinido a morte  "eliminada" como 
ameaa  perpetuao da sociedade.
Os cientistas sociais do futuro tero de encarar problemas 
relacionados com o crescimento de religies internacionais largamente 
espalhadas:  bvio que estas no tm as mesmas funes que as 
crenas religiosas no mundo do homem primitivo. Para alm de outros 
objectivos que possam ter, pode-se demonstrar que as prticas 
sobrenaturais de muitas tribos esto adaptadas s necessidades de 
determinadas sociedades. Contudo, excepto em sentido figurado, no h 
uma nica sociedade inteiramente crist, judaica, budista ou 
islmica. Os membros de cada uma dessas fs residem em numerosas 
naes muito separadas, com padres de cultura muito diferentes. 
Talvez seja essa uma das razes porque as religies internacionais 
insistem tanto na definio de princpios morais ou ticos que se 
supe poderem ser aplicveis a toda a humanidade.
A religio pode ser uma fora de desintegrao numa sociedade 
grande e heterognea que contenha adeptos de vrias fs, mas em 
comunidades primitivas, relativamente homogneas, actua como uma 
fora coesiva: fortalece a realidade dos indivduos ` sua unidade 
social, contribui para superar as insatisfaes que surgem no domnio 
das relaes do homem com o ambiente, suaviza asperezas dentro do 
mbito das relaes do homem com os seus semelhantes e ajuda a 
contrariar os efeitos de inseguranas provocados pela morte.  com o 
auxlio de crenas religiosas profundamente arreigadas que em toda a 
parte as sociedades tentam impedir a agitao dos famintos, dos mal 
alojados, dos mal vestidos e dos sexualmente reprimidos. Em linguagem 
figurada, as sociedades preferem aqueles que apertam o cinto, mas 
sadam a bandeira e se curvam aos desejos de uma divindade queles 
que apenas se interessaro por estes aspectos se tiverem sido 
satisfeitos nos outros. Para onde quer que os antroplogos culturais 
se voltem, encontram sempre convices religiosas usadas em 
sociedades primitivas com o intuito de escorar pontos fracos de 
padres e cultura.


        b) Uma Definio Mnima

A religio  um assunto to vasto e emocionalmente to carregado 
que pode significar toda a espcie de coisas diferentes para pessoas 
diferentes. Os antroplogos culturais acharam de tal modo difcil 
estabelecer uma definio completa e satisfatria que caram no 
extremo contrrio;  de acordo com uma sugesto originalmente proposta 
por E. B. Tylor, tm tentado trabalhar com a mais curta definio 
possvel, constituda pelo menor denominador comum dos elementos que 
se encontram em todas as manifestaes de religio. Reduzindo ao 
essencial a proposta de Tylor, a mais curta definio possvel de 
religio ser "uma crena no sobrenatural". Em si prpria, a palavra 
"crena" implica um elemento de f, um desejo de aceitar qualquer 
coisa sem demonstrao ou prova tangvel. Adoptando uma ideia e uma 
frase de Wordsworth, a religio, tal como a "f poltica", exige "uma 
suspenso consciente da descrena". Devemos notar que a f tem fortes 
conotaes baseadas num sentido de admirao ou respeito provocado 
por qualquer coisa misteriosa. Escritores anteriores referiram-se 
frequentemente a este aspecto da emotividade como uma "excitao 
religiosa".
Quando a crena se aplica ao sobrenatural, significa a aceitao 
voluntria de uma ordem de coisas que no pode, tanto quanto se sabe, 
ser provada pela lgica ou alcanada pelos sentidos do homem ou por 
alguma extenso dos mesmos. Quando descrevemos algo como 
sobrenatural, queremos dizer que isso fica para alm do alcance dos 
rgos dos sentidos que, portanto, nunca se poder manifestar ao 
gosto, tacto, cheiro, vista, ou ouvido humanos, mesmo com a ajuda de 
inventos, tais como telescpios poderosos ou amplificadores de som.  
a crena absoluta na existncia de algo que no pode e talvez nunca 
possa ser alcanado pelos sentidos que constitui o cerne da religio 
e forma as bases em que se dedicam todos os sistemas religiosos. 
Crenas deste gnero, que no necessitam de nenhuma realidade 
biofsico-qumica, qualquer que esta seja, so a quinta-essncia da 
mentalidade algbrica, capaz de lidar com conceitos abstractos ou 
simblicos, como se eles tivessem realidade objectiva. Emily 
Dickinson exprimiu magnificamente esta ideia nos seus famosos versos:

Eu nunca falei com Deus
Nem visitei o Cu
No entanto conheo esse lugar
Como se tivesse um mapa.


Na realidade, todas as religies excedem muito os dois elementos 
da definio mnima, mas todas as sociedades constroem a sua 
superstrutura religiosa sobre o mesmo menor denominador comum. Uma 
vez que as construes sobrenaturais no tm existncia material e 
podem diferir largamente de cultura para cultura, no h nenhuma 
forma pela qual um antroplogo cultural no campo possa reconhecer, 
antes de lhos indicarem, os objectos a que uma tribo atribui 
significado religioso. Pode levar muito tempo antes que as pessoas 
confiem as suas crenas a um investigador e, entretanto, ele tem de 
ser muito circunspecto se no quiser estragar ou poluir inadvertida 
algo que possa ser sagrado aos olhos dos nativos. Todos os animais 
incapazes e lidar prontamente com valores simblicos so tambm 
incapazes de lidar com o sobrenatural. Portanto, pode dizer-se que s 
os seres humanos podem formular crenas religiosas.
        Mischa Titiev, Introduo  Antropologia Cultural, Fundao Caloust Gulbenkian, 1969, pp. 290-294.

        Texto 64

        O Boato

         A inteligente experincia intitulada "transmisso de uma 
mensagem na cidade c" merece ser relatada com alguma mincia. 
Tratava-se de estudar a forma da curva de difuso, em funo do 
espao e do tempo.
Na manh de segunda-feira, dezasseis de Julho de 1961, nessa 
localidade de um milhar de habitantes, uma dona de casa, de entre 
cinco, recebeu um visitante, de quem ouviu um slogan de seis 
palavras, supostamente lanado por uma nova marca de caf. Toda a 
pessoa da cidade que pudesse repetir esse slogan no curso de uma 
semana a outros visitantes receberia gratuitamente meio quilo de 
caf.
No dia seguinte, um avio atirou trinta mil folhetos sobre a 
cidade informando que uma dona de casa em cada cinco conhecia um 
slogan que daria direito, no dia seguinte, a meio quilo de caf de 
graa para qualquer pessoa que o pudesse repetir.
A informao surtiu efeito na quinta-feira: os investigadores 
puderam consignar, ao mesmo tempo, a pessoa-origem da transmisso, o 
lugar e o momento em que esta se processara, bem como a distncia que 
separa os domiclios das duas donas de casa em interaco.
Essas diferentes pesquisas permitiram um enorme avano sobre o 
que acima se chamou teoria comum dos boatos. Certamente que a 
mensagem se altera durante a transmisso, mas no no sentido de um 
embelezamento, como frequentemente se cr, e como, ainda em 1936, 
escrevem La Pierre e Farnsworth. As experincias de Allport e 
Postman, confirmadas e variadas pela anlise de alguns boatos reais, 
feita pelos mesmos autores, apontam trs leis e alterao das 
mensagens, no decurso da transmisso: 

-- A primeira  uma lei de empobrecimento ou nivelamento: de 
repetio em repetio, perdem-se pormenores; de cem pormenores da 
mensagem originria, restam 67, em mdia, na primeira repetio, 54 
na segunda, 36 na terceira, 30 na quarta e na quinta;
-- em compensao ( a segunda lei, a da acentuao), as 
mincias retidas so reforadas, passando a ocupar lugar central no 
significado da narrativa: a granada nas mos de um soldado de cor 
(cena da batalha) ocupa longamente esse lugar central, nas sucessivas 
transmisses; mas, desde a segunda repetio, "o negro" transforma-se 
em "quatro negros", forma que subsiste at a sexta e ltima 
repetio;

-- A terceira lei  a da assimilao: os elementos estranhos so 
eliminados; os pormenores mantidos so reorganizados em torno de 
motivos centrais, principalmente em obedincia ao esprito do "bom 
prolongamento", salientado pela teoria da forma: sempre, na cena de 
batalha, figurava uma ambulncia com carregamentos explosivos; nas 
narraes, ela conter medicamentos.
        J. Stoetzel, Psicologia Social, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1972, pp. 288-289.

        Texto 65

        Grupo

         Unidade colectiva real, mas parcial, directamente observvel e 
fundada sobre atitudes colectivas contnuas e activas tendo uma obra 
comum a realizar, unidade de atitudes de condutas e de obras que 
constituem um quadro social estrutural tendendo para uma coeso 
relativa das manifestaes da sociedade. Citamos entre os diferentes 
tipos de grupos considerados pelos socilogos: 

1. -- Grupo primrio: grupo ao qual o indivduo pertence 
naturalmente "a famlia, o grupo de trabalho, etc.). Para Cooley o 
grupo primrio  caracterizado pelo frente a frente, a permanncia e 
o carcter pouco especializado da associao, pelo pequeno nmero de 
participantes e pela sua intimidade.
2. -- Grupo de pares: grupo de idade e de composio homognea 
(por exemplo, um grupo de estudantes).
3. -- Grupo de referncia: grupo com o qual o indivduo se 
identifica e que pode ser diferente daquele a que pertence.  do 
grupo de referncia que o indivduo recebe o seu sistema de valores e 
a conduta que deles resulta.
        "Sociologie", Dicionaire Marabout, Primeiro vol, p. 234.

        Texto 66

        O que  um grupo?

Todos sabem o que se entende pela palavra "grupo". Apesar disso 
 bastante difcil definir quais so, de facto, as caractersticas de 
um grupo. Uma srie de pessoas que se rene
em qualquer parte, por acaso, no , em sentido sociolgico, 
designada "grupo", mas sim "multido" ou "ajuntamento". Por exemplo: 
Uma srie de pessoas junta-se em frente de uma montra onde se 
encontra exposto o mais recente modelo de televiso.  possvel que 
se faa uma ou outra observao, mas no existe uma coeso entre os 
espectadores. Com Asch acentua, a disposio que os levou a reunir-se 
no  significativa.
Bem, de repente, um deles exclama em voz alta, de modo que todos 
os oiam: "outra vez s reclamos!"
"No acho nada mal", responde uma pacata dona de casa. " 
interessante, vem-se coisas novas."
"Que disparate!", diz o primeiro, malcriadamente. "Tudo isto  
s para atrair o comprador."
Pode ento acontecer que outros interfiram na conversa e, no 
caso de esta prosseguir, atinge-se normalmente uma espcie de ordem 
no debate, sendo possvel que os dois que falaram em primeiro lugar 
se tornem uma espcie de "dirigentes" da discusso, no decorrer da 
qual se podem mesmo formar autnticos partidos. 

Encontramos aqui o incio de uma organizao que no representa 
ainda um grupo genuno em sentido sociolgico, visto a reunio no 
possuir nem um verdadeiro objectivo nem uma pertena ou coeso que se 
mantenham.
A aglomerao adquire um certo grau de formao de grupo visto 
iniciar-se uma valorizao recproca entre os presentes, e os 
indivduos isolados em breve representarem certos papis mais ou 
menos determinados. A senhora corpulenta do nosso exemplo transforma-
se, pouco a pouco, em advogada da firma expositora, ao passo que o 
homem pouco educado representa o papel de opositor da propaganda.  
possvel que os outros contribuam com novos argumentos e pode muito 
bem ser que, no intervalo de alguns minutos, o homem e a mulher se 
transformem em chefes de dois partidos. Nesse momento eles -- e 
talvez outros tambm -- comeam a exercer uma influncia sobre a 
opinio dos restantes. 
O "grupo" que acabamos de descrever  um produto do acaso, 
constitudo apenas para aquele momento. Contudo, o facto de os seres 
humanos, onde quer que se encontrem, terem a tendncia para 
estabelecer relaes recprocas e se influenciar mutuamente,  hoje 
estudado pormenorizadamente, bem como utilizado em larga escala nos 
mtodos pedaggicos e teraputicos. 
O grupo que observmos at agora era no s condicionado pelo 
acaso como desligado e desmembrado. Para que o grupo possa ser 
considerado uma verdadeira estrutura,  necessrio que possua 
determinados membros em relao recproca uns com os outros, e que 
receba uma organizao e um objectivo definido. Kurt Lewin verifica 
que os membros de grupos se encontram uns perante os outros em 
dependncia recproca, e Cooley frisa que se produz o fundamento do 
grupo quando os seus membros se sentem "ns". Chama a isso o 
"sentimento de ns".
        Charlotte Buhler, A Psicologia na Vida do Nosso tempo, Fundao Calouste Gulbenkian, 1971, pp. 378-379.

        Texto 67

        A Estrutura dos Grupos

Um grupo humano nunca  simples justaposio de unidades, porque 
existem relaes entre estas, relaes que no se afiguram a priori 
deverem ser simplesmente uniformes.  na disposio da totalidade 
dessas relaes que se pensa, quando se fala em estrutura de um 
grupo. 
Nos grupos artificialmente constitudos em vista de determinado 
fim, a estrutura  deliberadamente prescrita com antecedncia: assim 
os grupos militares, os grupos industriais. Ser uma estrutura 
facilmente imaginada graas a um esquema geomtrico, a chamar-se, por 
exemplo, ordem de batalha, organigrama. Mesmo nessa hiptese, e mesmo 
sabendo que a estrutura quase nunca  nica, mas dupla (estrutura da 
autoridade e estrutura funcional),  indubitvel que a organizao 
oficial, jurdica, no esgota a rede de relaes entre as unidades do 
grupo.

Com efeito (e  provavelmente nisso que se pensar a princpio), 
existe uma certa estrutura afectiva em todo o grupo feita as relaes 
de simpatia, de antipatia, e de indiferena entre os membros. Sob 
certo aspecto,  essa estrutura afectiva que Moreno e os seus 
discpulos exploram atravs do "teste sociomtrico", que leva cada 
indivduo do grupo a exprimir preferncias ou repulsas: "em vista da 
excurso marcada para domingo, qual o companheiro ou quais os 
companheiros que deseja ter consigo?" "Qual ou quais prefere no ter 
por companhia?"
O conjunto das respostas, no grupo, a perguntas desse tipo pode 
representar-se por um esquema, o sociograma, que oferece uma imagem 
da estrutura afectiva do grupo: intuitivamente descobre-se, conforme 
o caso, uma "estrela" (aquele para quem convergem as escolhas 
positivas), os "isolados", os "rejeitados", os "pares mtuos" (de 
escolhas recprocas) os "tringulos", as "cadeias". A comparao dos 
sciogramas traz a lume as estruturas sociomtricas bem integradas, 
as estruturas frouxas, etc.
        J. Stoetzel, Psicologia Social, Companhia Editora Nacional, S. Paulo, 1972, pp. 232-233.

        Texto 68

        A COESO DOS GRUPOS

Para o conhecimento dos grupos h, pois, que considerar como um 
dos seus principais atributos a sua coeso, os laos mais ou menos 
fortes que unem os membros do grupo entre si, a ligao das suas 
relaes sociais, a consistncia mais ou menos forte do grupo. A 
coeso  directamente proporcional ao tamanho do grupo, pois quanto 
mais pequeno for o grupo, que oferece ao indivduo a totalidade do 
que  necessrio para viver, e quanto menores forem as probabilidades 
de fora dele encontrar meios de subsistncia, tanto mais ter de se 
ligar a ele. A famlia oferece consequentemente um bom exemplo de uma 
coeso de grupo geralmente forte, pois nela se pode vulgarmente 
observar um grande esprito de sacrifcio dos pais em relao aos 
filhos e vice-versa. Tambm pela entrada num meio social estranho se 
fortalece a coeso de um grupo que em si  precariamente coeso, como 
 o caso, por exemplo, de um grupo de excursionistas num pas 
distante. Assim prova-se tambm que a coeso se baseia nas estruturas 
de sentimento implicadas e nos interesses dos membros do grupo.
Em grupos de forte coeso existe uma rejeio maior dos que se 
desviam das normas do grupo, e uma resistncia maior a ameaas 
exteriores, do que no caso de grupos de pequena coeso. Resumindo, 
poderemos dizer que o grau de coeso depende dos seguintes factores:
a) da atraco pessoal dos membros do grupo;
b) da atraco das funes e objectivos do grupo;
c) da extenso dos conflitos entre interesses pessoais e 
interesses de grupo;
d) da satisfao pessoal relativamente ao seu papel e estatuto 
social dentro do grupo;
e) do prestgio social da filiao no grupo e suas condies de 
acesso; e, finalmente,
f) da presso social que dele parte.


A coeso pode tambm ser de duas espcies: esttica ou dinmica. 
A coeso esttica baseia-se na constituio homognea do grupo, 
portanto, na preponderante semelhana dos caracteres sociais dos 
membros do grupo, como, por exemplo, no caso de um grupo de homens da 
mesma idade (Peergroup). A coeso dinmica baseia-se no facto de o 
respectivo grupo no chegar a uma situao essencialmente diversa dos 
grupos afins, apesar da modificao da sua estrutura e da crescente 
heterogeneidade dos caracteres sociais dos membros do grupo, como no 
caso, por exemplo, de processos de circulao de camadas sociais, 
como seja a transformao da estrutura social alem nos ltimos 150 
anos, em que em lugar da nobreza, da classe eclesistica, burguesia e 
dos camponeses apareceram os trabalhadores industriais e agrcolas, 
os empresrios, os empregados, como grupos sociais decisivos, onde 
existe mobilidade social cada vez maior. A coeso do grupo pode assim 
ser fortemente fortalecida pela espcie e pelo nmero da entrada de 
novos membros. A coeso possibilita, assim, no s a maneira de 
conhecer a formao interior e a estrutura do grupo, pondo o 
problemas da sua delimitao mais ou menos rigorosa, mas reala a 
importncia das diversas formas de entrada e sada do grupo. A forma 
mais espontnea de entrada , sem dvida, a da entrada no grupo por 
nascimento. Entra-se normalmente por nascimento numa famlia, numa 
classe e num povo, numa comunidade religiosa ou numa casta, fazendo 
parte deles sem qualquer mrito ou esforo prprio. E so 
precisamente os grupos cuja filiao se prende ao nascimento que 
determinam com maior intensidade a conduta social, pois nem a 
hereditariedade nem o meio social so suficientes para explicar 
satisfatoriamente o comportamento social do homem, como outrora se 
pensou. Para provar o que se disse bastar chamar a ateno para o 
facto de que uma e a mesma pessoa, se for transplantada num estado 
ainda capaz de formao para dentro de outro grupo social desta 
espcie, para outra famlia ou para um outro povo, assumir para o 
observador objectivo, em pouco tempo frequentemente, as opinies, 
atitudes, estruturas de sentimento e interesses destes grupos. A 
forma que mais se aproxima da entrada num grupo por nascimento  a 
entrada casual. Queremos com isto referir a integrao mais ou menos 
casual, resultante de relaes exteriores e prticas de um indivduo 
num grupo, como  o caso da entrada numa classe escolar e numa 
determinada unidade do exrcito, num determinado grupo de trabalho 
dentro de um turno, etc. Segue-se, depois, a entrada consciente num 
grupo, como, por exemplo, acontece com a entrada num clube 
desportivo, num sindicato, num partido poltico, etc. Como forma 
seguinte de entrada num grupo mencione-se a que est ligada a 
determinadas condies e pressupostos, e que queremos designar por 
entrada por admisso. Esse , por exemplo, o caso de admisso "s 
depois de inscrio pessoal" num seminrio, num clube por meio de 
escrutnio, isto , aps prvia votao secreta dos membros do clube.
        G. Eiserman, Sociologia, Fundao Calouste Gulbenkian, 1973, pp. 96-98.

        Texto 69

        Os Factores da Coeso


         Ainda que sejam concordantes e complementrias as precedentes 
definies, reflectem, em todo o caso, a multiplicidade e a 
complexidade das fontes de coeso. Podem-se distinguir, de um modo 
geral, factores extrnsecos -- anteriores  formao de tais grupos 
particulares ou registados imediatamente antes da instalao do grupo 
-- e factores intrnsecos prprios do grupo como tal. Entre os 
primeiros, convm notar, desde j, os que intervm em todos os grupos 
institucionais: por um lado, a influncia dos contrles sociais (que 
vo desde as formas legais do constrangimento at  presso da 
opinio pblica); por outro lado, a dependncia hierrquica ou 
funcional de um tal grupo num conjunto mais vasto (num escritrio, 
numa empresa, por exemplo). Enfim, certos factores so comuns  maior 
parte dos grupos: a disposio material que regula as redes de 
comunicao, a semelhana ou a diferena dos status sociais e dos 
quadros de referncia prprios dos indivduos reunidos.
Compreende-se perfeitamente que um grupo reduzido, em que todos 
os membros esto colocados de modo que se podem integrar facilmente 
(umas poucas pessoas ao redor de uma mesa) e que possuem em comum 
diversas caractersticas (idade, sexo, profisso, ideologia), 
comunicam mais rapidamente e mais intensivamente do que os 
participantes de uma reunio numerosa e diversificada. Teremos 
ocasio de voltar ao assunto a propsito do estudo das discusses de 
grupo; mas desde j se pode sublinhar que a proximidade, sob todas as 
suas formas -- espacial, social, cultural --, constitui um poderoso 
meio de facilitao.
Quanto aos factores intrnsecos da coeso, repartem-se segundo 
duas grandes categorias usadas pelas definies precedentes:
-- Factores de ordem scio-afectiva que conferem ao grupo o que 
os investigadores lewinianos chamam a sua "valncia" (ou 
estractividade) e que englobam certas motivaes, emoes e valores 
comuns. Precisemos que o termo "valor" no deve aqui ser tomado numa 
acepo particularmente idealista, mas no sentido mais geral de 
"urgncia sentida".
-- Factores de ordem operatria e funcional que atingem a 
prpria organizao do grupo, permitindo-lhe (ao menos parcialmente) 
satisfazer as suas necessidades e seguir os seus fins. 

        1. -- Os Factores Scio-Afectivos

Compreendem, essencialmente:
O atractivo de um fim comum. -- Este fim pode ser mais ou menos 
claro, segundo a idade e a natureza do grupo. Vivido como um projecto 
por vezes exaltante nos grupos espontneos em via de formao,  
percebido, com frequncia, de modo mais ritualista e mais prosaico 
nos grupos institucionais onde pode mesmo estacionar, no sem risco 
para a coeso. A sua fora atractiva depende no apenas da sua 
pureza, mas tambm da sua adequao ao nvel mdio das aspiraes do 
membro do grupo.
O atractivo da aco colectiva. -- Embora esta actividade seja 
um meio de conseguir o fim, tambm constitui por si mesma um motivo 
de satisfao; o sentimento de progresso para o fim constitui uma 
mediao entre aqueles dois atractivos, exigindo por efeito 
determinados sucessos.

O atractivo da pertena ao grupo. -- Este factor capital j est 
presente no desejo de um esforo comum que anima os precedentes, quer 
se trate de prosseguir uma finalidade material, de uma discusso ou 
de um jogo. Combina diversos afectos em que pode dominar, segundo os 
casos, um sentimento de poder (grupos em expanso, grupos de 
presso), de orgulho (grupo de prestgio) ou de segurana (o caso de 
todos os grupos bem estabelecidos).
 certo, porm, que para alm de todos estes afectos, o mbil 
fundamental  o de comunicar, de se unir, de algum modo, aos outros, 
fugindo  ansiedade da solido. A experincia clnica da vida 
afectiva dos grupos, como dos indivduos, inclina-nos para esta 
interpretao.
 o conjunto destes factores que determina o processo de 
identificao dos membros com o seu grupo e a intensidade (varivel) 
do sentimento do "ns". No seu mais alto nvel, este sentimento voga 
a situar o grupo como um valor transcendente e absoluto em relao 
aos seus membros e a qualquer outro valor exterior, ao mesmo tempo. 
Assim se explicam os sacrifcios pessoais de que so capazes certos 
sujeitos, e os fenmenos de fanatismo.
Esta identificao tende a identificar-se por expresses 
simblicas tangveis: nomes especficos, cantos, ritos, cerimnias e 
todos os sistemas "figurativos".
Outros factores se vm juntar a estes afectos propriamente 
colectivos:

O jogo de afinidades interpessoais. -- A filiao de uma pessoa 
num grupo pode, com efeito, depender, em grande parte, das simpatias 
electivas para com estes ou aqueles membros com os quais esta pessoa 
estabeleceu -- ou procura estabelecer -- relaes de amizade. Vimos 
como a corrente de investigao sociomtrica se ocupou especialmente 
em deslindar as redes afectivas espontneas presentes em todos os 
grupos e que podem, segundo os casos, reforar ou ameaar gravemente 
o papel das estruturas formais.
A satisfao de certas necessidades pessoais. -- No h dvida 
de que a participao num grupo -- e geralmente a qualquer situao 
colectiva -- pode consentir ao indivduo a satisfao de certas 
necessidades que exigem a presena de outro. Nesta perspectiva, o 
grupo apresenta-se mais como meio do que como fim. Entre estas 
necessidades, cuja intensidade varia consideravelmente segundo os 
sujeitos, consideram-se nomeadamente: as polares de domnio ou de 
dependncia; os impulsos agressivos, o desejo de prestgio, ou, mais 
simplesmente, o desejo de ser reconhecido, aceite; enfim, aquelas que 
se podem designar como necessidades "catrticas", que vo do simples 
desejo de manifestar os seus sentimentos diante de outrem ao de ser 
tomado em considerao, e a certas formas acentuadas de exibicionismo 
afectivo.
Importa precisar que estes dois tipos de factores constituem ao 
mesmo tempo um reforo e uma ameaa para a coeso. Um grupo que no 
lhe desse nenhum lugar poucas possibilidades teria de existir. Pelo 
contrrio, nos grupos em que os liames de intimidade privados passam 
 frente dos liames colectivos vero comprometida a sua unidade; e o 
mesmo acontece quando os membros fazem essencialmente do grupo um 
meio de satisfazer as suas tendncias ou interesses pessoais.

        2. -- Os Factores Scio-Operatrios

A este respeito deve considerar-se:
A distribuio e a articulao dos papis. -- Dependem ao mesmo 
tempo das actividades que se pretendem e das aptides dos diversos 
membros no concernente, segundo os casos, ao indivduos ou aos 
subgrupos afectados por uma idntica funo. Esta diferenciao 
funcional apresenta um aspecto horizontal (por exemplo, trabalho em 
cadeia numa equipa, mesa-redonda numa discusso) -- embora a exista 
j uma certa ordem, pois a aco precedente condiciona mais ou menos 
a seguinte --, e um aspecto vertical onde quer que exista hierarquia 
de facto ou de direito.
Nos grupos em vias de formao aparecem processos de 
diferenciao e de ajustamento que correspondem  emergncia 
progressiva de um sistema de papis mais ou menos nitidamente 
definidos e articulados. Nem se poderia, alis, falar de "grupo" 
seno quando tal sistema de papis, ao mesmo tempo interdependentes e 
complementares, est a ponto de funcionar.
, sobretudo, por ocasio das discusses livres, desprovidas de 
estruturas e de programas preestabelecidos, que  possvel: ou seja 
praticar uma observao objectiva e sistemtica daqueles processos, 
ou seja de os experimentar, de os viver interiormente, no quadro de 
certas situaes de formao. 
O comportamento do grupo e o modo de liderana. -- quer faa ou 
no faa alguma coisa, um grupo "comporta-se" na medida em que ele se 
mantm; mas o estudo dos grupos formais ou informais, revela que cada 
um dos membros exerce uma influncia diferente, em intensidade e em 
qualidade, sobre este comportamento. Compreende-se perfeitamente que 
nenhuma operao de produtividade (material ou intelectual) se pode 
efectuar sem um papel proeminente de um chefe ou de um dirigente do 
grupo. Mas a relao do chefe com os outros membros deve ser 
apreciada numa perspectiva de complementaridade, porque no depende 
exclusivamente s da atitude do chefe, mas das exigncias variveis 
da situao total (fim colectivo, pretenses e necessidades dos 
membros, posio do grupo no ambiente que o rodeia, etc.). Nesse 
sentido, o papel do chefe est menos ligado  singularidade de uma 
pessoa que  qualidade de uma funo de coordenao e de estmulo, a 
liderana que pode, alis, em certas condies, ser objecto de 
distribuio ou de transferncia. Conforme o estilo que adopte, o 
lder tanto pode reservar-se o poder de deciso, como tomar para si 
apenas um papel de "catalisador", com vista a facilitar a tomada de 
posio colectiva. Assim, a funo de liderana, segundo os casos, 
concentra-se inteiramente na pessoa de um chefe ou se difunde, de 
algum modo, no seio do grupo, que pode chegar, ento, a um estado de 
auto-regulao.
        J. Maisonneuve, A Dinmica dos Grupos, Livros do Brasil, pp. 30-35.

        Texto 70

        A Origem e a Subsistncia dos Pequenos Grupos

           Como surgem os pequenos grupos e como se mantm? Eis duas 
perguntas interessantes, formuladas pela primeira vez nestes moldes 
por Homans e Rieckey.

Segundo Znaniecki, um dos primeiros sistematizadores de entre os 
tericos do grupo, muitos grupos surgem pelo facto de uma srie de 
indivduos se associar espontaneamente e actuar voluntariamente em 
conjunto, tendo em vista determinado fim. Um exemplo: Verifica-se uma 
reunio feminina, com o fim de organizar uma demonstrao pblica a 
favor da manuteno da paz mundial. No caso de se tratar de uma nica 
demonstrao, a formao do grupo  temporria. Porm, se algumas 
participantes resolvessem fundar uma associao com o fim de prover  
paz mundial, recorrendo a auxlio de muitos dos seus membros, seria 
necessrio que a forma de organizao, os seus objectivos, as tarefas 
dos respectivos membros -- os seus papis -- se encontrassem 
delineados e formulados em estatutos.
J no voltar do sculo, Georg Simmel se ocupou com o problema da 
estrutura de grupo, ao investigar os pequenos grupos a partir das 
suas caractersticas fundamentais. Simmel defendia, por exemplo, o 
ponto de vista de que os grupos de trs no so estveis, visto 
existir sempre a tendncia de dois se associarem contra o terceiro. 
Estes pontos foram investigados recentemente de modo experimental, 
tendo-se podido comprovar, no essencial, a hiptese de Simmel. Por 
outro lado, o terceiro pode ser importante como rbitro. Porm, em 
determinadas circunstncias, o terceiro -- pensemos no papel de filho 
nico de um casal -- pode contribuir, de modo essencial, para a unio 
de um pare (que representa a mais pequena forma de grupo possvel). O 
nmero de membros e o tamanho de um grupo so factores importantes 
quando o grupo tem de se afirmar, quando tem de solucionar os 
problemas que se lhe pem. Parece-me interessante o que foi 
recentemente descoberto por um socilogo: que, nos Estados Unidos, as 
comisses do Congresso e certas comisses do Governo tm, em mdia, 
seis membros quando so convocadas para tomar deliberaes, e catorze 
membros quando exercem uma funo consultiva. No caso de grupos no 
formais -- ou seja, agrupamentos menos rgidos, tais como se 
constituem para irem dar um passeio, fazer compras, conversar, 
trabalhar -- o mesmo autor (J. James) encontrou em mdia dois a trs 
membros.
Estes pequenos grupos, nos quais passamos, segundo parece, a 
maior parte da nossa vida, pertencem aos grupos primrios que j 
citmos, ou face-to-face groups, segundo a designao de Cooley, isto 
, grupos cujos participantes se conhecem bem. Deles distinguem-se os 
grupos secundrios, ou seja, os grupos cujos membros no  necessrio 
que se conheam pessoalmente. Uma grande associao  um grupo 
secundrio, tal como a populao de uma grande empresa ou de uma 
cidade. Para fins de distino de grupos mais restritos e mais vastos 
propuseram-se ainda outras modalidades de distribuio. Assim, 
Tonnies distingue comunidade e sociedade. A mim pessoalmente, a 
distino em grupos primrios e secundrios parece-me particularmente 
elucidativa.

Cooley considerou certos pequenos grupos, como sejam a famlia e 
o grupo de jogos, os principais agentes da socializao. Simmel 
considerou igualmente os pequenos grupos como sistemas sociais em 
miniatura, que vale apenas estudar visto ser possvel compreender a 
partir deles os produtos sociais. De facto, os pequenos grupos 
pertencem, hoje em dia, aos objectivos mais importantes da 
investigao sociolgica. Seguidamente voltaremos a referir-nos a 
este assunto.
        Charlotte Buhler, A Psicologia na Vida do Nosso Tempo, Fundao Calouste Gulbenkian, 1971, pp. 382-384.

        Texto 71

        Chefia, Grupo e Massa

           O desenvolvimento, as espcies e os processos de chefia foram 
estudados, nos ltimos decnios, talvez mais do que qualquer outro 
fenmeno social, partindo certamente do pressuposto de que muito 
haveria a remediar neste mundo, caso fosse possvel criar nele uma 
chefia verdadeiramente valiosa. Mais difcil ainda do que a definio 
de grupo  a definio de chefia, porque essa expresso  utilizada 
para lugares de primazia de espcie muito diversa.
Tentemos esclarecer algumas das caractersticas decisivas. 
Quaisquer que sejam as circunstncias, um chefe  aquele cuja 
actuao se desenvolve em determinada situao social, na qual ele 
exerce uma influncia sobre outros em determinados sentidos. Essa 
influncia pode resultar de facto das circunstncias, pode realizar-
se eventualmente sem esforo da pessoa em questo ou pode ser 
conquistada por algum que se sinta destinado para chefe. E, 
finalmente, pode algum, ainda, ser simplesmente nomeado chefe.
Os chefes espirituais da humanidade, de verdadeira grandeza, 
que, devido ao seu gnio, anunciam novas ideias, encontram-se, na 
maior parte dos caos, mas no necessariamente, conscientes do seu 
papel inovador. Contudo, a sua influncia apenas demonstra-se, muitas 
vezes, no decorrer dos tempos e atravs da histria; no  
fundamentada em primeiro lugar pela afirmao dos chefes como tal, 
mas sim pelo facto de as suas ideias modificarem o universo.
O outro extremo  constitudo, de certo modo, pelos que so 
nomeados chefes; portanto, por aqueles que so elevados por outros a 
posies de comando, sem necessariamente terem aptido para chefes. 
Os motivos pelos quais so nomeados chefes ou lhes  atribuda uma 
posio de chefia podem ser de ordem histrica ou encontrarem 
determinado objectivo. Deste modo, o monarca que ascende ao trono 
pela ordem da sucesso  chamado a reinar de acordo com a lei, o que 
no quer dizer que possua verdadeira aptido para chefia. O mesmo se 
pode aplicar sobretudo a cargos da mais variada espcie. Em 
determinadas circunstncias, o papel de chefe, adquirido em tais 
situaes,  mais simblico ou nominal do que real.
No meio, entre estes extremos, encontra-se daquele que se sente 
destinado para chefe em qualquer domnio, que anseia por exercer 
influncia sobre os demais e que tenta, ento, actuar segundo o papel 
de chefe. Nesta espcie de chefia, a durao e a extenso da durao 
dependem de uma srie de factores. Estes so a personalidade do 
chefe, a situao em que ele tenta exercer a sua influncia, os 
partidrios que tenha granjeado e os objectivos que persegue. 

Tannenbaum, Wechsler e Massarik, que h pouco se ocuparam 
pormenorizadamente com o fenmeno do moderno chefe de empresa, 
consideram apenas chefia propriamente dita esta terceira modalidade 
intermdia, visto s aqui a dinmica de chefe adquirir a sua completa 
expresso. Segundo o seu ponto de vista, para uma chefia propriamente 
dita  essencial que algum tenha verdadeiramente a inteno de 
influenciar outros e que a sua actuao efectiva resulto do modo como 
a sua personalidade e os seus objectivos consigam impressionar, em 
determinada situao, os seus eventuais seguidores.
Com Hartley e Hartley demonstraram, neste contexto  
particularmente de notar o facto de, nos Estados Unidos, tanto no 
caso de chefia militar como no caso das grandes organizaes 
econmicas, se defender o ponto de vista de que, no futuro, as 
posies de relevo devero ser ocupadas por verdadeiros chefes e no 
por simples funcionrios com plenos poderes, como era costume 
acontecer at aqui.
Repetidas vezes se investigou o problema de como se caracterizam 
as personalidades de chefe. Originariamente defendia-se a opinio de 
que o chefe representava um determinado tipo de personalidade ou se 
encontrava imbudo de determinadas qualidades que o distinguiam. A 
hiptese de certas particularidades de carcter so tpicas da 
personalidade de chefe parecia comprovada pelo facto de os chefes, de 
um modo geral, possurem energia, inteligncia -- que no deve, no 
entanto, ser demasiado superior --, confiana em si prprios, desejo 
de prestgio social, ambio e vontade de vencer em mais alto grau do 
que a mdia das pessoas. No entanto, todas essas qualidades surgem 
tambm nos no chefes. Sanford chegou, alm disso,  concluso de que 
no existem dois estudos que coincidam quanto s caractersticas que 
se devem atribuir a um chefe.
Assim, hoje em dia prefere-se perfilhar o ponto de vista de que, 
para o desenvolvimento do papel de chefe, no  to decisiva a 
personalidade de chefe como tal, mas, em muito mais alto grau, a 
actuao conjunta dos factores acima indicados. Chowdhuy e Newcomb 
descobriram, por meio de experincias realizadas com quatro grupos, 
que os chefes escolhidos se caracterizavam pela maior preciso com 
que emitiam um juzo sobre as opinies do grupo. Quer dizer, que eles 
possuam uma maior "sensibilidade social".
Que motivo induz os seres humanos a aspirar ao papel de chefe? 
De modo geral, consideram-se motivos essenciais as necessidades, 
intimamente ligadas entre si, de poderio, de prestgio e de ocupar um 
lugar de primazia; a essas poder-se-o juntar, em diverso grau, a 
necessidade de fazer actuar as capacidades criadoras que encontram a 
sua expresso na conformao das questes humanas. 
Assim, segundo Bales, um dos mais conhecidos socilogos activos 
neste campo, os chefes mais coroados de xito so, sobretudo, aqueles 
cujas capacidades de dominar e de dirigir se encontram ligadas  
possibilidade de contribuir com ideias construtivas prprias. Os que, 
desta forma, se encontram aptos a realizar os objectivos ou misses 
dos grupos por eles dirigidos so, a final, mais influentes do que os 
chefes que gozam de popularidade geral.
        Charlotte Buhler, A Psicologia na Vida do Nosso Tempo, Fundao Calouste Gulbenkian, 1971, pp. 393-395. */* ESTA obra no est concluda)
  
 L. Lapicque, Physiologie, Gnrale du systme nerveux (n.t. 
psychologie, Alcan, 1930, t.i); La machine nerveuse, Flamarion, 1942; 
P. Chauchard, le Systme nerveux et ses inconnues, col. que Sais-je, 
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 H. Piron, Le Cerveaux et la Pense, Alcan, 1923. 
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 Jean Delay, Dissociations des alphasies, in Les Dissolutions de 
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 H. Head, Studies in neurology, t I, e t. II.
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 H. Demole, Pharmatkologisch-anatomische untersuchungenzum 
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 H. Roger, Physiologie de l'instinct et de l'intelligence, 
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 A. Pzard, Modifications priodiques ou dfinitives des 
caractres sexuels secundaires chez les gallinacs (ann. des Sciences 
naturelles, 1922).
 Esta mesma distino entre a infra-estrutura biolgica e a 
supra-estrutura social pode fazer-se a propsito do instinto 
maternal, acerca do qual os notveis trabalhos de E. Rabaud mostraram 
as relaes com as secrees hormonais ovricas, no animal.
E. Rabaud, l'Instinct Maternel chez les mamifres (Journal de 
Psychologie, 1921, XVIII, 6, pp 487-495).
 G. Russy e Mosinger, tude anatomique et Physiologique de 
l'Hypothalamus (rev. neurologique, 1934, I, 1-35) e l'Hypophyse in 
Trait de Physiologie, de Roger e Binet.
 Rmy Collin, Inervation de la glande pituitaire, Hermann, 
1937.
 Von Monakow e Mourgue, Introduo biolgica ao estudo da 
neurologia e da psicopatologia.
 J. Lhermitte, Les Mcanismes du cerveau, Gallimard.
 Jean Delay, Les Dissolutions de la Mmoire, PUF, 1942, 2 ed., 
1949.
 Isto para no falarmos da hereditariedade das mutilaes, que 
no  admitida pelos prprios partidrios da transmisso do 
adquirido. Toda a gente sabe que um homem que perdeu acidentalmente 
uma perna ou um brao pode procriar filhos normais. 
 Os principais factos da "transmisso do adquirido" observados 
pelos mitchurianos no reino animal diriam respeito a caracteres 
sanguneos transmitidos pela me depois da ablao do bao (exp. de 
Sakaharoff).
 Objecta-se tambm com a existncia de doenas hereditrias que 
devem ter sido adquiridas numa altura ou noutra, sem o que teramos 
de admitir que o homem primitivo possua todas, pelo menos 
virtualmente, no seu patrimnio hereditrio. Seja; mas se foram 
adquiridas, foram-no pela substncia germinal, e a reside toda a 
diferena , porque um carcter adquirido  um carcter adquirido pelo 
corpo (ou soma) do indivduo.  
 Exemplo caricatural desse despojamento  dado por Marco 
Aurlio, VI, 13: pode-se fazer uma representao do que so as carnes 
e os outros alimentos do gnero dizendo a si prprio: "isto  o 
cadver de um peixe; aquilo, o cadver de uma ave ou de um porco". Ou 
ainda, a respeito do Falerno: " o suco de um cacho de uvas"; da toga 
pretexta: " plo de ovelha embebido em sangue de molusco". Do amor: 
" o roar de uma mucosa e a emisso espasmdica de uma secreo".  
verdade que o alvo da reduo estica no  a cincia, mas o 
estabelecimento de um sistema de segurana interna, uma psicoterapia.
